Opinião: Diário de S. Paulo ataca lideranças da greve dos professores e blinda governo do PSDB

Repórter do jornal faz entrevista com presidenta da Apeoesp, Bebel Noronha, e não pergunta sobre a pauta de reivindicações da paralisação que já dura mais de um mês com forte adesão, mas se ela é filiada ao PT.

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Repórter do jornal faz entrevista com presidenta da Apeoesp, Bebel Noronha, e não pergunta sobre a pauta de reivindicações da paralisação que já dura mais de um mês com forte adesão, mas se ela é filiada ao PT. “Além de não noticiarem corretamente nossa greve querem cercear nosso direito de organização, de manifestação de lutar pelos nossos direitos e reivindicações”, diz.  Leia artigo abaixo.

Por Bebel Noronha*

Fui procurada hoje, 21 de abril, por um jornalista chamado Eduardo, do jornal Diário de S. Paulo, que está preparando uma matéria para partidarizar a nossa greve. Não me recordo de ter sido entrevistada anteriormente por este repórter.

Diz ele que pesquisou na direção executiva da Apeoesp, composta de 35 membros, a existência de 23 filiados do Partido dos Trabalhadores. Citou também outros partidos. Confesso que nunca fiz essa verificação, pois isto não tem absolutamente nada a ver com a nossa luta. Estranhamente, o repórter não me fez qualquer pergunta sobre a nossa pauta de reivindicações ou sobre a recusa do governador em negociar com a nossa categoria.

No meu caso ele não precisaria realizar nenhuma pesquisa policialesca, pois nunca escondi minha preferência partidária, já que isso não constitui nenhum crime. Da mesma forma, muitos outros companheiros e companheiras do PT e de outros partidos não escondem suas preferências. O que isto significa? Uma caça às bruxas?

Na Apeoesp não exigimos atestados de filiação partidária para que um professor ou uma professora se associe ou para que sejam representantes de escolas, membros dos conselhos regionais, do Conselho Estadual de Representantes ou, ainda, integrantes de sua diretoria.

Nosso sindicato possui uma diretoria plena composta de 120 membros, pois somos uma entidade muito grande, com 93 subsedes em todas as regiões do estado. Curiosamente, o citado jornalista não se preocupa em investigar as preferências partidárias dos demais diretores, talvez porque os resultados não corroborem sua tese.

Professores em assembleia na última sexta-feira (17) (Foto: Inácio Teixeira/Apeoesp)
Professores em assembleia na última sexta-feira (17) (Foto: Inácio Teixeira/Apeoesp)

Dentro do sindicato, eu, particularmente, pertenço a uma corrente de opinião, denominada Articulação Sindical. Tal corrente é plural e congrega membros de muitos partidos e uma grande parcela que não é filiada a partido algum. Há nesta corrente de opinião integrantes do PSDB e outros partidos que compõem a base aliada do governo Alckmin na Assembleia Legislativa. O que nos une é a luta pela valorização dos profissionais da educação e pela melhoria da escola pública.

O que querem fazer certos órgãos de comunicação? Além de não noticiarem corretamente nossa greve querem cercear nosso direito de organização, de manifestação de lutar pelos nossos direitos e reivindicações.

O que estamos assistindo é um ataque frontal e sistemático contra a democracia no nosso país. O povo brasileiro derrubou uma ditadura, mas ela está voltando de outra forma.  Um único partido, o PSDB, com apoio de parte da mídia, quer mandar sozinho no nosso país, não reconhecendo o processo eleitoral de 2014, cujo resultado lhe foi adverso; “caçando” lideranças sindicais; pagando com dinheiro público blogueiros para atacar partidos progressistas e organizações sociais, como no caso dos R$ 70 mil mensais destinados ao senhor Fernando Gouveia, do site implicante.

Este partido agora utiliza “fora” para tudo. Isto não faz parte da nossa prática. Respeitamos o processo democrático, os resultados eleitorais legítimos e estamos há mais de 20 anos suportando sucessivos governos do PSDB no estado de S. Paulo. Não aceitamos golpes contra a democracia.

É preciso respeitar as escolhas de cada cidadão. Se o governador Alckmin pode pertencer ao PSDB, por que cada um de nós não pode filiar-se ao partido de sua preferência?

O que está ocorrendo, na verdade, é que nossa greve está firme, forte e conta com o apoio da opinião pública, dos pais e dos estudantes. A “novela” à qual o governador Alckmin se referiu não está saindo como ele imaginava, uma greve fraca e esvaziada. Por isso ele nos ataca falando de uma suposta “partidarização” do movimento. Nós já assistimos a essa novela várias vezes. Sempre que nos mobilizamos para reivindicar nossos direitos, logo aparecem tucanos e aliados para dizer que nossa luta é “partidária”, “eleitoral” e outros adjetivos deste tipo.

O ex-governador José Serra dizia a mesma coisa em 2010, mas nos processou e perdeu. Parte da sentença do TSE diz que “A manifestação realizada por trabalhadores do sistema oficial de ensino do Estado de São Paulo, reunidos no exercício do direito de greve, ainda que resulte em críticas de natureza política, está respaldada pela liberdade de manifestação garantida pelo art. 5º, IV, da Constituição da República Federativa do Brasil e não atrai a incidência da penalidade prevista no art. 36, § 3º, da Lei nº 9.504/97.” E que “Acordam os ministros do Tribunal Superior Eleitoral, por maioria, em prover os recursos do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo Apeoesp, e de Maria Izabel Azevedo Noronha.”

Nossas discussões e deliberações são realizadas em assembleias com 60 mil pessoas ao ar livre, com acompanhamento de todos os meios de comunicação. Nossa pauta é conhecida de todos. Queremos a melhoria da escola pública estadual de São Paulo, algo que o Governo do Estado, comandado pelo PSDB, se recusa a atender. Prefere o jogo baixo, encomendando matérias para nos atacar e criminalizar. Não vai conseguir.

Termino com um ditado popular: “quem está na chuva tem que se molhar”. O governador não escolheu a reeleição? Pois agora, tem que cumprir a vontade da maioria. E a maioria da população paulista quer que ele negocie com os professores e apresente propostas que possam conduzir a uma solução positiva para o movimento.

Nossa luta é justa, nossa greve está forte e vamos até o fim.

*Maria Izabel Azevedo Noronha é presidenta da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo)



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