Onde a mulher tem voz

Plataforma voltada a mulheres vítimas de violência, tanto física quanto psicológica, oferece orientações e permite a interação, por meio de depoimentos, com outras mulheres que enfrentaram a mesma situação: "cria-se uma rede onde uma usuária empodera a outra", explica uma das idealizadoras do aplicativo

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Plataforma voltada a mulheres vítimas de violência, tanto física quanto psicológica, oferece orientações e permite a interação, por meio de depoimentos, com outras mulheres que enfrentaram a mesma situação: “cria-se uma rede onde uma usuária empodera a outra”, explica uma das idealizadoras do aplicativo

Por Anna Beatriz Anjos

A violência contra a mulher é um problema comprovado no Brasil. Muito se discute como combatê-la, por meio de leis, políticas públicas e campanhas, mas ainda há um grande obstáculo no caminho: a culpabilização da vítima. Um dos objetivos do site Minha Voz é justamente desconstruir essa falácia. “Reconhecer que a violência contra a mulher é algo sistemático em nossa sociedade dá outra dimensão ao sofrimento da mulher. Dessa forma, ela se sente mais fortalecida para buscar ajuda, vê que é possível sobreviver e superar, não sente que é um problema só dela”, explica uma das criadoras do portal, Salete Farias, mestre em Ciências da Computação e professora do Instituto Federal do Maranhão (IFMA).

A plataforma está no ar desde o último mês de dezembro. Segundo seus idealizadores, a ideia surgiu a partir do programa Hackathon de Gênero e Cidadania, promovido pela Câmara dos Deputados em 2014. O objetivo da maratona, que reuniu hackers, programadores, desenvolvedores e também profissionais da área de humanas, era a construção de aplicativos que contribuíssem para reduzir a violência contra a mulher e fortalecer as políticas de gênero.

O Minha Voz, um dos escolhidos, foi premiado no início deste mês na própria Câmara. Surgiu como uma plataforma que “funcione como um primeiro acolhimento da mulher vítima de violência, oferecendo tanto informações para que ela reconheça a situação pela qual está passando e saiba de quais alternativas dispõe para lidar com isso, bem como para poder compartilhar com outras usuárias, de modo anônimo, a experiência que sofreu”, explica a psicóloga e filósofa Daniela Silveira Rozados da Silva, uma das criadoras do projeto, ao lado de Farias e Rafael Reis, técnico em informática e estudante da Escola Politécnica da USP.

Em entrevista à Fórum, Silva e Farias falaram sobre o processo de desenvolvimento da plataforma, suas metas, as mudanças que ainda deve sofrer e como pode ajudar em questões como a diminuição da subnotificação dos crimes de violência contra a mulher. Confira:

Fórum – O que é feito com os depoimentos e informações coletados pelo site?

Daniela Rozados da Silva – Primeiro, é importante ressaltar que as informações colocadas no site não requerem que a mulher se identifique. Os depoimentos serão deixados públicos para que as usuárias possam ler e perceber que, infelizmente, a violência contra a mulher é um fenômeno que potencialmente pode atingir a todas. Portanto, ela não está sozinha. Esperamos que esse conjunto de depoimentos tenha um efeito fortalecedor para quem busca nosso site. Já as informações objetivas coletadas constituirão um conjunto de pesquisa que poderá ser importante para se entender o fenômeno da violência contra as mulheres. Mas ainda não sabemos todos os desdobramentos da utilização desses dados. Como o site aborda alguns fenômenos que dificilmente são registrados como queixa de modo formal, como, por exemplo, assédio de rua, violência obstétrica, assédio moral e sexual etc, esperamos ter um retrato mais completo que abarque um pedaço do fenômeno da violência que tipicamente não é percebido como importante  – o da violência psicológica.

Fórum  – Como o Minha Voz pode ajudar a diminuir a subnotificação dos casos de violência contra a mulher?

Silva –  meu ver, pode ajudar de três maneiras. Na primeira, teremos, a partir das informações, um quadro mais completo das violências que acontecem, em todas as suas manifestações. Na segunda, a utilização do site, o encontro de informações e alternativas sobre a violência, o compartilhamento de experiências pode fortalecer a mulher ao ponto que ela consiga fazer uma denúncia formal, o que por sua vez também combate a subnotificação. E na terceira, esperamos criar uma cultura na qual perceba-se mais a gravidade dos casos que não envolvem violência física, ou seja, os que envolvem constrangimento e sofrimento psicológico. Esperamos que aumente a percepção do que é violência e isso pode gerar um efeito indireto de notificação formal desses casos também.

Salete Farias – O Minha Voz procura ser realmente um ambiente no qual as mulheres se sintam confortáveis para falar/compartilhar seus problemas. O fato do site trabalhar a partir da perspectiva da vítima apresenta-se como algo que pode ser um facilitador na luta contra a violência. É muito mais do que um site informativo, o Minha Voz procura ajudar as mulheres a entender o que se passou com elas, pois muitas não sabem classificar a violência sofrida, o que também ajuda a notificação errada e/ou a subnotificação do crime.

Fórum – Qual a importância de se criar uma plataforma com um ambiente acolhedor e que leva em conta sempre a perspectiva da mulher?

Silva – A situação de violência que as mulheres vivem cotidianamente é bastante complexa e envolve fatores pessoais, familiares, sociais, históricos, culturais. Nosso objetivo é auxiliar num momento particularmente delicado: que a mulher consiga reconhecer que vive ou viveu uma situação de violência. E depois, que a partir desse reconhecimento, consiga avaliar quais são suas alternativas para preservar sua integridade, saúde e dignidade psicológica e física. A ideia de um ambiente acolhedor é importante porque muitas vezes o meio que ela vive não está oferecendo compreensão ou acolhimento. Muitas vezes a mulher tem seu sofrimento negado, não reconhecido, silenciado. Muitas vezes ela é identificada como a responsável pela violência que sofreu. Partimos do pressuposto que não cabe a ninguém, a não ser à própria vítima de violência, dizer o que lhe dói e de que forma. Nesse sentido, nosso site pretende por a perspectiva da mulher como central nesse processo: é violento o que ela sente como tal. É a partir dessa compreensão dela como sujeito que pretendemos empoderá-la para que ela possa seguir em frente.

Farias – A violência contra a mulher é um problema no mundo todo. Se considerarmos todas as formas de violência, desde as que nos fazem ficar mal emocionalmente, até as que nos machucam fisicamente, todas as mulheres já sofreram ou correm o risco de sofrer algum tipo de violência. Colaborar para o fim da violência é uma tarefa de todas nós. É ideal que as mulheres não se calem e denunciem, mas para isso elas têm que sentir que serão ouvidas e saber que estão em um lugar onde podem encontrar outras pessoas que passam ou passaram por situações semelhantes. É importante também que cada uma diga o que sente e chegue a um diagnóstico de acordo com o que passou. Só quem sofreu a violência pode dizer o que sentiu, o que passou, por isso a importância de trabalhar segundo a perspectiva da mesma. Outro objetivo do Minha Voz é fortalecer e empoderar essas mulheres a partir do compartilhamento das experiências, criando uma rede mais forte na luta contra a violência.

Fórum – Por que é importante promover a interação entre mulheres que enfrentaram situações semelhantes?

Silva – Porque isso dá uma dimensão de que a mulher não é responsável pela violência que ela sofreu, que este é um problema social. Uma das coisas mais importantes a serem desconstruídas é isso: a culpa não é da vítima. Reconhecer que a violência contra a mulher é algo sistemático em nossa sociedade dá outra dimensão ao sofrimento da mulher. Dessa forma, ela se sente mais fortalecida para buscar ajuda, vê que é possível sobreviver e superar, não sente que é um problema só dela. Nesse sentido, cria-se uma rede onde uma usuária empodera a outra.

Fórum – Como é possível assegurar o anonimato das usuárias?

Farias – No Minha Voz, a identidade e os dados das mulheres são sigilosos, não iremos entrar em contato sem consentimento sob nenhuma hipótese. Desse modo, os dados serão usados de maneira geral para fortalecer políticas públicas de combate e enfrentamento à violencia de gênero, sem identificar as pessoas envolvidas.

Fórum – De uma maneira geral, quais as dificuldades de auxiliar no empoderamento de mulheres que enfrentam situações de violência?

Silva – Creio que romper o ciclo de medo, auto-responsabilização pela violência e vergonha são obstáculos significativos a serem vencidos. O desamparo que as mulheres sentem também é importante, pois sentem que não têm alternativas a recorrer. De resto, ainda somos uma plataforma que está no seu início, e temos muito o que aprender sobre as dificuldades de empoderamento das mulheres que enfrentam situações de violência. Talvez o mais importante, que é o objetivo da plataforma, é tirar a mulher da experiência solitária e dolorosa. Portanto, é algo ainda a ser construído, é um sofrimento que é coletivo e deve ser tratado como tal. Convidamos todas a utilizarem a plataforma para aprendermos junt@s como isso é possível.

(Foto: Marcos Santos/USP Imagens)



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