Imprensa deturpa declarações de Barusco

O depoimento do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, não havia terminado e os principais jornais já manchetavam distorções: "Barusco diz que propina passou a ser institucionalizada em 2004", publicou a Folha, e "Propina passou a ser 'institucionalizada' a partir de 2004, afirma ex-gerente à...

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O depoimento do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, não havia terminado e os principais jornais já manchetavam distorções: “Barusco diz que propina passou a ser institucionalizada em 2004”, publicou a Folha, e “Propina passou a ser ‘institucionalizada’ a partir de 2004, afirma ex-gerente à CPI”, publicou o Estadão. Não foi, entretanto, o que ele falou

Por Patricia Faermann, no Jornal GGN

A delação do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, à CPI na Câmara dos Deputados não havia terminado e os principais jornais já manchetavam distorções: “Barusco diz que propina passou a ser institucionalizada em 2004”, publicou a Folha, e “Propina passou a ser ‘institucionalizada’ a partir de 2004, afirma ex-gerente à CPI”, publicou o Estadão. Não foi, entretanto, o que Barusco delatou.

Folha e Estadão manchetam distorções
A informação, ao contrário, foi divulgada por um dos deputados. Ao formular a pergunta, disse que o ex-gerente teria afirmado – em delação premiada à equipe de investigação da Lava Jato, do MPF e PF do Paraná – que a institucionalização das propinas ocorreu a partir de 2003. O deputado então questionou se alguém foi designado para essa institucionalização.
Pedro Barusco respondeu: “não foi que houve a institucionalização, mas quando eu entrei, em 2004, quando eu percebi, já vi que era institucionalizado, porque nos contratos sempre havia um percentual destinado à propina. Tinha na área do Paulo Roberto, na do Renato Duque”.
Apesar da informação, o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), que foi o próximo a falar, utilizou o seu tempo de perguntas para explanar a sua visão sobre a investigação. Apresentou dados do esquema, criticou o PT, e afirmou que as declarações de Barusco mostravam como o esquema passou a ser institucionalizado a partir de 2004, ainda que o ex-gerente da Petrobras não tenha afirmado isso.
Sete Brasil
Durante as perguntas da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), Barusco defendeu o projeto da Sete Brasil e também desmentiu que a empresa teria sido criada só para receber propina. Disse ter conhecimento de 90 contratos que houve o desvio de recursos, enquanto foi executivo da estatal. Mas que a propina “não inviabilizava ou tirava o mérito do projeto”.
“O projeto da Sete Brasil, a estruturação, foi muito bem feito, muito bem elaborado. O problema que houve foi o pagamento de propina. (…) A Sete, o projeto, é muito interessante, inteligente, só que era muito dependente do financiamento do BNDES. E, com a descoberta de que houve pagamento de propina nos contratos, os agentes financeiros se retraíram e se não houver o aporte previsto, a Sete pode realmente quebrar e não ter condições de honrar os compromissos”, disse Barusco, preocupado.
E voltou a defender: “tem que separar o que houve de errado. Eu, inclusive, mostrei o que houve de propina: no máximo R$ 10 milhões, e isso parou. Mas só de [contratos de] construção foram R$ 20 bilhões, [contratos] de operação R$ 80 bilhões [de lucro]. Além de uma geração de emprego enorme que tá sendo ameaçada por um pagamento de propina de R$ 10 milhões”, ressaltando que, apesar de grande o desvio, é pequeno diante dos lucros e benefício à economia.
Também negou que a sua indicação para direção da Sete Brasil tenha sido proposital para a propina. “Eu tinha acabado de me aposentar, quem me indicou foi a Petrobras”. Quando citado a influência do diretor de Serviços no cargo, Barusco disse: “isso que eu não sei indicar, a Petrobras me indicou. Quem foi a pessoa, quem defendeu a minha colocação, eu acho que foi o Renato Duque e o Gabrielli [ex-presidente da Petrobras], mas era difícil achar outra pessoa [para ser presidente da Sete Brasil]. Foi uma coisa natural, eu participei desde o início [da formação da Sete]”.
PT
Barusco afirmou que não tinha contato com Delúbio Soares ou com José Dirceu, que chegou a encontrar e conversar com o último em reuniões e jantares de amigos em comum. “Teve um casamento, teve um jantar na casa de amigo em comum, um outro jantar na casa de outro amigo em comum, resume-se a isso”, afirmou.
Ao explicar porque descreveu o esquema de corrupção da Petrobras como sistêmico, na delação premiada, afirmou que se referia a 2008, quando “nos contratos, de algumas empresas, já estava embutido o pagamento de propinas, já estava sistematizado, de modus operandi”. “Era o dia a dia dessas empresas”, disse.
Mais cedo, Pedro Barusco contou que começou a receber propina em 1997, que a partir de 2004, quando já ocupava o cargo de executivo, tinha “o pagamento quase que automático”.


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