Dilma: “Nós saímos da eleição com gente no terceiro turno”

Em entrevista concedida nesta terça-feira (14) a blogueiros, a presidenta comentou sobre as reiteradas tentativas da oposição de desqualificar as eleições de 2014, após ter perdido mais uma vez nas urnas; ela falou ainda sobre ajustes fiscais, modificações no Fies e a relação com...

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Em entrevista concedida nesta terça-feira (14) a blogueiros, a presidenta comentou sobre as reiteradas tentativas da oposição de desqualificar as eleições de 2014, após ter perdido mais uma vez nas urnas; ela falou ainda sobre ajustes fiscais, modificações no Fies e a relação com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy

Por Redação

Em entrevista concedida a um grupo de blogueiros, nesta terça-feira (14), a presidenta Dilma Rousseff falou sobre as reiteradas tentativas da oposição de desqualificar as eleições presidenciais de 2014, após ter perdido mais uma vez nas urnas para o PT. “Eu acho que nós saímos da eleição – e uma eleição muito disputada – com muita gente no terceiro turno. Daí, vocês lembram bem, houve uma tentativa, logo depois da eleição, de contagem de votos. O Brasil é um país que se orgulha da sua estrutura do TSE e das urnas eletrônicas, e pode se orgulhar disso”, afirmou.

Segundo Dilma, essa não foi a única ação realizada para desestabilizar o governo logo depois do pleito. “As contas aprovadas por unanimidade no TSE sofreram, até chegar à aprovação, um grande estresse político, em um projeto que parecia ser de terceiro turno também”, contou. Apesar disso, a presidenta considerou que a reação da oposição faz parte do jogo político, após 12 anos de gestão petista, e que não gerou uma crise institucional.

Estiveram presentes na coletiva Altamiro Borges, do Centro Barão de Itararé; Cynara Menezes, do Socialista Morena; Luis Nassif, do Jornal GGN; Maria Inês Nassif, da Carta Maior; Paulo Moreira Leite, do Brasil 247, e Renato Rovai, do Blog do Rovai e revista Fórum.

Entre outros assuntos, Dilma Rousseff abordou ainda as perspectivas do setor industrial, os ajustes fiscais no país, as modificações no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e a relação com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Confira, abaixo, alguns trechos da entrevista:

Setor Industrial

Você tem alguns segmentos que impulsionam esse setor industrial. Todas aquelas tentativas de falar: ‘Vamos acabar com o conteúdo local, vamos acabar com o governo de partilha’. Isso perde de vista uma das coisas mais importantes. É que a questão do petróleo não é restrita à Petrobras. A questão do petróleo, que nós conseguimos preservar, nós conseguimos que uma parte expressiva – não é necessário ser toda e ninguém está falando que é toda -, mas que uma parte expressiva da produção de bens, equipamentos, inclusive de serviços seja ofertada aqui no Brasil.

Então, essa indústria é uma indústria que veio para ficar. Vou te dizer outra, a indústria que a gente chama de tradicional, mas que não é tradicional. Ela trabalha até com fins de grande grau de tecnologia. Essa indústria estava sendo morta pela taxa de câmbio. Nós tiramos um problema de taxa de câmbio no Brasil seríssimo. Algumas das coisas boas nesse momento que produzem inflação, mas podem produzir também uma estabilidade maior e uma visão também mais realista do câmbio em relação às nossas necessidades.

O que eu quero dizer é o seguinte: a indústria brasileira tem que existir, ela tem raiz para existir. Não vamos ser anti-industrial, não. A gente não pode esperar um nível de comprometimento político em segmentos assim, mas o governo é obrigado a ver. Vamos supor que você é governo, aí você olha para o câmbio a 1%, aliás 1,6%, você não pode concordar que 30% do seu mercado de automóveis sejam fornecidos por importação. Sendo que não é uma questão que nós estamos querendo impedir o livre comércio, nós estamos querendo impedir que as distorções das políticas monetárias e fiscais internacionais repercutam sobre nós, nos destruindo. Isso você não pode aceitar.

Seguro-desemprego

Dá uma olhada no estudo do Dieese, aí vocês vão ver várias coisas. O que nós achamos é o seguinte: nós não podemos aceitar, e nenhum país faz isso, instituir a cultura do não trabalho. Nós não podemos fazer isso, principalmente em países que precisam ter sua força de trabalho engajada, formada. E por isso nós fizemos o Pronatec.

Nós não estamos acabando com o seguro-desemprego. Nós estamos mantendo o seguro-desemprego. O que estamos fazendo é exigindo maiores requisitos para pagar. É isso que nós estamos fazendo. E, obviamente, ainda vai ser negociado na Câmara. Não sei como é que sai. É que nem o Bolsa Família. O Bolsa Família só deu certo porque nós fazemos auditoria externa, porque nós olhamos o cadastro, porque nós não deixamos [acontecerem irregularidades].

Porque, se você deixar, vira o Seguro Defeso. Porque uma parte, também envolvendo o seguro-desemprego, é o Seguro Defeso [assistência financeira temporária concedida ao pescador profissional que exerça sua atividade de forma artesanal]. Estava se pagando o Seguro Defeso em pleno Semiárido nordestino, aí não dá. O que nós não queremos é pagar Defeso para quem não pode receber.

Fies

Vamos discutir o Fies? O Fies é o mais interessante de todos. Nós controlamos tudo o que era dinheiro do orçamento na Educação. No Enem, nós fazemos. No Sisu, nós fazemos. O Prouni deriva do Enem. O Ciência sem Fronteiras deriva do Enem. Cada um deriva do Enem. O que aconteceu? O Fies tinha um nível muito baixo, nós sempre quisemos aumentar o Fies. Achava que o Fies era uma forma de a gente incluir mais gente no ensino pago universitário.

É o mesmo objetivo do Prouni, só que o Prouni era no imposto e o Fies era o estudante tomando o seu financiamento. Nós não fizemos o cadastro. Quem fazia o cadastro eram as empresas de educação. Falha dois: nós não colocamos, porque não fizemos o cadastro, e achávamos que isso era uma questão… Como é financiamento, você vai pagar, então não vou olhar quanto é que é a sua nota no Enem. Erro nosso. Tinha que olhar a nota do Enem.

Então, os 450 pontos que a gente exige de todo mundo no Prouni, no Ciência sem Fronteiras, em tudo, nós não exigimos no Fies. Aí, uma pessoa – aí tem estatísticas – que tem zero em português podia se beneficiar de algo que é um financiamento, mas é um financiamento subsidiado. Então, acabamos com isso. Agora tem que fazer 450 pontos e, se tiver zero em português, não entra, não. Você tem que combinar a inclusão com um nível mínimo de conhecimento na sua própria língua. E a coisa mais grave era a mensalidade e a matrícula. Por exemplo, o governo deu 6,5% de reajuste. Antes, eles queriam 32%, 40%. A briga, fundamentalmente, não se dava nos 450, a briga se dá na hora em que o governo fala: ‘Não pagamos qualquer reajuste. O limite que se dá é de 6% do reajuste’.

Poder de Joaquim Levy

O ministro da Fazenda, para defender medidas políticas, depende da presidência da República. Ele não defende nada que a presidência da República não concorde. O que o ministro Joaquim Levy está fazendo, ele faz porque eu concordo, porque o governo dá respaldo, ele não tem meios de fazer [sozinho]. É uma avaliação puramente jornalística, ela não é uma realidade nem institucional, nem administrativa, nem econômica e nem política. É a interpretação que foi feita no momento. Em um país com liberdade de expressão, é uma visão.

Crise política?

Eu acho que nós saímos da eleição, e uma eleição muito disputada, com muita gente no terceiro turno. Daí, vocês lembram bem, houve uma tentativa, logo depois da eleição, com o problema de contagem de votos. O Brasil é um país que se orgulha da sua estrutura do TSE e de urnas eletrônicas, que pode se orgulhar disso, de ter o resultado eleitoral no prazo mais curto possível. Então, item número 1. Item número 2: as contas aprovadas por unanimidade no TSE e sofreram, até chegar à aprovação, sofreram um grande stress político, em um projeto que parecia ser de terceiro turno também.

E essa questão continuou. Acho que a gente tem que reconhecer que isso faz parte, não acho que hoje isso leve a alguma crise institucional. Isso faz parte da política do Brasil no estágio em que ela está hoje. Ela está nesse estágio. Ou seja, nós vamos fazer 13 anos de governo e aqueles que não estão no governo reagem dessa forma.

Situação econômica

Segunda questão que eu acho do que se está chamando de crise política: sem sombra de dúvida, há um problema no país: nós tivemos uma situação econômica bastante complicada. Agora, ela não produziu os efeitos que crises econômicas anteriores produziram. Por quê? Porque, de qualquer forma, mudou completamente o que havia anteriormente. E as pessoas raciocinam como se não tivesse mudado. Nós, hoje, temos um mercado de 44 milhões de pessoas que vão sentir as consequências, mas de forma muito menor porque esse pessoal continua demandando e continua comprando.

Outra questão: nós temos um baixo nível de endividamento no país. O país não tem uma crise de dívida, como os países da Europa, os Estados Unidos e outros países desenvolvidos têm. Nós temos uma dívida pública, ela pode até dar uma aumentada e uma diminuída, mas a faixa dela está perfeitamente manejável. Não tem crise externa. O país quebrava, tinha crise externa, nós não temos crise externa.

Nós continuamos sentados nas nossas reservas, protegidos pelas nossas reservas. E temos um conjunto de políticas sociais. As nossas políticas sociais estão mantidas. Nós vamos ter que diminuir alguns ritmos, vamos ter sim, mas o que nós esperamos? Esperamos que haja uma recuperação. Tem gente que diz no segundo semestre, vou falar no final do ano. Não acredito muito que seja no segundo semestre.

Ajustes

O que eu queria dizer era o seguinte: nós não estamos fazendo esse ajuste por causa do ajuste. Nós estamos fazendo para crescer. Nós achamos que, se a gente retomar as condições fiscais nessa conjuntura, nós cresceremos. E nós temos um conjunto de projetos e de ações em andamento que vão se manter. Por exemplo, vamos continuar fazendo portos, aeroportos, vamos continuar fazendo nossos leilões de energia elétrica.

Leia também: Em entrevista a blogueiros, Dilma explica o ajuste fiscal


Foto de capa: Roberto Stuckert Filho



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