Breno Altman defende Vaccari e cobra coerência de Tarso e de assessor de Dilma

O esforço atual, de criminalizar doações oficiais recebidas pelo PT, vinculando-as a propinas da Petrobras, torna ainda mais grave o equívoco de se propor a saída de Vaccari.

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Por Breno Altman, em seu blog

Nas últimas semanas, importantes personagens do mundo petista têm proposto que o tesoureiro do partido, investigado na Operação Lava Jato, peça licença ou seja demitido do cargo que ocupa no comando da legenda.

Tarso Genro, ex-governador gaúcho, e Marco Aurélio Garcia, assessor internacional da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, vieram a público defender esse ponto de vista, em entrevistas recentes a veículos da velha mídia.

A corrente Mensagem ao Partido, a segunda mais importante da agremiação, anunciou que irá pedir formalmente este encaminhamento a Rui Falcão, presidente da sigla.

Estas declarações foram feitas praticamente às vésperas de depoimento do tesoureiro petista na CPI da Petrobrás, marcado para amanhã, dia 9 de abril.

Nenhuma das manifestações exigiu providência equivalente a respeito dos presidentes da Câmara e do Senado ou dos demais parlamentares que estão na mesma situação do dirigente petista, tratando-a como solução geral e republicana para todos os envolvidos.

Aplicada solitariamente, esta sugestão conduz à violação da presunção de inocência, princípio que deveria ser aplicado tanto nos fóruns judiciais competentes quanto em qualquer espaço da vida política ou profissional.

Agrava-se o mau passo em se tratando de processo pontuado por distorções e manipulações, alimentado por delações premiadas de criminosos ansiosos para salvar o próprio pescoço, pressionados a apontar o dedo na direção do PT em troca de alvará que avidamente perseguem.

Mas não se trata, em relação a Vaccari, apenas de desconsideração por seus direitos constitucionais e morais.

Como dizia Talleyrand, célebre político francês, pior que um crime é um erro.

Cortar cabeças também foi, há exatos dez anos, conduta predominante durante o chamado “mensalão”. Ministros e dirigentes partidários eram afastados para tentar aplacar a sanha da imprensa monopolista e a pressão de parte da opinião pública.

O partido e o governo rechaçavam as acusações, mas sancionavam os acusados, deixando-se enlaçar por lógica ambígua e vulnerável.

A cada demissão, naquela época, mais um flanco se abria para a narrativa antipetista, que avançava solerte diante do combate confuso à versão oposicionista, elaborada para enterrar sob escombros o processo iniciado em 2003.

O ex-presidente Lula conseguiu se salvar, em boa medida graças aos formidáveis resultados econômico-sociais que sua administração começava a apresentar: reelegeu-se em 2006 e  fez sua sucessora em 2010.

O Partido dos Trabalhadores, porém, até hoje não se recuperou da batalha do “mensalão”, durante a qual sucumbiu sua direção histórica e fraquejou a confiança na capacidade de enfrentar cenários de máxima pressão.

Vale a pena lembrar deste episódio para lidar com os acontecimentos em curso.

O esforço atual, de criminalizar doações oficiais recebidas pelo PT, vinculando-as a propinas da Petrobras, torna ainda mais grave o equívoco de se propor a saída de Vaccari.

Diferentemente do que se passou com Delúbio Soares, pivô da crise de 2005, a quem se responsabilizou por decisões e acordos financeiros adotados fora das instâncias partidárias, o atual tesoureiro executou orientação decidida há mais de vinte anos: arrecadar recursos legais junto às mesmas empresas privadas que contribuem para todos os partidos.

Ao invés de mobilizar energias para confrontar denúncia fundada na mescla entre ilação e discriminação, pois afeta seletivamente um só partido, o impedimento interno do tesoureiro apenas levaria água ao moinho das inventivas contra a legalidade das finanças petistas.

Um partido que acredita na inocência e na lisura dos atos praticados por seus dirigentes, por fim, não os entrega aos lobos à espera de arrefecer o apetite da alcateia. Não parece ser a maneira mais inteligente e digna de agir. O passado recente está pleno de indicações a esse respeito.

O PT correria o risco de cavar o fundo do poço se repetisse a lambança de 2005.

Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.



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