A marcha da família heterossexual

Mais do que defender intervenção militar e deposição da presidenta Dilma Rousseff, a marcha do último dia 15 é a representação perfeita da ordem heterocapitalista

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Mais do que defender intervenção militar e deposição da presidenta Dilma Rousseff, a marcha do último dia 15 é a representação perfeita da ordem heterocapitalista

Por Marcelo Hailer

Muito já se falou e se analisou a respeito das marchas realizadas, Brasil afora, no dia 15 de março: do seu caráter de extrema direita ao pedir a intervenção militar, também sobre o seu caráter golpista ao pedir, sem qualquer base jurídica, a deposição da presidenta Dilma Rousseff e claro, do caráter odioso de se entoar frases como “Dilma, vai tomar no cu”, “Fora comunistas” e o clássico “Vai pra Cuba”. Mas, dentro deste caldo tenebroso, há outro caráter que merece ser destacado par que se compreenda outro galho de seu tronco ideológico: a célula familiar como depositária de todos estes valores antidemocráticos.

A célula familiar enquanto aparelho político

Os conceitos de classe média ou burguesia foram utilizados para, na maioria das análises, classificar os agrupamentos vistos nas ruas no último domingo (15). Mas no que consiste a classe média e ou burguesia? Mais do que denominações econômicas, os dois termos também dizem respeito a um ideal de sociedade, que consiste na heterossexualidade compulsória e na reprodução como destino biológico das mulheres. Não à toa, inúmeras fotos registraram mães com seus filhos à tira colo.

Alguns podem considerar que isso não passa de pedantismo acadêmico, mas, muito pelo contrário, a organização da sociedade a partir da célula familiar é ordem matriz do projeto de poder defendido pela burguesia desde a sua concepção moderna, que tem seu embrião no século XIX, quando uma série de saberes (político, medicinal, policial, religioso) serão constituídos para desenhar o projeto de sociedade que deveria reinar em todo o Ocidente. A reação destes grupos, não apenas no Brasil, mas em várias partes da América Latina, América do Norte e Europa, é nada mais do que a tentativa de rearticular as forças burguesas e familistas e derrubar aquilo que eles entendem como “ameaça comunista” ou “grupos subversivos” que visam a destruição dos “valores familiares”.

Historicamente estes grupos (burguesia, polícia, Forças Armadas, políticos conservadores) sempre atuaram juntos. A história da modernidade foi e ainda é escrita por eles, que ainda hoje comandam os principais grupos econômicos, comunicacionais e políticos. Esta ação que se observa no Brasil, que tem como objetivo derrubar o governo de Dilma Rousseff, é nada mais nada menos do que uma tentativa de voltar a comandar o que historicamente lhes pertenceu: o Estado. Na mente destes grupos não é possível “comunistas, maconheiros, aborteiras” continuem “infiltrados na máquina estatal”… Antes fosse assim.

É interessante notar que o discurso apregoado no último domingo nos leva de volta aos anos 1960, algumas pessoas tiveram esse primoroso trabalho de resgatar fotos das marchas golpistas do século XX e comparar as frases e ideais defendidos e, pasmem: eram as mesmas, as mesmas que bradavam que o Brasil vivia sob uma ameaça comunista e que a família estava em perigo. É o retorno das “classes perigosas” (se é que elas um dia deixaram de existir).

Porém, o discurso da degeneração dos valores é utilizado pela burguesia desde o século XIX e, sempre utilizado para reafirmar os valores deste grupo, como bem pontua a pesquisadora sul-africana Anne McClintok em seu livro “Couro Imperial” (2010-Unicamp). “(…) as classes degeneradas, definidas como desvio do tipo humano normal, eram tão necessárias para a autodefinição da classe média quanto a ideia de degeneração era para a ideia de progresso, pois a distância percorrida por algumas partes da humanidade ao longo do caminho do progresso só podia ser medida pela distância em que outras estavam atrasadas. A normalidade surgia, assim, como produto do desvio, e a invenção barroca dos conjuntos de tipos degenerados sublinhava os limites do normal (…) a poética da degeneração era uma poética da crise social”.

Degenerados, perigosos

A modernidade pode ser resumida como a Idade da economia dos corpos. A era da criação da eugenia e das classificações corpóreas e sociais do que é normal e anormal. O tempo do discurso científico utilizado como ferramenta política. É neste conjunto que deve ser compreendida a semiótica da marcha realizada no dia 15 de março. Além de todos os valores proclamados, tratava-se da defesa do corpo limpo, saudável, branco e heterossexual. Valores que constituem o projeto político que hoje se apresenta enquanto antagônico ao projeto político em andamento.

Nesta encruzilhada conservadora e higienista choca constatar que boa parte dos grupos que estavam nas várias marchas realizadas ao redor do Brasil é ligada a grupos políticos ligados à base do governo no Congresso Nacional. Porém, há tempos que isto é levantado: os grupos conservadores possuem um projeto de sociedade que não dialoga com aquele defendido pelo governo federal regido pelo Partido dos Trabalhadores. Admira que tenha levado doze anos para que tais reações às políticas do governo petista surgissem. Demorou, é verdade.

É imprescindível que se compreenda que há uma disputa biopolítica em curso: chega de políticas, ainda que parcas, à comunidade LGBT, bolsas às camadas mais pobres, universidade para o filho do pedreiro… Para tais grupos é inaceitável que estes corpos circulem de cima abaixo, que apareçam e que, pasmem, ocupem cargos políticos. A ascensão (ou retorno) deste grupo aos espaços de poder de Estado só pode ser entendida enquanto retrocesso e eles mesmos deixaram claro isso com os seus cartazes exibidos em suas marchas.

Por fim, todos os sujeitos e grupos que não estão dentro da economia Burguesia + Branca + Heterossexual + De direita são potenciais alvos da ordem política que entende a heterossexualidade não apenas como uma prática sexual compulsória, mas sim enquanto ideologia fundamental para que se construa e se mantenha a sociedade de bem. Palavras como diversidade não existe neste ideário político.

Não se trata apenas de restabelecer uma ordem política, mas também uma ordem sexual, que também é política e que pode ser chamada de heterocapitalismo.

Foto:Eduardo Nunomura



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