Em meio a crise política, estratégia de FHC é associar Lula a desvios na Petrobras

Em duas entrevistas direcionadas a públicos distintos, tucano mira petista. Além da vaidade pessoal, crise política e eleição de 2018 estão no radar do líder do PSDB

569 0

Em duas entrevistas direcionadas a públicos distintos, tucano mira petista. Além da vaidade pessoal, crise política e eleição de 2018 estão no radar do líder do PSDB

Por Glauco Faria

É sabido que o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso gosta de falar do seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Em mais de uma ocasião o tucano se sentiu injustiçado pelas críticas feitas pelo petista e mostrou desconforto quando a propaganda adversária, nas eleições de 2006 e 2010 em especial, fazia comparações entre os governos de ambos.

É fato também que FHC foi pouco defendido nesses momentos, mesmo por seus colegas de partido. Em 2002, foi escondido por José Serra, que mal parecia candidato do governo à presidência. Em 2006, Alckmin negou a política privatista do ex-presidente e em 2010 Serra, mais uma vez, não ostentou a defesa de seu ex-chefe no Executivo. Só em 2014 Aécio Neves buscou resgatar a figura de Fernando Henrique, em meio a uma onda conservadora que ganhava força no país. Não foi coincidência.

Mas, menos que o abandono episódico de seus próprios correligionários, sempre pareceu doer mais ao tucano perder sua disputa particular com Lula. Em 2005, no auge do Mensalão, FHC escreveu artigo e concedeu entrevistas sugerindo que o petista anunciasse que não era candidato à reeleição. Em uma delas, de junho de 2005, afirmou que “Lula é mais um símbolo do que um líder”. Em uma entrevista concedida em Portugal em setembro daquele mesmo ano, dizia temer que “a falta de liderança de Lula acabe por matar o símbolo” (ver aqui).

Enumerar aqui as ocasiões em que o tucano fez ataques – muitas vezes mais à personalidade do que críticas políticas, diga-se – ao petista é desnecessário. O fato é que, em momentos de crise que envolvem o PT, surge FHC, sempre tentando trazer aquele que julga ser seu grande adversário ao centro do palco.

Nesta terça-feira, o jornal Valor Econômico divulgou uma entrevista com Fernando Henrique, cujo título já anuncia o que vai se ler: “Não é crível que Lula e Dilma não soubessem”. Citando cabalisticamente o nome do ex-presidente treze vezes, o tucano atacou o rival das mais variadas formas, dizendo, por exemplo, que ele some em momentos de crise, mas ressaltando que “não gosta de criticar” o petista. Sobre o tema que intitula a matéria, a sutileza é pouca. “Em português claro: não é crível que o que aconteceu na Petrobras fosse desconhecido por quem estivesse no poder, seja Lula, seja Dilma. Não digo que estejam involucrados no assunto, mas não é crível que estivessem alheios”, disse.

Para um público distinto daquele que lê o Valor, FHC falou à rádio Jovem Pan de São Paulo, notória por sua programação de cunho conservador. Disse que foi contra o impeachment do ex-presidente Lula porque ele tinha popularidade, embora, na época, houvesse “fundamentos jurídicos” para tal, no seu entender. Sobre os desvios na Petrobras, afirmou que “politicamente [Lula e Dilma] são responsáveis”, por conta dos diretores da estatal nomeados por eles.

Mas os objetivos do tucano vão além de uma eventual rivalidade pessoal. Tem intenções políticas concretas, a de trazer Lula para o centro do palco e alvejá-lo. Associar o ex-presidente ao esquema de desvios da Petrobras não só enfraquece sua possível candidatura em 2018 como atinge o petismo e o governo Dilma, já que se trata de um símbolo de ambos. O nome do ex-metalúrgico rende manchetes na mídia tradicional e dá à crise tons mais dramáticos.

Não à toa, no Congresso Nacional Lula também tem se tornado alvo. Na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, hoje, foi aprovado um requerimento do deputado federal Ezequiel Teixeira (SD-RJ) que convida o ex-presidente a dar explicações a respeito de sua declaração sobre o “exército de Stedile”, referência ao líder do MST João Pedro Stedile e a capacidade de mobilização do movimento. Sem o poder de uma convocação, o petista não é obrigado a ir à comissão, mas a ideia é causar a ele mais um constrangimento.

A essa altura, não há dúvida que Lula será alvo de parte da oposição. E FHC pretende ser seu principal porta-voz.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil



No artigo

x