Repensando o lugar social do protestantismo: um ato em prol dos direitos da mulher

Algumas igrejas na cidade de São Paulo se colocam contrárias ao “ópio do povo” como analgesia social e, de maneira heterogênea, mas com grande alcance, propõem um evangelho libertador. Entre elas, encontra-se Igreja Batista em Vila Salete (IBAVISA), que no último domingo (8) realizou...

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Algumas igrejas na cidade de São Paulo se colocam contrárias ao “ópio do povo” como analgesia social e, de maneira heterogênea, mas com grande alcance, propõem um evangelho libertador. Entre elas, encontra-se Igreja Batista em Vila Salete (IBAVISA), que no último domingo (8) realizou manifestação para marcar o Dia Internacional da Mulher

Por Leandro Seawright*

Em 1844, Karl Marx escreveu em sua “Crítica da Filosofia do Direito”, de Hegel, que “a religião é o ópio do povo”. Não foi apenas Marx quem comparou o cristianismo às “substâncias anestésicas”, pois Bruno Bauer, Ludwing Feuerbach, Immanuel Kant argumentaram nessa direção.

Evidentemente, Marx não aceitava, entre outras coisas, que o cristianismo apresentasse uma “utopia redentora” ao proporcionar anestesia aos efeitos nefastos do sistema de opressão social e capitalista. Em seu texto clássico sobre “O socialismo e as Igrejas”, de 1905, Rosa Luxemburgo denunciou alguns “sacerdotes cristãos”, e, ao mesmo tempo, identificou os “outros” cujas atitudes eram diferentes daqueles “anestesistas religiosos”.

Luxemburgo reconheceu que nem todos os sacerdotes eram fundamentalistas e reacionários, portanto. Ela disse, por outro lado, que “desde o momento em que os trabalhadores do nosso país e da Rússia começaram a lutar corajosamente contra o governo czarista e contra os exploradores capitalistas, notamos cada vez com mais frequência que os padres, nos seus sermões, se lançam contra os trabalhadores que lutam”.

Além disso, Luxemburgo aduziu que os religiosos ao invés de “confortarem as pessoas que estão cheias de preocupações, e cansadas pela vida difícil, e que vão à igreja com fé no Cristianismo”, na verdade, “fulminam os trabalhadores que estão em greve e os opositores do governo” opressor. Esses religiosos “exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência”.

Essa lógica religiosa opressora tem sido uma constante na sociedade capitalista, agora neoliberal; inusitadamente, a sociedade brasileira, que tem nuanças religiosas híbridas, também aderiu à cultura evangélica do “fast-food gospel”, de mercado. Os ramos protestantes que foram historicamente progressistas em relação à liberdade religiosa na República nascente, em 1889, por exemplo, (des)converteram-se ao fundamentalismo estadunidense recrudescido no início do século XX com a proposta “salvacionista” que dissociou o “espírito redimido” do “corpo oprimido”.

Algumas igrejas na cidade de São Paulo se colocam contrárias ao “ópio do povo” como analgesia social e, de maneira heterogênea, mas com grande alcance, propõem um evangelho libertador. Entre elas, encontra-se a IBAVISA, Igreja Batista em Vila Salete. Esta Igreja possui uma proposta na contramão do fundamentalismo religioso e, não apenas por isso, tem alcançado um grande público no Bairro da Penha, em São Paulo. A visão da comunidade é ser “um farol do Reino de Deus na cidade de São Paulo” por meio de iniciativas que demonstrem a integralidade do evangelho que revoluciona a história de vida, que liberta da opressão. No último domingo (8) – Dia Internacional da Mulher – a Igreja fez um ato em prol dos direitos das mulheres conquistados com luta social durante o século XX. A liderança afirmou que a “IBAVISA é em favor da Palavra – contra a violência doméstica, o ‘feminicídio, a interpretação fundamentalista das Escrituras e a discriminação de gênero”. Declarou da mesma forma que “somos favoráveis aos direitos da mulher, aos direitos humanos e a igualdade bíblica entre os gêneros. Também desejamos que mais políticas públicas em favor da mulher sejam feitas para uma sociedade mais justa”. 

Após uma breve retomada historiográfica e uma avaliação sobre os dados tanto a respeito das injustiças diversas, quanto das violências ainda praticadas contra as mulheres, a liderança daquela comunidade cristã promoveu um ato envolvendo mulheres e homens, de mãos dadas, unidos pelos mesmos propósitos libertários. Grande parte das mulheres foi de branco ou de vermelho para simbolizar a luta feminina contrária às violações – pela paz, pelo trabalho, pelos direitos das trabalhadoras.

Então me lembrei, outra vez, de Luxemburgo que disse ser “verdade que encontramos sacerdotes de outra espécie” e que existem alguns “que não procuram lucros”, mas estão prontos para ajudar os oprimidos em seus sagrados gritos por libertação. Para finalizar, chamo a atenção acerca da “espantosa contradição entre as ações do clero e os ensinamentos do cristianismo” que “deve levar-nos todos a refletir”. Ao contrário de montar “milícias da fé” inspiradas por um “militarismo tardio” ou agredir aqueles que creem de forma diferente, a IBAVISA disse no último Dia Internacional da Mulher: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” – Jesus de Nazaré; E ainda: “a religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”, Tiago.

(*) Leandro Seawright é doutorando em História Social (FFLCH/USP). Contato: leandroneho@gmail.com.



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