O cinismo e a ignorância de um blogueiro da Veja

Medo do povo explica as ofensas de Augusto Nunes a Hugo Chávez, ao MST e a Stédile (que já recebe ameaças de morte da extrema-direita)

592 0

Medo do povo explica as ofensas de Augusto Nunes a Hugo Chávez, ao MST e a Stédile (que já recebe ameaças de morte da extrema-direita)

Por Igor Fuser, na Carta Maior

Uma simples menção a Hugo Chávez ou ao MST, em separado, já é suficiente para fazer os porta-vozes da mídia conservadora espumarem de ódio. Quando aparecem juntos, a raiva se junta ao medo diante do que representa a força social simbolicamente expressa por esses dois nomes, o de um homem e o de uma organização de trabalhadores.

Nesta semana, ambos se tornaram o alvo de uma peça especialmente repulsiva do pseudo-jornalismo que se pratica numa revista outrora respeitada, hoje um decadente panfleto de extrema-direita, sem prestígio nem credibilidade, editado às margens sujas do rio Pinheiros em São Paulo.

Hugo Chávez, o estadista que teve sua memória achincalhada em artigo publicado por Augusto Nunes em seu blog no espaço virtual da Veja, governou a Venezuela – democraticamente – durante quatorze anos, de 1999 a 2013. Seus compatriotas o escolheram para o cargo de presidente quatro vezes seguidas, sempre por ampla maioria de votos, em eleições livres e limpas, certificadas por centenas de observadores internacionais, entre eles o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter.

Durante o período em que Chávez governou a Venezuela, os índices de pobreza se reduziram à metade, o analfabetismo foi erradicado, milhões de moradores dos bairros pobres e das zonas rurais tiveram acesso, pela primeira vez, a um atendimento médico digno, aos cuidados de um dentista. O petróleo, explorado durante um século em proveito exclusivo do capital estrangeiro e da elite nativa, passou finalmente a beneficiar seu verdadeiro dono, o povo. Alimentos e outros produtos essenciais são fornecidos à população pela metade do preço de mercado, subsidiados com a renda petroleira. Hoje a Venezuela é o país do mundo com maior proporção de jovens na universidade, e o primeiro a cumprir as Metas do Milênio estabelecidas pela ONU como referência de bem-estar social.

Já o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST, é a maior organização camponesa do mundo. Fundado há 35 anos, expressa a continuidade da luta secular no campo brasileiro pela “terra aos que nela trabalham”. Centenas de seus militantes foram assassinados por pistoleiros a soldo do latifúndio, ou agronegócio, como é chamado pela imprensa. Graças à luta heroica dos sem-terra, mais de 1 milhão de famílias brasileiras vivem atualmente em assentamentos da reforma agrária.

Mas o alcance do MST vai muito além da batalha pela terra. Em seu esforço de educação popular, o movimento construiu 1.500 escolas nos locais onde seus militantes acamparam ou se instalaram, educou 160 mil crianças e adolescentes e formou mais de 4 mil professores. Hoje conta com médicos, educadores, advogados e agrônomos nascidos em acampamentos ou assentamentos, e que tiveram acesso ao ensino superior por meio de convênios com instituições da rede pública. A agenda do MST também incorpora outras bandeiras justas, com destaque para a defesa de uma alimentação saudável, sem transgênicos nem agrotóxicos, para todos os brasileiros.

Informações básicas como essas, expostas nos parágrafos acima, deveriam ser suficientes para que qualquer pessoa decente adotasse, ao escrever sobre Hugo Chávez ou sobre o MST, uma atitude de respeito, independentemente de suas preferências ideológicas. Mas não.

O preconceito, a mentira, o cinismo e a mais cascuda ignorância são os traços que definem o tal post na revista da Marginal. Nunes expressou, aí, o quanto um pequeno e despretensioso vídeo, de apenas 16 minutos, produzido por comunicadores de movimentos sociais em homenagem a Chávez por ocasião do segundo aniversário do seu falecimento, foi capaz de desagradá-lo. Ao ofender tudo e todos os que viu diante de si, o autor ignorou, ou fingiu ignorar, que Rafael Correa é o presidente mais popular em toda a história do Equador, que João Pedro Stédile foi recebido recentemente pelo papa Francisco no Vaticano, com todas as honras, como representante – de quem mesmo? — do MST (clique aqui para saber mais sobre as ameaças de morte da extrema-direita a Stédile)

O escriba, pago pelos donos da revista da marginal, deveria se olhar no espelho antes de vomitar infâmias contra homens e mulheres de coragem, que não hesitaram em colocar seu talento e sua vida a serviço de um ideal coletivo de emancipação social. Enquanto Chávez, Maduro, Lula, Correa, Lugo e Stédile arriscavam a pele na luta contra tiranos e oligarcas, ele, o articulista que enche a boca para falar no “estado democrático de direito”, bajulava o ditador chileno Augusto Pinochet nas páginas de O Estado de S. Paulo, promovia demissões em massa no Zero Hora e provocava o riso dos colegas ao publicar na revista Época um inesquecível necrológio de Jorge Amado quando o escritor ainda estava vivo. Isso, para dar apenas uma noção de quem é esse jornalista de longa carreira, e dado a momentos de euforia inexplicável.

Os ataques destemperados contra governos, entidades e personagens que têm em comum o compromisso com o povo refletem, na realidade, um sentimento de pânico entre os magnatas da mídia brasileira – os patrões de Nunes. Só o pânico diante da organização política dos desprivilegiados e do avanço dos governos progressistas pode explicar, por exemplo, o que levou o herdeiro do clã dos Mesquita a sair do conforto do seu gabinete no Estadão para se fazer fotografar, num comício da campanha de Aécio Neves, segurando um cartaz onde se lia: “Foda-se a Venezuela”.

No caso de Nunes, um “democrata” que seleciona os entrevistadores do programa “Roda Viva” na TV Cultura (sim, ele trabalha, também, numa emissora mantida com dinheiro público) pelo critério da adesão às suas próprias idéias reacionárias, não é difícil detectar de onde provém o medo que se esconde por trás das piadinhas de mau gosto e das injúrias furibundas. Ele mesmo, numa sucessão de atos falhos freudianos, expõe à luz do dia os demônios que o apavoram.

O motivo de tanto temor, explicitado no seu texto, é a democracia participativa da Venezuela, o legado histórico de Chávez, as evidentes semelhanças entre o Brasil e a pátria de Bolívar, “a luta continental contra o inimigo comum”. Os “cucarachas”, como o escriba se refere a nós, latino-americanos que assumimos nossa identidade cultural, assustam a burguesia, isso é um fato.

Para finalizar, faço questão de ressaltar aqui, por uma questão de justiça, um único elemento positivo nesse post tão fétido quanto as margens do rio onde se situa a empresa que o publicou. Graças ao blog de Nunes, tomei conhecimento da existência desse interessante vídeo intitulado “Chávez vive no coração do Brasil” – uma justa e singela homenagem de lutadores do povo brasileiro ao maior líder da América Latina neste início de século 21.

Você pode conferir no link: https://www.youtube.com/watch?v=r4h52fwUemM
Se o vídeo incomodou tanto, é porque alcançou seu objetivo.
_________________

(*) Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela USP, é professor no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC. Foi coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Como jornalista, trabalhou no jornal Folha de S. Paulo e nas revistas Veja, Exame e Época, entre outras publicações. Participa atualmente do conselho editorial do “Le Monde Diplomatique Brasil” e do “Brasil de Fato”.



No artigo

x