Opinião: Como explicar a um estrangeiro a onda conservadora que assola o Brasil

A extrema-direita no País ganhou um espaço que ela não tem na Europa: um assento na mesa de negociações com liberais de centro-direita

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A extrema-direita no País ganhou um espaço que ela não tem na Europa: um assento na mesa de negociações com liberais de centro-direita

Por Daniel Mandur Thomaz, de Amsterdã

É ingrata a tarefa de explicar a alguém de fora a onda de conservadorismo que invade o Brasil. Os gringos mais bem informados, aqueles que tentam (nem sempre com sucesso) evitar o discurso do exotismo que se produziu historicamente sobre o Brasil (das mulatas, da caipirinha e do carmaval), costumam olhar para nós através das lentes da imprensa internacional.

Escândalos de corrupção eles conhecem bem. Atualmente, os noticiários internacionais repercutem com grande força o esquema de corrupção e evasão de divisas operado em vários países do mundo através da rede de bancos HSBC. A corrupção no setor público e privado não foi inventada no Brasil, nem se restringe a seu espaço geográfico. Protestos contra o governo, pressão popular por mudanças, isso é saudável e fácil de explicar a estrangeiros. Aqui mesmo, na Holanda, centenas de estudantes marcharam pelas ruas semana passada contra o processo de privatização e “financeirização” do ensino superior. Mas quando se trata da nova onda conservadora que assola o Brasil, com direito a pessoas na rua pedindo golpe militar e políticos como Jair Bolsonaro sendo aclamados publicamente, aí a coisa complica.

Não é que não exista extrema-direita na Europa. Ela existe e se fortaleceu na última década em países como Inglaterra, França e Holanda. A questão são as bandeiras que empunham reacionários daqui e de lá. Para ficarmos no caso europeu, os Le Pen, na França, partidos como Ukip, na Inglaterra, ou políticos como Geert Wilders, na Holanda, têm pontos em comum. Eles foram capazes de produzir grandes catarses em populações que, aterrorizadas pela crise e seus efeitos, procuravam a quem culpar. A extrema-direita foi, historicamente, caracterizada pela capacidade de dar vazão ao medo e a frustração das pessoas em momentos de crise aguda porque garantiu, através de processos de distorção e simplificação, a produção de bodes expiatórios. Isso é o que une em essência a extrema-direita ao longo da história. Trata-se de um jogo de negação e projeção perigosíssimo, porque encontrar um bode expiatório significa negar a própria responsabilidade e empurrar para um grupo pré-selecionado a culpa de todo o mal, de todo caos que impera em nossas vidas. Discurso simplista, preconceituoso e que culpabiliza terceiros pelos nossos próprios erros: eis aí a fórmula do bode expiatório que a extrema-direita e seu discurso de ódio foi capaz de sintetizar em momentos cruciais.

A direita liberal na Europa, como na América Latina, joga a culpa da crise no colo do Estado e das políticas sociais; claro, se admitisse que o problema foi gestado e parido pelo mercado financeiro, daria um tiro no próprio pé. A extrema-direita costuma ser especialmente bem sucedida em tempos difíceis porque tem a capacidade de buscar culpados que estão ao alcance dos olhos. Abstrações teóricas ou jargões econômicos – como os que usam liberais ou sociodemocratas – são difíceis e não têm apelo popular. Por isso, os bodes expiatórios na Europa são quase todos os mesmos: imigrantes, grupos étnicos e religiosos minoritários e todas as pessoas de algum modo categorizadas como o “outro”. Se você perpassar várias dessas categorias, muitas vezes marcadas pela negação –  não-branco/não-cristão/não-europeu – bem, aí é melhor se preparar para ser empalado.

Esse traço essencial da extrema-direita, presente nos fascismos que marcaram o século XX, aparece também no caso brasileiro. Os grupos fundamentalistas que vociferam contra os direitos LGBTs, que tentam sistematicamente sabotar debates sobre direitos humanos no Congresso, ou ainda os que defendem a negação de qualquer forma de política, através da intervenção militar, operam também por negação e projeção, buscando bodes expiatórios que tornem simples uma realidade complexa; plana, uma conjuntura cheia de relevos.  A diferença, no entanto, é que a extrema-direita no Brasil ganhou um espaço que ela não tem na Europa: um assento na mesa de negociações com outros setores liberais de centro-direita. O desejo cego de minar o governo e espernear a derrota nas urnas faz com que partidos de direita apoiem estratégias golpistas e marchem ao lado de grupos extremistas e criminosos. Para usar uma imagem antiga, correm o sério risco de jogar fora o bebê junto com a água de banho. Esse equívoco pode ter um grande custo para o Brasil.

Declarações como as de Jair Bolsonaro, feitas em sessão plenária, de que só não estuprava uma deputada porque ela não merecia, fariam corar mesmo os reacionários europeus mais facinorosos, como o islamofóbico Geertz Wilders, político holandês cuja bandeira é a expulsão de muçulmanos (mesmo dos nascidos em território europeu).  O político inglês Nigel Farange, xenófobo declarado e líder do partido anti-União Européia Ukip, na Inglaterra, causou escândalo em 2014 por se negar a declarar apoio ao casamento de pessoas do mesmo sexo, o que diria então a imprensa britânica diante da bancada evangélica brasileira, que defende a “cura gay”. Mesmo Marine Le Pen, na França, com seu discurso nacionalista, racista e xenófobo tentou, pelo menos para manter as aparências, descer o tom característico de seu pai, Jean-Marie Le Pen, conhecido por seu antissemitismo e por ligações com grupos neo-nazistas. Enquanto isso, no Brasil, alguns grupos clamam em plena rua por intervenção militar e, consequentemente, pelo fim do Estado de direito.

Não é que os reacionários de lá sejam melhores que os nossos, longe disso. Mas parece que as próprias regras do jogo democrático, na Europa, inibem um pouco a vocalização de certas ideias. No Brasil, falta constrangimento porque falta repertório democrático. Falta também uma memória consolidada e crítica sobre o brutal processo ditatorial que varreu o Brasil de 1964 à 1985 e deixou marcas profundas em nossas instituições e em nossa cultura política.   Isso sim é difícil de explicar a um estrangeiro.

Fotos: Reprodução Facebook Jornalistas Livres

 



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