Ensaio sobre a (falta de) lucidez

Uivemos, disse o cão. Livro das Vozes Em 2004 José Saramago publicava Ensaio sobre a lucidez, um desdobramento de Ensaio sobre a cegueira (1995), dessa vez refletindo sobre a falência da...

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Uivemos, disse o cão.

Livro das Vozes

Em 2004 José Saramago publicava Ensaio sobre a lucidez, um desdobramento de Ensaio sobre a cegueira (1995), dessa vez refletindo sobre a falência da democracia nos moldes forjados pelo Ocidente.

Acusado de antidemocrático, o livro é, na verdade, anticapitalista. A narração começa quando, sem prévio acordo, a população de uma cidade – a mesma acometida pela epidemia de cegueira branca anos antes – decide votar em branco nas eleições. Sem revolta ou motim, sem institucionalização do processo revolucionário, os cidadãos apenas percebem que escolher um candidato dos partidos de esquerda, centro ou direita dá no mesmo. Ao negarem-se a eleger um representante, negam a própria ideia do Estado democrático como instituição que organiza e protege a sociedade. A lucidez está em enxergar que, sob o capitalismo, os partidos são irrelevantes e servem do mesmo modo a um único governante global, o Poder Econômico.

Ensaio soimagesbre a Lucidez é um livro angustiante porque nos revela todos os mecanismos que regem o jogo político sem oferecer nenhuma solução ou saída. Vemos como o Estado serve ao dinheiro das grandes companhias e não ao povo, como a mídia oligárquica manipula a opinião pública a favor dessas mesmas companhias e como, abaixo dos CEOs das empresas donas do mundo, ninguém sabe realmente a quem está servindo.

Saramago “cantou a pedra” da crise que culminou no passeio de ignorância que vimos no domingo nas ruas do país. Sem reforma política que estabeleça a supremacia das ideias e dos ideais sobre o dinheiro, não há engajamento eticamente viável. A esquerda militante que saiu às ruas no dia 13 de março – eu, inclusive – não terá fôlego para continuar defendendo Dilma enquanto ela atende às exigências dos que a querem derrubar. À direita pensante, o golpe de fato não interessa, porque suas consequências são imprevisíveis: mais vale “sangrar” o governo usando para isso os lunáticos desse já historicamente patético 15 de março e obter uma vitória esmagadora e humilhante sobre a esquerda em 2018. Ao imenso bolo que fica entre os dois extremos, vale a ideologia de sempre: trabalho duro de segunda a sexta pra ter algum descanso no fim de semana – de TV desligada e com as palavras “coxinha” e “petralha” proibidas no almoço de domingo em família.

Enquanto isso, a “verdadeira” democracia que tantos dizem querer preservar ainda está por vir – não se pode reestabelecer algo que nunca existiu de verdade, sequer existe no papel. A nossa democracia é a de quem pode comprar liberdade. Quem tem dinheiro, escolhe moradia, meio de transporte, dieta, estilo, sabor do iogurte. Quem não tem, dorme e acorda sonhando com o dia em que vai poder comprar a carta de alforria e entrar no maravilhoso mundo democrático onde as escolhas são possíveis.

A um olhar lúcido como o que propõe o Nobel português, parece não haver saída. O Estado, a mando das empresas que o controlam e com a ajuda do seu braço armado, mais cedo ou mais tarde levará o gado rebelde para o abatedouro, onde este voltará a alienar a sua força de trabalho para encher os cofres dos governantes do mundo até a exaustão.

Quando percebemos isso, dá mesmo vontade de ir morar numa casa feita de livros, longe de tudo, como fez Saramago e como eventualmente fazem as pessoas que se atrevem a olhar o quadro atual do mundo com mais lucidez que paixão.

Entretanto, só pode abandonar o Estado à mercê dele mesmo quem não depende do Estado. Não depender do Estado é o maior dos privilégios. Se amanhã a Petrobras quebrar de verdade, se a nossa capenga democracia ruir, se o Congresso for fechado e a Constituição for rasgada, os privilegiados não sentirão nada, vão tirar fotos de suas varandas e postá-las em seus murais na internet.

Os mais afetados, talvez os únicos, seremos sempre nós, as populações majoritárias, porém minorizadas. Não podemos nos dar ao luxo do descompromisso político. É do nosso interesse reformular as regras do jogo democrático. Se desistirmos e cairmos no niilismo de que “tanto faz”, estamos perdidos. É preciso recuperar – ou mesmo inventar – um sentimento de solidariedade de classe. Por isso marchei no dia 13. num apelo à presidenta para que ela não esqueça quais pautas a reelegeram: democratização da mídia, reforma política e outras reformas de base que façam o povo que o Estado representa valer mais do que o dinheiro que o financia. Fiz isso porque sei que para mim e para os meus, o “tanto faz” não se aplica.

Assim como no desfecho do romance saramaguiano, em que um investigador da polícia percebe que não passa de um peão num jogo cujas regras e jogadores ignora, nós, que não somos donos de nada além da nossa força de trabalho, nossos sonhos e esperanças, não temos ideia de quem está jogando com as nossas vidas nesse exato momento em que estamos acabando com uma amizade por causa de uma discussão política.

Insurgência e rebelião só podem causar alguma mudança se forem contra a ditadura do dinheiro. Qualquer outra é um desperdício de forças no combate contra um sintoma e não contra a raiz dos problemas.

Como a forma do ensaio sugere, José Saramago, em seu chamado à lucidez, levanta questões que cabe a nós resolvermos na vida prática. É hora de convocar os cães a terem a lucidez que os humanos perderam, se é que algum dia a tiveram.

Os cães dos poderosos sempre fomos nós, que vivemos de migalhas e restos, em habitações improvisadas, lambendo a mão de quem nos escorraça, brigando com nossos semelhantes por um pedaço maior de pão. Uivemos pelas reformas de que precisamos, pela reinvenção da democracia nos nossos termos, pela soberania da vida humana diante dos interesses econômicos dos donos do mundo. Uivemos.

(Foto de capa: 13 de março de 2015, Rodoviária do Plano Piloto, DF/Arquivo Pessoal)



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