O Discreto Charme da Burguesia Tupiniquim

Luís Buñuel não poderia ser mais atual com o seu clássico O Discreto Charme da Burguesia. Nele, um grupo de pessoas tenta jantar enquanto são interrompidos por acontecimentos surreais ao seu redor. Eles não chegam...

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Luís Buñuel não poderia ser mais atual com o seu clássico O Discreto Charme da Burguesia. Nele, um grupo de pessoas tenta jantar enquanto são interrompidos por acontecimentos surreais ao seu redor. Eles não chegam a se incomodar com a bizarrice em si, apenas querem concluir sua refeição.

A burguesia brasileira tem se visto em situações surreais – para ela – e não mais consegue jantar em paz, seja nos jardins de São Paulo, seja nos apartamentos de luxo Brasil afora. O  incômodo para boa parte dela, são aqueles que antes eram meros excluídos, mas que agora também dividem os aeroportos e voos, as empregadas domésticas que agora exigem mais os seus direitos ou recusam-se a usar uniformes, enfim, é a classe outrora miserável e que hoje pode consumir também dentro dos shoppings ou cujos filhos ousam cursar a mesma faculdade dos filhos da elite. É uma ousadia e um cenário surreal que causa asco em muita gente da chamada classe média alta, seja de forma consciente ou não. A revolta é tanta que muitos foram obrigados a pegar em uma panela pela primeira vez e bater nelas, num panelaço surreal dos endinheirados. É o “não saber se colocar em seu lugar” da pobreza que agora ousa reivindicar Cidadania, o causador de tanto incômodo na burguesia brasileira.

Os burgueses e seus tantos aparelhos ideológicos ainda conseguem levar juntos nessa caminhada outros menos abastados, os quais assimilam o discurso como se a briga fosse contra a corrupção, contra  os tantos erros e os descalabros que ainda reinam no Brasil e também no governo. A marcha também não é a favor da taxação das grandes fortunas, óbvio. A briga é na verdade, paradoxalmente em função acertos do governo, seja na distribuição de renda feita em uma década, na ascensão de milhões de brasileiros saídos da miséria e alçados à condições de consumidores. É isso que incomoda tanto. Ela, a briga, na real é porque boa parte da burguesia não pode mais jantar em paz sem ver um pobre ao seu lado que não seja um empregado uniformizado. É contra a tal “ameaça” (igualmente surreal) comunista que vem de Cuba e da Venezuela. Aliás, nem Cuba parece mais ser emblematicamente perigosa ao paraísos dos marchantes, que são os Estados Unidos da América do Norte, que recentemente anunciou a reaproximação com a Ilha. Mas a nossa burguesia ainda tem em Cuba o “vilão”.

Parte dos discursos e gritos, faixas e cartazes, além de vetustos, também evocam o ódio e lembram os mais inglórios – como se possível fosse hiperbolizar a insensatez – tempos das marchas pela Tradição, Família e Propriedade na década de 60 do século passado. Os discursos protestam contra a corrupção na Petrobras (que remonta há décadas, mas finalmente começa a ser apurada agora), chegam a pedir a privatização da nossa maior estatal, mas esquecem que os trilhões de dólares do pré-sal têm ligação direta com nossa soberania e independência. Talvez por isso mesmo ninguém ali lembre que o Brasil não se socorre ao FMI há anos, como antes era comum por aqui. Essa amnésia seletiva serve às grandes potências como Estados Unidos e Inglaterra, porque uma Petrobras fatiada certamente agradará o estrangeiro.

Os mais de duzentos mil (segundo cálculos do Datafolha) que foram à Av. Paulista no último dia 15 de março têm vários motivos para erguer bandeiras e marchar, mas preferem esquecer a urgência de uma reforma política neste País, os escândalos do Metrô da mesma São Paulo, a seca (que a burguesia prefere chamar de crise hídrica), o necessário fim do financiamento privado das campanhas ou a totalidade dos nomes de pessoas físicas e jurídicas citados na Operação Lava-Jato. Também parece que não lhes incomoda que até hoje o Tietê não tenha sido despoluído. Eles marcham, em sua maioria, para que possam comer em paz e para que isso aconteça, pregam o que lhes parece ser a solução robotizada que lhes foi introjetada de forma contundente: o fim de um partido político através da queda de uma Presidenta que acabou de ser reeleita em um processo democrático e livre cuja mesma burguesia saiu derrotada.É uma multidão cujos líderes querem o fim de um governo no qual, finalmente, a corrupção começa a ser investigada, exposta e  – pasmem – punida. É na prática um surreal terceiro turno liderado pela minoria insatisfeita através da espetacularização de um protesto democrático que, dentre outras bandeiras, pede o fim da própria democracia. Neste aspecto o filme poderia ser considerado um “remake” pois já foi filmado há mais de cinco décadas neste mesmo Brasil.

Na manifestação, que contou com imenso apoio midiático e teve contornos de novela, em meio a pedidos de intervenção militar, alienígena, norte-americana à volta à ditadura no Brasil e outras sandices, muitos dos burgueses querem na verdade uma única coisa: o fim do PT, ou talvez da própria esquerda, para por um ponto final nessa tentativa – tímida, aliás – de diminuição das imensas desigualdades sociais e nortes mais socialistas em contraponto ao neoliberalismo que fracassou na década de noventa. Há inclusive os que queiram isso a qualquer preço, como foi possível ver através da cabeça de Dilma e de Lula que apareceram dependurados em uma ponte, num simulacro perigoso de enforcamento, visto em um dos protestos.

Tantos outros, em meio aos bem intencionados que querem um País melhor, marcham sem saber o porquê daquilo tudo, são tangidos como bois em um ato que não pode de forma alguma ser ignorado por um País inerte e um governo atônito. Outros marchantes não, o fazem porque o País realmente continua pródigo em pretextos golpistas. Quem realmente está por trás da instabilidade no Brasil (e não me refiro aqui a quem marchou no último dia 15, mas quem os incitou, promoveu e continua nessa missão) pode querer muita coisa, menos um Brasil que dê certo. É isto o que torna ainda mais surreais as marchas pretensamente a favor do Brasil.

O governo pode estar longe de ser o ideal, mas a burguesia está mais burguesa do que nunca.



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2 comments

  1. Paulo Paraense Responder

    A classe média, como massa de manobra e mascarada de elite, é convocada para intervir ciclicamente, o que denota a sua incontestável incapacidade, ou desinteresse, de entender a realidade social do país em que vivem e ter ação autônoma e independente. Em 1975 e nas “diretas já” a classe operária e os pobres eram marginalizados social e economicamente. Fico imaginando se aqueles mesmos pobres, que hoje, em boa parte, migraram para a classe média , forem convocados, igualmente, para defender seus direitos e suas conquistas, inclusive através do voto, na condição de maioria.

  2. Paulo Paraense Responder

    A classe média, como massa de manobra e mascarada de elite, é convocada para intervir ciclicamente, o que denota a sua incontestável incapacidade, ou desinteresse, de entender a realidade social do país em que vivem e ter ação autônoma e independente. Em 1975 e nas “diretas já” a classe operária e os pobres eram marginalizados social e economicamente. Fico imaginando se aqueles mesmos pobres, que hoje, em boa parte, migraram para a classe média , forem , igualmente, “convocados” para defender seus direitos e suas conquistas, inclusive através do voto, na condição de maioria.


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