Por denunciar foto machista, estudante é xingada, ameaçada e ofendida por homens

Integrante da Frente Feminista da faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, a jovem vem sofrendo uma onda de ataques machistas na internet justamente por tentar combater esse tipo de discurso nas redes. "Femilixo" e "Falta um mol de rolas em você" são só alguns...

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Integrante da Frente Feminista da faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, a jovem vem sofrendo uma onda de ataques machistas na internet justamente por tentar combater esse tipo de discurso nas redes. “Femilixo” e “Falta um mol de rolas em você” são só alguns dos comentários que vem recebendo desde então. Confira o relato de Amanda Grecco

Por Amanda Grecco 

É difícil, e talvez impossível, escrever um texto que sintetize, de maneira clara e direta, o motivo do meu desgaste em ter que defender – mais uma vez – o óbvio. O resumo do drama é o seguinte: sou mulher, feminista, vivo num processo de empoderamento e a luta contra essa sociedade machista e patriarcal exige muita, muita, energia. Mas para ajudar a desconstruir, sempre há alguma força que te permite, no meio da madrugada, registrar seu relato na esperança de incentivar outras mulheres a darem a voz quando são oprimidas e, não menos importante, na esperança de calar os opressores.

Após ver circulando na internet uma foto não consentida (postada inicialmente na Fanpage Economia da Depressão e repostada na Fanpage Graduação da Depressão),  em que uma mulher foi flagrada de costas, usando shorts curto durante a aula na Universidade Presbiteriana Mackenzie, li – para a minha infelicidade – os comentários machistas sobre a imagem. Para início de conversa, aqui vai uma das minhas citações preferidas “É minha, é minha. A porra da boceta é minha”. No caso, a boceta ou o que mais que tenha naquele belo corpo, é da moça da foto, e é ela quem decide o que vai, ou não, ser mostrado; o que vai, ou não, ser tocado e, principalmente, por quem. É ela quem decide sobre as roupas que escolherá para o próprio corpo, e isso deveria ser óbvio. Mas xs seguidores das páginas não compartilham da mesma opinião que eu.

Sim, li os comentários e não me arrependo de ter entrado na discussão com o seguinte apontamento “E eu que pensava que a Cásper era misógina (sim, rola uma misoginia pesada lá. O ambiente universitário tá brabo). Não tem quase nenhum comentário decente aqui. Machismo rolando solto. O corpo é da mina, vcs não têm nada com isso”.  Eis que o senhor Ancley Moises de Santos me surpreendeu em sua ignorância, respondendo que o corpo é, sim, da moça, mas a opinião é “nossa”. E se despediu me chamando de “feminista baitola”. Eu denunciei, e avisei “denunciado”. Simples assim. Me surpreendeu o fato de ele ter usado o pronome possessivo “nossa”. Quem somos nós? Um levante misógino que me atacaria por ter feito um comentário que, na moral, foi super educado? Sim, era o levante.

Postei na minha página do Facebook uma denúncia contendo os prints dos posts, um pedido para que amigues jornalistas me ajudassem com as denúncias, agradecendo o apoio da Frente Feminista Casperiana Lisandra, e dando força à garota exposta na foto.

Depois, veio Felipe Augusto (um dos moderadores da FanPag Graduação da Depressão) me escrever por inbox “chora mais que tá pouco”; o internauta Felipe Yassuda dizer que falta um mol de rola em mim, e me chamar de femilixo; Maclovin Gueites dizer estar faltando uma surra de rolas nas feministas, além de diversas outras do bando de uzomi que treme ao ver as minas se empoderando. Até que a Fanpage Graduação da Depressão printou a minha denúncia em minha página pessoal e me expôs para os psicopatas comentaristas. Foi aí que o celular quase convulsionou com tanta notificação: mensagens inbox ameaçadoras, homens desconhecidos me adicionando (óbvio que não aceitei nenhum) e comentários asquerosos.

Por outro lado, estava recebendo diversas mensagens de apoio de amigues e desconhecides que, assim como eu, não sucumbem à misoginia. Essas pessoas me desejaram força e, inacreditavelmente, eu tive. Eu não me anulei, como pensei que faria. Eu não me abalei, não me amedrontei, não me deixei oprimir. Uma vez que eu descobri o meu lugar de voz, não vou mais me calar, e é por isso que escrevo este texto. Então, que isto que me serviu como exercício para a desconstrução e fortalecimento te sirva como incentivo para que você não se deixe calar e oprimir: estamos juntas!

Feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente.

Beijo pro recalque!

Ilustração: Vitor Teixeira 

 



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