A guerra das narrativas e o antipetismo como versão moderna do anticomunismo

Com as entrevistas de Rossetto e Cardozo, o governo não respondeu aos manifestantes do domingo, mas sim à narrativa que a mídia tradicional impôs e à história que ela contou e ajudou a construir. O sentido das manifestações, de ontem e da sexta-feira,...

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Com as entrevistas de Rossetto e Cardozo, o governo não respondeu aos manifestantes do domingo, mas sim à narrativa que a mídia tradicional impôs e à história que ela contou e ajudou a construir. O sentido das manifestações, de ontem e da sexta-feira, ainda estão em disputa

Por Glauco Faria

Até hoje se discute o que representaram as Jornadas de Junho de 2013. Impulsionadas pelo protesto contra o aumento das tarifas do transporte público em várias cidades brasileiras, foi em São Paulo que elas encontraram sua maior expressão em números, e os protestos conseguiram o que era seu objetivo inicial: barrar o aumento. Mas da primeira até a última manifestação não surgiram apenas novos e muitos manifestantes, como também uma série de demandas difusas que estavam além da questão inicial.

Um dos fatores que suscitaram o crescimento dos protestos naquele momento foi a violência policial. Não havia, como neste domingo, agentes policiais tirando fotos sorridentes com manifestantes. Nem catracas livres no metrô (que simbolismo…) ao final da mobilização. E foi uma das raras vezes em que a classe média sentiu o mesmo que a população da periferia conhece de cor e salteado, a forma como a política de segurança pública funciona em São Paulo.

As pessoas que passaram a ir às ruas foram impulsionadas por isso também, mas não só. A crise de representatividade política achava uma válvula de escape e muitas vozes queriam ser ouvidas naquele momento. Outro ponto em comum nas manifestações que ocorriam na capital paulista – e em outros locais – era a rejeição à mídia tradicional. Repórteres tinham que fazer matérias sem mostrar o veículo para o qual trabalhavam, outros sequer se arriscavam a reportar do chão e faziam suas matérias do alto de edifício ou de helicópteros.

Só aí, além da temática do transporte e da mobilidade, tínhamos três outros pontos: questionamentos à ação policial, insatisfação com o sistema político de uma forma geral e desconfiança sobre o que a mídia iria contar a respeito do que acontecia. Quem ia aos protestos estava acostumado ao modus operandi da velha imprensa. A criminalização de manifestações era (até ontem) um hábito de grandes veículos e “vandalismo” tornou-se um termo que passou a frequentar o discurso de quem fazia análises a partir de estúdios e redações. O cenário começou a mudar quando esta mídia passou a definir uma narrativa do que “significavam” aquelas multidões que iam às ruas.

Foi assim, com base na narrativa construída pela mídia, que o Congresso Nacional matou a PEC 37/2011. Dado o que se falava na mídia, esta era uma das grandes reivindicações dos manifestantes. Mesmo sendo pauta de uma minoria na maior parte dos protestos, passou como se fosse uma temática central. Como vivemos em um país no qual um ministro do Supremo confessa sem rodeios que se preocupa com as “manchetes do dia seguinte”, imagine o que não pensam parlamentares. Deputados dobraram-se não diante das ruas, mas sim diante da interpretação da velha imprensa sobre o que acontecia nas ruas.

O governo reagiu à época apresentando alguns pontos do que representaria uma reforma política. A resposta foi rechaçada quase de pronto pelo Legislativo, com devido apoio (ou inspiração) dos grandes conglomerados midiáticos. Isso qualquer pessoa que ligue A com B em política sabia que aconteceria, mas o que ficou evidente é que a reação do governo era mais protocolar do que real. Não foi costurada com qualquer movimento ou entidade da sociedade civil – que só se articularam em torno do tema depois – e não houve qualquer menção à violência policial ou à rejeição que a mídia sofria nas ruas. A bem da verdade, toda a esquerda, governista e oposicionista, institucionalizada ou não, deixou essas pautas em um plano secundário.

Mas a responsabilidade maior era e é do governo. Que vacilou. Não soube assumir e comandar pautas que eram essenciais para o país e que podiam ser discutidas a partir do que era dito de forma explícita e daquilo que se sentia nas manifestações. Sem um posicionamento político público e evidente, a disputa pela narrativa também foi abandonada e ficou nas mãos da velha mídia. Houve as interpretações e relatos da mídia alternativas, publicações impressas foram elaboradas, documentários e conteúdos multimidiáticos produzidos. Mas o que prevaleceu para a maior parte da população foi o que contou a mídia tradicional e o sentido que ela deu à mobilização.

E isso se refletiu ainda em 2013, no protesto-celebração pós-anúncio da reversão do reajuste das tarifas em São Paulo, quando militantes de esquerda foram hostilizados. A direita começava a dar as caras com uma limpidez que não se via desde os primórdios da redemocratização do país.

A resposta do governo

De lá pra cá, esse ativismo de direita se reforçou nas redes, com um discurso radicalizado. A alcunha de “petista”, para esse segmento, passou a ser usada para qualificar qualquer um com um discurso voltado para o social, fosse um social-democrata ou um marxista, servindo para petistas de fato, psolistas, comunistas ou esquerdistas sem filiação partidária, além de integrantes de outros partidos próximos do espectro do centro. O antipetismo tornou-se uma versão modernizada do anticomunismo da época da Guerra Fria. E, como naquele período, passou a ser um rótulo que se dá a quase qualquer um que for alvo, mesmo que não tenha nada a ver com a esquerda.

Na campanha eleitoral, e antes dela, esse sentimento foi apropriado pelo PSDB, que se aproveitou dele para reforçar a rejeição ao seu principal adversário político. As falas de Aécio Neves em alguns debates, discursos e mesmo peças de sua campanha, citando Cuba, Venezuela e Bolívia, por vezes lembravam o desvario da extrema direita que cresceu nas redes sociais nos últimos anos. Era a legitimação que ela precisava e também uma prova de sua importância.

Essa direita foi um dos motores das mobilizações deste domingo de 15 de março de 2015. Mas ela, sozinha, não obteria o resultado que foi alcançado. A Globo e outros veículos se prestaram a fazer praticamente um trabalho de assessoria de imprensa ao noticiar o evento de forma contínua. Na Globo News, a programação foi toda voltada aos atos durante o domingo; um jornal, na quarta-feira, deu até o “serviço” para quem quisesse ir ao protesto em São Paulo. Sim, mais uma vez a cidade, que deu uma das vitórias mais expressivas ao PSDB nas eleições de 2014, foi o epicentro dos protestos.

No início da noite do domingo, o governo falou, por meio dos ministros José Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto. Em resumo, dois pontos foram tocados: medidas de combate à corrupção e reforma política, sendo citado o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais. Quando centra suas respostas na corrupção, Dilma, em tese, fala aos manifestantes do domingo. Mas fala mesmo?

Uma parte, menor (mas não insignificante), pode ter sido sensibilizada por essa pauta, mas a maioria dos manifestantes já é antipetista e tomou coragem e ânimo para sair às ruas por conta da falta de ação política do governo – que parece se recusar a fazer… política. É válido lembrar, porém, que a motivação veio também em função do ambiente criado pela mídia tradicional. Ela, aquela mesma cujos privilégios, inexistentes em quase qualquer outro país desenvolvido ou em desenvolvimento, o Planalto recusou-se a enfrentar quando teve oportunidade, naquele junho de 2013.

Agora, novamente parece que quem comanda a pauta são os grandes veículos. O governo não respondeu aos manifestantes do domingo. Reagiu à narrativa que a mídia impôs. À história que ela contou. Não respondeu pronta nem tardiamente às manifestações de sexta-feira que, se foram menos numerosas, deveriam ter sido ouvidas de outra forma porque tinham demandas específicas, entre elas o cerco aos direitos trabalhistas. Não foram protestos motivados pelo ódio, do tipo de quem bate panela quando (não) escuta o outro lado.

Ao renegar um diálogo mais estreito com quem assegurou sua reeleição, movimentos e setores ligados à esquerda, Dilma repete o mesmo erro de avaliação cometido em 2013. E isso, no atual contexto, estimula o silêncio daqueles que poderiam contribuir para uma guinada que se insinuou na campanha e ruiu em dois meses de gestão. O governo responde mal a quem quer sentar para conversar. E acaba falando com as paredes.

A narrativa do que aconteceu no domingo, e também na sexta, está em disputa, não são favas contadas. Depende de articulação, de ação, e de recuperar as pautas que foram deixadas lá atrás, naquele junho de 2013, e de outras que continuam sendo negligenciadas. Mas o governo precisa mostrar que quer jogar e ao lado de quem vai estar na partida.

Foto de capa: Fotos Públicas



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