Carta à mãe do menino Eduardo de Jesus

“Vi quando enterraram o pequeno Eduardo sem saber que, na verdade, a senhora é quem tinha morrido. Vi quando tentava apertar os olhos com as mãos, mas as lágrimas insistiam em atravessar os seus dedos e escorrer pelos punhos. A imagem nos deixa um...

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“Vi quando enterraram o pequeno Eduardo sem saber que, na verdade, a senhora é quem tinha morrido. Vi quando tentava apertar os olhos com as mãos, mas as lágrimas insistiam em atravessar os seus dedos e escorrer pelos punhos. A imagem nos deixa um pouco náufragos, perdidos, mas seus apelos por justiça não serão em vão”

Por Maíra Streit

“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”

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Enterro do menino Eduardo de Jesus (Foto: Alessandro Guerra/ Rádio Cerrado FM)

A música acima foi feita por Chico Buarque em homenagem à estilista Zuzu Angel, que lutou incansavelmente contra os militares na década de 1970 para esclarecer a morte do filho, o militante Stuart Angel. Como muitas outras vítimas da ditadura, ele foi torturado e submetido a espancamentos, tendo o paradeiro de seu corpo nunca revelado.

Sem poder se despedir do filho, nem tê-lo novamente nos braços, Zuzu dedicou todos os seus dias para encontrar pistas e denunciar os assassinos, no auge da repressão militar. Ela viveria apenas cinco anos a mais do que o herdeiro, e o acidente de carro que a levou é apontado como retaliação por ter enfrentado de peito aberto o regime vigente.

Quase quarenta anos depois, o Brasil continua em guerra. Os algozes é que são outros, embora se portem à imagem e semelhança dos assassinos de outrora. As mães, não. Essas permanecem firmes, corajosas, indeléveis. Capazes de tudo para proteger o rebanho.

No lugar de presos políticos, temos os moradores das periferias dos centros urbanos condenados à morte sem maiores explicações. Organizações de dentro e fora do país falam, sem exagero, em um extermínio cruel da juventude negra e pobre.

E, nas últimas semanas, é a imagem de Terezinha Maria de Jesus a que representa todas as outras Marias que batalham diariamente pela vida de seus filhos. Ela infelizmente precisou ver o caçula Eduardo, de apenas 10 anos, sair da favela envolto em um saco preto, para virar mais um nas estatísticas.

O garoto foi atingido por uma bala de fuzil na cabeça enquanto brincava na porta de casa, no Complexo do Alemão, subúrbio do Rio. “Ele estava sentado no sofá comigo. Foi questão de segundos. Ele saiu e sentou no batente da porta. Teve um estrondo e, quando olhei, parte do crânio do meu filho estava na sala e ele caído lá embaixo morto”, contou à imprensa a empregada doméstica que deixou o Piauí em busca de oportunidades melhores para a família na cidade grande.

Ela diz ter sido ameaçada pelo policial que efetuou o disparo, mas não se intimidou. “Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim e disse assim: ‘Já que matei o filho, a gente também pode matar a mãe’. Eu falei: ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’”, lembrou Terezinha.

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Protesto pela morte de Eduardo mobiliza crianças da comunidade (Foto: Reprodução)

Somada à dor da perda, ela ainda teve que lidar com a já previsível tentativa de vincularem a criança ao tráfico de drogas e ao uso de armas, o que é negado por professores e pessoas da comunidade, que defendem a imagem do menino amoroso, que estudava para ser bombeiro.

A naturalização da violência ignora que, por trás dos números, existe a história de alguém condenado, desde cedo, a uma existência breve e sem perspectivas. Uma legião de crianças que já nasce órfã de seus próprios sonhos, em uma espécie de infância clandestina.

A mistura de angústia, impotência e revolta só pode nos colocar em solidariedade a essa mãe.

Dona Terezinha, se pudesse, diria à senhora que estamos profundamente envergonhados. Ter que ligar a TV e ver as autoridades com seus intermináveis sapateados verbais chega a ofender os olhos. Ainda pedem o endurecimento da polícia; a hipocrisia é mesmo o maior tumor das relações humanas. Enquanto os nossos filhos se divertem, os seus tentam simplesmente não morrer.

No próximo mês, será com certeza o seu ‘Dia das Mães’ mais triste de todos. Minha filha vai chegar da escola com um presente, um abraço, um “eu te amo” escrito com letrinhas tortas, e invariavelmente vou lembrar da sua dor. O seu menino é também um pouco nosso e de todos aqueles que se negam a compactuar com essa chaga social que leva embora a esperança de tantas famílias.

Vi quando enterraram o pequeno Eduardo sem saber que, na verdade, a senhora é quem tinha morrido. Vi quando tentava apertar os olhos com as mãos, mas as lágrimas insistiam em atravessar os seus dedos e escorrer pelos punhos. A imagem nos deixa um pouco náufragos, perdidos, mas seus apelos por justiça não serão em vão.

Como diz a música do início, cantaremos sempre esse estribilho, até que outras mães tenham a chance de embalar seus filhos e contar histórias sem serem interrompidas por tiroteios ensurdecedores, nem o autoritarismo que tenta, de todas as formas, calar as suas vozes. “Quem é essa mulher que canta sempre o mesmo arranjo?”. Essa mulher… somos todas nós.


Foto de capa: Renato Moura/Voz das Comunidades



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