Homem diferente tá aí!!!

Uma crônica que mostra que falar a verdade nem sempre é um bom negócio...

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Uma crônica que mostra que falar a verdade nem sempre é um bom negócio…

Por Mouzar Benedito

Há pouco tempo me perguntaram se eu conhecia alguém em Ribeirão Preto.

Respondi que sim, conheço muita gente lá. E citei alguns deles:

― Kaxassa, Sarjeta e Cachorrão.

Os apelidos assustam, mas são gente boa. Com eles, conheci, entre muitas outras pessoas, o Sócrates, craque líder da Democracia Corintiana, que até participou de uma feijoada que o Kaxassa ofereceu a um bando, em minha homenagem, na primeira vez que fui fazer uma palestra na Feira do Livro de Ribeirão Preto.

Eu tinha lançado um livro sobre a ditadura, e o tema da palestra era esse. Especialmente sobre a tortura aos presos.

Mas no final, o Kaxassa praticamente exigiu que eu contasse ali, pra todo mundo, um causo que ele leu no primeiro livro publiquei, Santa Rita Velha Safada. O tal causo era sobre um grande mentiroso da minha terra.

E contei.

Depois voltei à Feira do Livro de Ribeirão Preto mais duas vezes, como palestrante. Numa delas minha palestra era sobre mitos brasileiros, especialmente o Saci. E no final lá estava o Kaxassa pedindo de novo o mesmo causo.

Na outra vez, o tema da palestra era Meneghetti, o grande ladrão da história de São Paulo. Eu tinha lançado um livro sobre ele. E no final da conversa, lá estava o Kaxassa pedindo o causo do mentiroso.

Bom, um dia desses encontrei com um grupo de Ribeirão Preto que veio a São Paulo para a posse da nova diretoria da UBE, União Brasileira de Escritores, e lançamento de uma coletânea de poesia, crônicas e contos selecionados pela própria UBE.

Terminada a cerimônia, fomos para um bar, e de novo o Kaxassa pediu pra contar a história do mentiroso. Tive que contar. Já que o Kaxassa gosta tanto desse causo, resolvi contar aqui também.

Pouco depois do lançamento da revista Veja, na década de 1960, um repórter e um fotógrafo foram a Nova Resende, em Minas, fazer uma matéria sobre a longevidade do povo da minha terra. Mas encontraram tantos malucos e tanta maluquice lá que resolveram mudar o assunto da matéria, que passou a ser sobre maluquices e malucos dali.

No meio da tarde, entraram num bar da praça central e viram dois homens bebendo cerveja de pé, no balcão.

O repórter falou sobre a revista e, cheio de dedos para não ofender ninguém, disse que encontrou em Nova Resende muitas coisas incomuns, personagens “interessantes” e acontecimentos incomuns. E perguntou se eles podiam falar sobre isso para ele.

Acontece que um dos que tomavam cerveja era Zeca, famoso por suas histórias fantasiosas, para não dizer mentirosas.

Ele não vacilou:

― A coisa mais interessante e diferente não só daqui, mas de toda a região é um homem de sete braços que mora no bairro rural chamado Cafundó.

O repórter fez cara de espanto e perguntou:

― Mas… Sete braços?!

A pergunta tinha um tom de dúvida, pois além de tudo nem era um número par de braços. Seriam quatro de um lado e três do outro? Ou cinco de um lado e dois do outro?

Ficou aquele clima esquisito.

O Zeca não admitia que duvidassem dele. Tinha quase dois metros de altura, e partia pra porrada contra quem fizesse isso. Olhou sério para o repórter e o fotógrafo e falou sério e bravo, indicando seu companheiro de biritagem:

― Não estão acreditando? Perguntem pro Tião.

O repórter virou para o Tião, um baixinho magrelo, esperando uma resposta.

O Tião via o fotógrafo com a máquina virada pra ele, fotografando sem parar, e pensou: “O que é que eu faço? Se eu falar que é mentira, o Zeca me enche de porrada. Se falar que é verdade, vou aparecer nessa revista, com fotografia e tudo, como mentiroso”.

Fez sinal pro repórter esperar um pouco, tomou um gole de cerveja calmamente, pensativo, depois deu um murro no balcão e disse:

― Vou falar a verdade! Esse homem de sete braços eu nunca vi, mas já vi a camisa dele pendurada num varal.



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