Marina Silva: impeachment é aventura sem base legal

Ex-ministra do Meio Ambiente diz que proposta de afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) não pode passar por cima da materialidade dos fatos; para ela, que renega a instrumentalização da crise, o momento é de muita responsabilidade com o País

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Ex-ministra do Meio Ambiente diz que proposta de afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) não pode passar por cima da materialidade dos fatos; para ela, que renega a instrumentalização da crise, o momento é de muita responsabilidade com o País; em entrevista ao Estado, a ex-candidata presidencial diz que o natural seria que PT e PSDB, “dois partidos da social democracia”, tivessem percebido a dimensão da crise e “trabalhado seus pontos de contato” para estabelecer uma agenda essencial para o País; apesar da moderação, a ex-líder seringueira diz que, na prática, já se tem quase que uma cassação branca de um governo que acaba de ser eleito, com a terceirzação da gestão política e econômica para o PMDB e para o ministro Joaquim Levy

Do Brasil 247

“Não se pode enveredar por uma aventura”. Essa é a opinião da ex-ministra do Meio Ambiente e líder da Rede Sustentabilidade Marina Silva sobre a ideia de impeachment da presidente DIlma Rousseff (PT) levada a cabo pelo presidente nacional do PSDB e senador por Minas Gerais Aécio Neves. Para a ex-líder seringueira, que concedeu longa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada neste domingo, a proposta de impedimento não pode passar por cima da materialidade dos fatos.

Sem base material, diz Marina, não motivos para o impeachment: “Porque responsabilidade política não significa responsabilidade material, em que você tem uma acusação peremptória de envolvimento direto. Não devemos ir pelo caminho de instrumentalizar a crise. Neste momento, é preciso muita responsabilidade com o País.”

A ex-candidata presidencial acha correto que setores da oposição se movam com responsabilidade no debate do impeachment, a exemplo do PSB (sigla que cedeu-lhe a legenda para a disputa de 2014), que afasta a ideia. Para ela, no entanto, só isso não basta. “Na prática, você já tem quase uma cassação branca de um governo que acaba de ser eleito”, diz, ao dizer que economia está nas mãos do Levy (Joaquim, ministro da Fazenda) e a política está nas mãos do PMDB.

A ex-ministra ainda faz calorosos elogios à postura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diante da crise: “Ele está se movendo com muita responsabilidade, tendo um comportamento muito republicano na atual crise, e também teve uma atitude muito correta e muito democrática na transição do governo dele para o do presidente Lula.”

Marina, naturalmente, não poupa Dilma, Lula e o PT (partido que ajudou a fundar) de duras críticas, mas relaciona ainda a omissão do PSDB como um forte estímulo à crise política atual. O PT tem enorme responsabilidade, sem sombra de dúvida, mas a crise é tão ampla, tão grave, que cabe a pergunta: como é possível que tudo isso tenha acontecido debaixo do nosso nariz? O natural seria o PT e o PSDB, dois partidos da social democracia, terem percebido que há um novo sujeito político em gestação e trabalhado seus pontos de contato para estabelecer uma agenda essencial para o País. Não teríamos chegado a esse ponto”, advoga.

Abaixo, trechos da entrevista:

PT

Gosto mundo daquele ditado: “Sábios são os que aprendem com os erros dos outros, estúpidos são os que não aprendem nem com os próprios erros”. Numa situação com a gravidade que temos hoje, o desserviço que o PT presta para a política nesse momento precisa nos ensinar alguma coisa, mas espero que não ensine apenas ao PT.

Silêncio de Lula

Bem… há um problema que talvez possa ajudar a entender esse silêncio. Se antes foi possível amaldiçoar heranças alheias, hoje a presidente Dilma convive com sua própria herança, ela sucede a ela mesma, não é? A quem culpar pela inflação? E pela Petrobrás, pela corrupção sistêmica no Estado?

Maquiagem

O PT, em nome do seu projeto de poder, maquiou a realidade e as contas públicas, subestimou a crise, criou os heróis nacionais com o dinheiro do BNDES, tomou uma série de medidas que levaram o País ao lugar onde estamos hoje. E eles agora não têm alguém para amaldiçoar como dono da herança, porque quem criou essa herança foi a Dilma.

Corrupção

É muito grave, saiu de um estágio em que era, digamos, esporádica, para um processo contínuo, institucionalizado, com os altos gestores da Petrobrás envolvidos, tudo num governo que aí está há doze anos. Isso é muito grave.

Papel de Dilma

Se, por um lado, precisamos ter a responsabilidade de não fazer qualquer acusação leviana do ponto de vista direto, a responsabilidade política indireta é patente. Como você é ministro de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente da República e tudo isso acontece? Há uma responsabilidade política, mas não sou do tipo que torce pelo quanto pior melhor.

Oposição

Acho correto que setores da oposição se movam com responsabilidade, para não entrar em qualquer tipo de aventura, mas ao mesmo tempo só isso não basta. Na realidade de hoje, é como se a presidente só estivesse manejando a crise. A economia está nas mãos do Levy e a política está nas mãos do PMDB. Na prática, você já tem quase uma cassação branca de um governo que acaba de ser eleito.

Manifestações

Há muito eu digo que está surgindo um novo sujeito político e que a internet, que revolucionou a economia, a ciência, a tecnologia e a comunicação iria chegar também, para o bem e para o mal, até a política. A melhor forma de lidar com esses movimentos é respeitando os como movimentos autorais.

Fora Dilma

Essa é a agenda que eles (manifestantes) colocam e eles têm toda a legitimidade para colocá­la. Aliás, eles aprenderam isso justamente com o PT. Era o “Fora Sarney”, o “Fora Collor”, o “Fora FHC”, o fora qualquer um. Eu sei até porque eu era do PT. Mas, neste momento, mesmo sabendo da gravidade da crise, seria reducionismo político as lideranças políticas simplesmente fazerem o discurso que a sociedade quer ouvir.

Impeachment

Ser político não é fazer o que as pesquisas indicam que você deve fazer. Ser político é fazer aquilo que é correto, de acordo com sua consciência e com a sua responsabilidade com as necessidades históricas do País. O impeachment está previsto na Constituição, não é ilegal nem é ilegítimo se referir a ele como alternativa, mas, para chegar a ele, existem vários elementos, não é só o desgaste político, só a vontade política, mas é também a materialidade dos fatos. Os que têm responsabilidade política não podem passar por cima da materialidade dos fatos.

Temer

Na prática, o protagonismo político é obviamente do PMDB. O Temer, e, depois, os presidentes da Câmara e do Senado. É a primeira vez que a gente vê uma coisa como essa. Um amigo brincou que, quando quis ser demitido, o ex­ministro Cid Gomes foi dizer desaforo para o único que podia demiti­lo, que era o PMDB.

Futuro

Bem, eu não quero que tudo fique pior do que já está. Sinceramente, não quero, porque quem pagará o maior preço serão os setores mais vulneráveis, que perderão seus empregos, o pouco do poder aquisitivo que conquistaram, serão jovens que não terão mais o Pronatec, o Prouni, todas essas conquistas que a sociedade brasileira vinha experimentando. Torço para não acontecer.



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