Minas de Minas: graffiti pelo empoderamento feminino

Se o graffiti já enfrenta preconceitos, o lugar da mulher nesse contexto pode ser ainda mais complicado. Por isso, grafiteiras como as mulheres do Crew Minas de Minas, de Belo Horizonte (MG), se...

1902 0

Se o graffiti já enfrenta preconceitos, o lugar da mulher nesse contexto pode ser ainda mais complicado. Por isso, grafiteiras como as mulheres do Crew Minas de Minas, de Belo Horizonte (MG), se uniram para garantir o espaço feminino e promover eventos para as mulheres

Por Jarid Arraes

O graffiti é uma arte urbana com grande potencial político, pois é uma ferramenta de problematização, onde temáticas densas e complexas podem ser apresentadas de forma impactante e gerar reflexão a partir de um simples encontro cotidiano com um muro colorido. Mas se o graffiti já enfrenta preconceitos, o lugar da mulher nesse contexto é ainda mais complicado.

São muitas as grafiteiras que fazem arte pelas ruas, mas que acabam sofrendo discriminação de gênero, racismo ou violência sexual – que pode vir tanto na forma de assédios verbais quanto na de atitudes invasivas. Como em todos os segmentos artísticos, há muito a ser discutido em torno da presença feminina e das dificuldades que as artistas enfrentam no meio apenas pelo fato de serem mulheres.

Por isso, grafiteiras como as mulheres do Crew Minas de Minas, de Belo Horizonte (MG), se uniram para garantir o espaço feminino e promover eventos para as mulheres.

O Minas de Minas é formato por quatro grafiteiras: Krol (Carolina Jaued), Nica (Nayara Gessyca), Musa (Louise Libero) e  Viber (Lidia Soares). Apesar de deixarem a identificação feminista como questão individual de cada integrante, é inegável que elas repassam um discurso a favor do empoderamento feminino, pelas ruas e espaços onde as mulheres podem – e devem – fazer arte.

Revista Fórum – Como surgiu a ideia de criar um crew de mulheres grafiteiras? Por que um grupo só de mulheres?

Nica – A crew Minas de Minas traz a efetividade das mulheres que se faz notável em todos os aspectos. E cada vez mais é necessário o empoderamento do ser mulher, principalmente quando se está à frente de algum movimento. É com esta base que nós, grafiteiras, sentimo-nos na necessidade de unir nossas forças e ideias, que têm como objetivo ser um movimento de frente dentro do graffiti nacional e, com inovação, formar uma crew feminina de graffiti. Criamos a crew em 2012; todas as integrantes já eram grafiteiras de muitos anos e sentimos a necessidade expandir a ideia para que novas mulheres pudessem se juntar ao movimento.  A crew tem como objetivo fomentar projetos, compartilhar e adquirir experiências em outros estados e países e ser um ícone, uma referência para o crescimento da cultura hip-hop que vem desde muitos anos, passada há gerações e que atingiu todas nós.

Musa – Durantes anos participando de eventos e projetos, cada uma de nós desempenha um papel de destaque como parte da cena do graffiti feminino de Belo Horizonte. Inicialmente percorrendo nossos caminhos dentro da street art, participando de eventos e projetos de grande porte em que a mulher sempre está inserida e integrada com o universo masculino. Podemos destacar dentre eles o Arena da Cultura, I Bienal Internacional de Graffiti, oficinas de graffti e projetos que vêm destacando a mulher, como a pintura ao vivo no Duelo de MCs em defesa das mulheres e eventos em todos os estados do Brasil.

Imagem: Reprodução / Facebook

Fórum – Vocês já sofreram algum caso de machismo, discriminação ou passaram por algum episódio de violência por serem mulheres grafiteiras? Há aceitação por parte dos homens?

Viber – Atualmente, a aceitação dos homens – e especificando esses “homens” como grafiteiros atuantes da cena – é em sua maioria bastante respeitosa. A mulher no graffiti, como na cultura hip hop, sempre deixa claro a que veio e isso é bem compreendido no meio. Mas existe – não só homens – quem discrimine o fato de uma mulher “não seguir os padrões”. Por isso, muitas vezes recebemos agressões verbais, principalmente de transeuntes que não aceitam o fato da mulher ocupar o espaço público e estar nas ruas, com palavras desrespeitosas, de cunho ofensivo e invasivo.

Fórum – Há algum tipo de dificuldade ou desafio que mulheres grafiteiras enfrentam, mas homens grafiteiros não?

Viber – As dificuldades, em sua maioria, são encontradas na vivência na rua, nas experiências e em situações que muitas vezes dependem das pessoas no entorno, seja uma situação de perigo em que, por ser mulher, alguém se acha no direito de roubar seus sprays, fazer ameaças e até dizer palavras desrespeitosas. Os desafios da rua são os mesmos entre homens e mulheres, o fato que agrava é só da “libertinagem” que as pessoas acreditam ter por você ser mulher.

Krol – Fora isso, fazemos os mesmos trabalhos e traçamos objetivos parecidos, como participar e estar presente em eventos, exposições e espaços ministrando oficinas. A necessidade de divulgação dos trabalhos e a posição no meio parte de cada artista.

Fórum – Qual a importância do graffiti para o combate à violência contra as mulheres e para a quebra de estereótipos de gênero?

Krol – A importância do graffiti citada não é nada se não for pela sua idealizadora. Essa importância existe na figura da mulher que se coloca à frente dessas ideias e em prol dessas causas. Estamos conquistando nosso espaço por mostrar que somos capacitadas no que fazemos e o que passamos para estar nessa posição. Assim, as mulheres se identificam, procuram e preocupam com informações para enfrentar questões do cotidiano.

Resistência sempre. Continuamos reexistindo.

(Foto de capa: Arquivo pessoal)



No artigo

x