Trilhões de motivos para defender a Petrobras e o Brasil

Recentemente li um artigo do escritor e jornalista norte-americano F. William Engdahl, escrito em novembro de 2014 na Revista Neo, falando sobre o interesse direto dos EUA na eleição de 2014 e na desestabilização do...

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Recentemente li um artigo do escritor e jornalista norte-americano F. William Engdahl, escrito em novembro de 2014 na Revista Neo, falando sobre o interesse direto dos EUA na eleição de 2014 e na desestabilização do Brasil. Mesmo que não o endosse integralmente, fiquei curioso. O tema é inclusive algo recorrente em vários debates nas redes sociais também.

Alguns poderão achá-lo por demais conspiratório, mas quando se fala em geopolítica e interesses corporativos relativos ao petróleo, a própria história nos revela que nem tudo é exagero. Mesmo que se concorde ou não integralmente (ou em nada) com o assunto, é necessário o questionamento: a quem mais interessaria um Brasil paralisado através de maciços ataques ao Executivo (principalmente) e à nossa maior empresa estatal, que possui hoje o controle de uma reserva de petróleo no pré-sal que supera TRILHÕES –  isso mesmo – de dólares?

O valor estratégico das reservas do Pré-Sal é inegável e já havia sido evidenciado em 2013 pelo jornalista Bob Fernandes (tive a honra de conhecê-lo quando fui colunista no Terra Magazine) neste ótimo comentário na TV Gazeta (abaixo):

Recentemente foi iniciado talvez o maior processo de combate à corrupção no Brasil, através de resultados da chamada Operação Lava-Jato (fato que já repercute pelo seu ineditismo), a qual já teve de efeito concreto via repatriamento (a recuperação no exterior por meio de ações conjuntas do Ministério Público Federal, Justiça Federal e Ministério da Justiça) de centenas de MILHÕES de dólares que haviam sido depositados em contas no exterior. Este já é o maior valor recuperado, em toda história brasileira, de dinheiro advindo da corrupção, algo que pode superar um BILHÃO de reais, a depender do desenrolar das investigações, como vem apontando declarações recentes das autoridades à frente da Operação e suas inúmeras delações premiadas.

Talvez não seja incorreto dizer que o Brasil hoje não viva o auge da sujeira, mas talvez o que seja início de uma grande limpeza estrutural. E isso somente é possível porque as instituições funcionam com autonomia e liberdade.

Mesmo assim, há de se questionar o fato de que alguns que incitam ao protesto e pedido de impeachment da presidente Dilma simplesmente se calam em relação a outros escândalos de corrupção (quando não envolvem o governo que se pretende derrubar), mas execram de forma reiterada e seletiva outro que é alvo de uma investigação que apenas começou.

Por que essa seletividade com o arcabouço nítido de inviabilizar um Governo eleito democraticamente e por conseqüência todo um País, ao jogar de forma dirigida a opinião pública contra uma gestão recém-reeleita, justamente quando a ponta de um enorme iceberg começa a ser finalmente apurada e punida? A política brasileira resume-se hoje a um bizarro Fla-Flu em que duas torcidas se acusam ou há algo mais profundo a ser cuidadosamente considerado?

Ser contra a corrupção em todas as esferas, uma chaga secular no Brasil e pelo mundo, não é ser contra nossa maior e mais estratégica estatal nem a favor de uma desestabilização institucional que nos deixe vulneráveis a inúmeros interesses por demais perigosos e ameace nossa própria soberania. Pelo contrário, ao vê-la no risco de ser fragilizada em um momento delicado e vulnerável a ataques especulativos, creio que talvez seja a hora de reforçarmos nosso apoio a ela e ao Estado brasileiro.

O Brasil, atualmente a sétima economia do mundo, é estratégico para a América Latina, para os BRICS e atualmente um player mundial importante na geopolítca atual. Com o fortalecimento dos BRICS (grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), do qual somos parte essencial e cujos planos prevêem a criação de um banco de suporte (que não depende de outros órgãos financeiros históricos como o FMI) com saldo de cerca de 100 bilhões de USD, qualquer instabilidade em um de seus membros pode ser analisada também ante a hipótese de não ser um mero acaso, quando é sabido que até o preço do barril de petróleo pode ser utilizado como arma política nas guerras silenciosas travadas geopoliticamente.

Dessa forma, uma campanha que tem o viés de (também) derrubar um governo e na qual grassam, além do pedido de impeachment, clamores de retorno à nefasta ditadura militar, pode estar na prática corroborando uma corrente que atrai ícones conservadores e com teses que beiram o fundamentalismo, o que nos levaria à indagação: na prática, saberão eles para quem ou POR quem marcharão, se para o Brasil ou contra ele?

A dúvida é válida e o debate é necessário, antes que seja tarde, mormente em um momento tão delicado e em que é aparente a tentativa de se aplicar, por analogia à política, aos políticos e todas as instituições brasileiras, a tática de terra arrasada, como se dela nada fosse funcional ou prestasse.

Antes de se embarcar em qualquer movimento que se diz pelo Brasil e para o Brasil, também há de se questionar quem mais se beneficiaria se o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff se tornasse inviável, açodando uma severa crise institucional, política e econômica que aparentam apenas aguardar na sala ao lado para surgir: seriam os beneficiados por tal crise, a maioria dos brasileiros ou países e corporações estrangeiros simpáticos a setores conservadores do Brasil, muitos dos quais ainda não aceitaram a derrota nas urnas em 2014?

Se um golpe acontecesse (fosse institucionalizado ou não), o alvo seguinte certamente seria aquele próximo governo que ousasse contrariar os interesses estrangeiros no Brasil, já que gestões que costumam pensar o País como uma eterna colônia de terceiro-mundo historicamente são poupadas e elogiadas. Salvo, claro, um retrocesso ainda maior para uma nova ditadura, na qual sequer “panelaços”, tuitaços e demais protestos seriam permitidos. O fatídico ano de 1964 e suas consequências não nos deixam esquecer, tampouco devem ser esquecidos.

As vítimas imediatas, claro, seriam a democracia e nós mesmos.

Melhorar o País e aprofundar o combate a males que têm mais de quinhentos anos, como a corrupção, é algo necessário e que deve nos aglutinar. Já aderir ingenuamente a um movimento que pode ter características nítidas de anteparo a um golpe e que é endossado em sua maioria por muitos bem-intencionados mas que sequer percebem o que está realmente por trás dele, pode ser um erro trágico.

Em 2018 teremos uma nova chance de escolher melhores nomes, nos executivos e nos parlamentos. É assim que uma democracia funciona. Até lá, devemos marchar e protestar, mas sim por uma reforma política no Brasil, na qual o combate à corrupção deve ser prioridade. Já passou da hora.

(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)



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