Azenha: depois de um show de intolerância, para Dilma ouvir as ruas tem de aceitar a guilhotina

A presidenta não deveria se preocupar com o milhão que foi às ruas, mas com os milhões que ficaram em casa. E destes ela descuidou ao mexer com o salário desemprego e o Fies, para citar apenas as primeiras contas do rosário. Porém, é...

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A presidenta não deveria se preocupar com o milhão que foi às ruas, mas com os milhões que ficaram em casa. E destes ela descuidou ao mexer com o salário desemprego e o Fies, para citar apenas as primeiras contas do rosário. Porém, é líquido e certo que as ruas vistas ontem não querem nada menos que o pescoço dela. Se ela negociar, será sobre as condições da aplicação da guilhotina

Por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

O pacto político que permitiu a Lula governar a partir 2002, se ainda não tinha morrido, foi pisoteado hoje por 200 mil pessoas na avenida Paulista — e algumas centenas de milhares em outros pontos do Brasil. Por conta da crise econômica, o jogo do ganha-ganha acabou. Trata-se agora de decidir quem paga a conta. Hoje ficou claro que o andar de cima não pretende fazê-lo.

Seria temerário para o governo Dilma imaginar, no entanto, que o descontentamento se concentra apenas na classe média bombardeada pelos noticiários do Ali Kamel e leitora da revista Veja. Como já escrevemos anteriormente, Dilma e o PT perderam a batalha da comunicação. Uma derrota espetacular num campo estratégico. Por falta de planejamento, de competência e de instrumentos, não há recuperação à vista. Quando publicamos esta opinião, fomos taxados de “sombrios”.

Como se traduz isso, na prática?

Basta acompanhar por um dia a programação da rádio Jovem Pan, que chega a todo o Brasil via satélite. Basta desnudar a estratégia da Globo, milimetricamente calculada, para as manifestações de hoje. “Esquenta” de manhã para bombar São Paulo, à tarde. Com jogo adiado, catraca livre no metrô e uma PM que contabilizou 1 milhão de pessoas, quando o Datafolha — logo ele — contou 210 mil. O número que importa é o de Geraldo Alckmin, redondinho, para sair no Fantástico e no Jornal Nacional.

Dilma, em tese, não deveria se preocupar com o milhão que foi às ruas, mas com os milhões que ficaram em casa. E destes ela descuidou ao mexer com o salário desemprego e o Fies, para citar apenas as primeiras contas do rosário.

Politicamente, o fato de a presidente adotar a plataforma do candidato derrotado não a beneficiou com os eleitores de Aécio Neves, nem com os que a elegeram. De ganha-ganha, independentemente de a guinada de Dilma na economia ser ou não necessária, passamos politicamente ao perde-perde.

A lubrificar tudo isso, o petrolão bombardeado diuturnamente na cabeça dos brasileiros, como se fosse o único escândalo já enfrentado na História da Via Lactea. O problema é que Dilma paga por isso e por muito mais: pela seca em São Paulo, pela falta de ônibus na periferia, pelas contusões do Valdívia.

Desprovida de uma estratégia e de instrumentos de comunicação com os brasileiros, o governo está refém dos barões da mídia, aqueles mesmos que foram descobertos no Suiçalão. A eles interessa uma presidente acuada e sitiada, como Dilma ficará de agora em diante. Ou alguém acredita que a direita não vai seguir a agenda de Dilma e promover apitaços, panelaços e buzinaços sempre que ela aparecer, pessoal ou virtualmente?

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A política partidária é um teatro repleto de hipocrisia. A realidade crua do poder se esconde sob o palavreado diplomático.

A manifestação a que assisti, hoje, na praia de Copacabana, descrita pelas emissoras de TV como “pacífica” ou “democrática”, foi a síntese da intolerância política.

Pediram o impeachment de uma presidente antes dela ser acusada de cometer um crime. Pediram a prisão de um ex-presidente antes dele ser acusado de cometer um crime. Condenaram as cores de uma agremiação política, que deveria ter liberdade para escolher as que bem entender. Condenaram seletivamente a corrupção, ao não falar do trensalão ou mensalão tucanos, nem do suiçalão midiático. Nas franjas, pediram a intervenção militar, o fim do Supremo Tribunal Federal, a extinção dos partidos e dos sindicatos.

Não há outra forma de dizer: as pessoas que foram às ruas pregar a destituição de uma presidente legitimamente eleita pela maioria querem golpe. E quem prega golpe é golpista.

Isso não significa, necessariamente, que Dilma vá cair. Porém, é líquido e certo que as ruas que vi hoje não querem nada menos que o pescoço dela. Se ela negociar, será sobre as condições da aplicação da guilhotina.

Do ponto-de-vista da política não partidária, o dia 15 de março marca a consolidação do Tea Party brasileiro, da militância maciça de rua com a qual a direita brasileira nunca contou. É, mal comparando, o que uma aliança entre cristãos e evangélicos conservadores permitiu ao presidente Reagan, quando ele se elegeu pela primeira vez em 1980: que a mensagem de Reagan fosse bater à porta das pessoas, à procura de votos. Uma vez eleito, a aliança permitiu a Reagan que iniciasse uma reforma do capitalismo norte-americano baseada essencialmente na supressão de direitos duramente conquistados anteriormente.

Já o Tea Party nasceu de uma reação a Barack Obama. Não tem sido bem sucedido nas disputas eleitorais, mas é uma gazua a serviço dos grandes interesses econômicos para impedir reformas que beneficiem os 99%.

No Brasil, os dois fenômenos se combinam: trata-se de barrar o caminho de qualquer reforma que dê continuidade ao processo que levou o PT a vencer quatro eleições seguidas. Sem elas no plano econômico, o PT será desidratado até a morte. A direita ascende ao poder com o PSDB, se ele souber canalizar as ruas, ou através de um salvador da Pátria, um Berlusconi à brasileira. Será o Joaquim Barbosa?

Seja como for, se democracia significa respeitar as escolhas alheias, mesmo que discordando delas, o 15 de março não foi uma “vitória da democracia”, como tantas vezes enfatizou a Globo.

Se a negação do outro, que testemunhei pessoalmente em Copacabana, é representativa das manifestações como um todo, vivemos um dia dedicado à intolerância política, a esquartejar e salgar um — e apenas um — de nossos partidos políticos.



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