Você é livre pra transar?

A sexualidade livre é, sem dúvidas, um dos tema mais abordados pelos movimentos sociais. Desde o movimento LGBT até a luta contra a gordofobia, combater tabus e preconceitos a respeito da sexualidade é extremamente...

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A sexualidade livre é, sem dúvidas, um dos tema mais abordados pelos movimentos sociais. Desde o movimento LGBT até a luta contra a gordofobia, combater tabus e preconceitos a respeito da sexualidade é extremamente pertinente. Afinal, as pessoas devem ter o direito de ter uma vida sexual ativa e sem represálias.

A forma como uma determinada cultura encara a sexualidade humana pode indicar diversas questões para reflexão. O Brasil, que carrega o estereótipo de ser um país de sexualidade livre, está bem distante desse título. Ainda lutamos para que pessoas do mesmo sexo possam se relacionar sem que sejam agredidas ou marginalizadas, assim como ainda reivindicamos a autonomia sexual feminina, algo que dificilmente conquistaremos se não questionarmos a objetificação da mulher e nem combatermos o machismo.

A liberdade sexual tão aclamada atende muito mais aos desejos dos homens heterossexuais, que continuam sendo atendidos por todas as esferas sociais. As propagandas praticamente vendem mulheres em suas peças publicitárias; como escreveu recentemente a feminista Aline Valek, as marcas “vendem machismo” para conquistar o público masculino. Em outro âmbito, afrontar o “sagrado direito” do homem de assediar mulheres é um ato de coragem, onde quem levanta a voz jamais sai impune. É assim quando debatemos sobre cantadas ou sobre a coação sexual que acontece em relacionamentos estáveis, onde muitas vezes namoradas e esposas são estupradas porque o sexo lhes é imposto como obrigação.

De fato, estamos longe de conseguir falar sobre sexualidade livre em sociedade. Nossa sociedade, que apresenta corpos femininos como coisas usáveis e descartáveis, não consegue enxergar as mulheres de forma desvinculada da função sexual. Contra elas, o sexo é frequentemente utilizado como punição ou fator de julgamento, sem mencionar o recorte racial, onde as mulheres negra são ainda mais sexualizadas, como se fossem mais provocantes e “disponíveis” somente por conta de suas características físicas.

Com tantos pontos para se pensar a respeito, vale questionar: somos realmente livres para transar? Afinal, será que você é livre para fazer sexo como e com quem quer, ou apenas da forma ditada pelo padrão machista? Devemos sempre lembrar que o discurso da liberdade sexual não chega igualmente a todas as pessoas. E isso não vale somente para as mulheres – que, transem muito ou pouco, têm suas vidas sexuais sempre julgadas e controladas pela sociedade -, mas também para as pessoas gordas, trans, homo ou bissexuais, com deficiência, entre incontáveis outras que não se encaixam no padrão e dificilmente podem celebrar uma sexualidade livre.

Questionar incomoda, principalmente quando o questionamento em questão remexe em estruturas sociais tão importantes para os grupos dominadores. Mas, para que tenhamos, de fato, uma sexualidade livre, essas indagações desconfortáveis precisam acontecer. Somente assim conseguiremos substituir a violência sexual pelo sexo escolhido e consciente, feito com consentimento, segurança, autonomia e, principalmente, respeito.

Foto de capa: Reprodução / Facebook



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