Na aldeia, mulher também tem voz

“Quem falava, quem pensava nas coisas, quem fazia as coisas eram só os homens, não tinha mulher na liderança, nem cacique, nem vice-cacique, nem guardiões”, conta a índia Jera Guarni, da aldeia Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo. Hoje, ela participa das...

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“Quem falava, quem pensava nas coisas, quem fazia as coisas eram só os homens, não tinha mulher na liderança, nem cacique, nem vice-cacique, nem guardiões”, conta a índia Jera Guarni, da aldeia Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo. Hoje, ela participa das esferas de poder e decisão de sua comunidade e consegue jogar luz sobre as questões femininas 

Por Anna Beatriz Anjos, colaborou Semayat Oliveira 

No final de fevereiro, chovia torrencialmente na aldeia Tenondé Porã, em Parelheiros, extremo sul de São Paulo. Na área externa de uma das casas, a índia Jera Guarani, da etnia Guarani-Mbyá, falava sobre sua experiência como mulher nas esferas de poder e decisão de sua comunidade.

Formada em Pedagogia no mundo juruá (como se referem aos indivíduos não indígenas), ela conseguiu dar voz às mulheres em espaços tradicionalmente ocupados por homens, que sozinhos decidiam os rumos da aldeia.

Em entrevista à Fórum, Jera descreveu um pouco dos costumes de seu povo, comentou sobre o papel feminino em sua cultura e contou como se deu a montagem de um conselho guarani, ambiente de gestão compartilhado por homens e mulheres. Confira:

(Foto: Mídia NINJA)
(Foto: Mídia NINJA)

Fórum – Jera, você poderia começar contando, por favor, um pouco como foi a sua infância, como é a educação aqui na aldeia para as meninas e quais são suas principais referências.

Jera Guarani – A minha infância, comparando com a infância dos meus sobrinhos hoje, dos filhos dos meus irmãos, das minhas irmãs que são muitas, – tenho mais de sessenta sobrinhos, quatorze sobrinhas netas (risos) –, comparando o que eles têm hoje com o que eu tive, infelizmente o que estão tendo não é tão bom quanto foi para mim na minha infância. Não tinha luz, não tinha TV, não tinha internet, não tinha videogame, então era mais calmo, e aí as nossas brincadeiras eram inúmeras, da tradição Guarani mesmo. Muitas brincadeiras. A gente sempre tinha muito contato com a natureza e para aprender, para saber fazer as coisas direitinho na vida adulta, a gente já naturalmente copiava os nossos pais, as mães para cozinhar, para limpar a casa… Daí a gente, mesmo criancinha, brincava de “mamãe/papai” e a mamãe tinha que limpar o quintal para receber Nhanderu de manhã para dar bom dia pra gente, tinha que manter o quintal e a casa limpa (risos) e aí a gente ficava olhando as nossas mães cozinharem e ficávamos, às vezes, atrás delas pedindo um pouquinho de cada coisa pra gente simular, né? E aí, às vezes, a gente pegava até escondido algumas coisinhas e levava para o mato, fazia fogo, fazia água, assava batata. Lembro que era muito gostoso. Eu e todos os meus amiguinhos, a gente não sabia falar português, só o guarani. E aí toda minha infância foi muito feliz. Tive muita brincadeira, muita natureza. Os pais, as mães ainda cuidavam dos seus filhos, porque também não tinha tantos afazeres do que têm hoje.

O acúmulo de algumas coisas também acaba atrapalhando o tempo da mãe com seus filhos, do pais com seus filhos. A minha mãe, o meu pai tinham muito mais tempo comigo. Daí aprendia as coisas com a minha mãe, com meus amiguinhos e aprendia muita coisa com meu pai, de pescar com ele, carpir, roçar, plantar as coisas com ele, correr atrás das galinhas, pegar lenha com meu pai. Ele, mesmo menina, me deixava fazer todas as coisas que teoricamente filho homem faria com ele. E aí depois que nasceram meus irmãos, também faziam isso, mas eu continuava fazendo, meu pai deixava fazer. Então, muitas coisas que consigo fazer direitinho hoje aprendi já na minha infância, com meu pai, com minha mãe.

O tratamento das meninas na aldeia começa desde muito cedinho. O comportamento, por exemplo, físico, de como as meninas têm que se sentar, de como as meninas têm que andar, têm que ter agilidade, e ser calma também para fazer as coisas direitinho. Mas o ensinamento mais profundo é na hora da passagem da vida de criança para a vida adulta, que acontece aos doze, treze anos. E aí, nessa idade, a menina vai aprimorar tudo o que já aprendeu em relação a cozinhar, lavar roupa, cuidar das suas coisas. E como é natural, em média, as famílias Guarani terem cinco ou seis filhos, o primeiro que nasce certamente vai ter o irmão ou irmãzinha para cuidar. Então, já sabe também cuidar de criança: dar banho, alimentar… Quando está chorando, saber fazer a criança ficar alegre de novo, sair, cantar com ela, ver plantinhas, ver bichinhos, enfim.

Quando tem essa passagem da vida de criança para a vida adulta, tudo isso é aprimorado, a menina fica em repouso, resguardo, de quinze dias a um mês do povo Guarani; vai aprender a cozinhar melhor as coisas, vai principalmente depois aprender a dividir a sua comida com todos os seus irmãos, com todos os parentes da casa, e tem que ter um conhecimento, uma sabedoria. Daí, se tiver espiga de milho, por exemplo, a menina assa o milho e depois tem que fazer com que os grãos de milho consigam passar nas mãos de todo mundo, e nessa fase também a menina é aconselhada pelas tias mais velhas, pelas avós, pela mãe para ser uma boa esposa, para ser uma boa mãe e para ter comportamentos na sociedade onde vive que vão ser saudáveis, como respeitar as mães, respeitar seus parentes, cuidar das crianças, cuidar de outros filhos da aldeia também quando necessário, mas também ter um cuidado especial consigo mesma. Como a gente mora no mato, na nossa percepção tudo o que tem no mato, todos os recursos têm os seus seres que zelam por eles, e a gente tem que saber se cuidar para que não chegue em situações de deixar esses seres bravos e aí sofrer as consequências. Esse momento da menina ter toda atenção da família é muito especial, porque ela fica ali tranquila, fechadinha no canto dela, mas ela tem a atenção de todo mundo. Todos os dias recebe visita de tio, da mãe, da avó que aconselha, que conversa com ela e que vai aprimorando já seus conhecimentos anteriores.

Fórum – Pode nos contar um pouco sobre a experiência de ter cursado o ensino superior, algo não tão comum entre os integrantes da aldeia?

Jera – O meu início no estudo foi muito sofrido. Entrei na primeira série, em uma escola estadual, bem perto da aldeia – eu tinha nove, ia fazer dez anos, e não sabia falar uma palavra em português. Minha mãe, que já tinha toda uma história diferenciada também das outras guaranis por ter crescido sem mãe, já falava um pouco de português. Meu pai já também havia tido contato com todo o povo de lá. Para defender melhor a aldeia tinha que aprender bem a língua do outro. Ela me colocou na primeira série, eu e minha irmã, que no segundo ano desistiu, mas depois de todas as dificuldades, depois de ter três vezes desistido da escola, minha professora, que foi muito especial na minha vida, foi até a aldeia atrás de mim, e fazendo cafuné me levou de volta para a escola (risos). Ela foi uma peça muito importante para esse meu contato com o mundo juruá.

Depois do término da primeira série, tomei gosto pela educação que estava recebendo e que era diferente da aldeia, mas que tinha coisas boas. Por exemplo, a matemática era uma coisa muito diferente para mim; na aldeia, a gente sempre dividia tudo, mas só com as ações práticas – dividir a comida, dividir o tempo entre várias situações de forma coletiva –, e tudo aquilo podia aparecer também em números, cálculos. Isso era uma coisa muito curiosa para mim. Depois de aprender a matemática, as equações, as quatro operações na primeira série, eu voltava para aldeia e fazia isso com gravetinhos com meus amigos. “Isso aqui dá cinco. Se você colocar mais cinco, dá dez e pode ir aumentando, e o número é infinito no mundo dos juruá”. Pegava sementinhas e trabalhava.

Não sabia entender direito a língua, então era puxado. Mas para os meus amigos [da escola], que também faziam parte de uma população carente, não tinha muito essa diferença de “ah, ela é índia, é pobre, é suja” e tal. Eles se identificavam também comigo, não era muito diferente, a gente fazia parte de uma mesma realidade. Lembro que eles me puxavam, me levavam para brincar e tudo isso era uma coisa muito curiosa, trazer de volta para aldeia, ensinar meus amiguinhos o “ciranda cirandinha” (risos), “amarelinha”. A partir disso, nunca mais parei de viver nesse mundo. Fiz até o ensino médio, depois magistério, porque tinha gostado dessa função de ensinar coisas diferentes para os meus amigos, e aí queria seguir esse caminho. Depois fiz pedagogia e estou até hoje nessa área também.

Fórum – Como foi para você esse processo de se tornar uma liderança na aldeia? 

Jera – Foi a partir de uma visão que tive do quanto, às vezes, era problemático ter só liderança homem na aldeia. As coisas já tinham mudado bastante principalmente em 2007, 2008, quando eu participava das reuniões e via isso muito forte. Quem falava, quem pensava nas coisas, quem fazia as coisas eram só os homens, não tinha mulher na liderança, nem cacique, nem vice-cacique, nem guardiões… Tudo muito homem. Sendo mulher, sabia de situações que eram ruins para as mulheres, mas que elas tinham um pouco de dificuldade de chegar nos homens, e isso começou a vir forte para mim. Era necessário ter lideranças mulheres também para fazer um pouco essa parte.

A maioria da sociedade indígena tem muita influência da cultura juruá, e uma das influências, por exemplo, é a bebida alcoólica – às vezes é um pai que se torna uma pessoa violenta quando está embriagado, que pode agredir a sua esposa, agredir as crianças. Você sendo mulher e tendo contato com outras mulheres no dia a dia começa a saber de situações ruins, por exemplo, de uma mulher que foi agredida pelo marido, mas não tem meios para chegar na liderança e falar desse problema. Aí eu comecei o movimento de me meter em situações que aconteciam na aldeia, de ir para reunião e denunciar situações: “sabia que fulano de tal fez isso com a esposa?”, “essa família tal tem esse problema com a criança”, “isso também tem que ser pensado, ser conversado”, “isso a gente tem que resolver”. E das poucas palavras que usei nas reuniões gerais, muitas pessoas começaram a me procurar. Muitas com problemas que tinham nas casas, outras que viam minha condição de falar e achavam que eu podia também ajudar em algumas situações que vinham do mundo do juruá, como documentos, correr atrás disso ou daquilo etc.

Comecei a ser procurada por muitas pessoas, e via as lideranças homens não darem mais conta das coisas todas que tinham que ser feitas, porque, no natural, as aldeias guaranis são pequenas, e quando tem um número maior de famílias em um território só, a tendência é se separarem, se diluírem, e isso deixa equilibrada a situação. Estávamos em uma realidade de viver em uma aldeia muito pequena com muita gente, e isso trazia um descontrole social. O cacique não dava mais conta de oitocentas pessoas com diversos problemas.

Em 2008, levei para comunidade uma ideia oficial. Primeiro, para os homens da liderança; por ter me metido em situações diversas, estavam me chamando para participar das reuniões, me pedindo opinião: “o que você acha?”. A partir desse “o que você acha?”, levei uma opinião de que talvez, com o número de pessoas que tinha na aldeia tão pequena, com tantos problemas, a gente tinha que pensar em uma dinâmica diferente de atuação de liderança. “Pode-se criar um conselho, pode ter cacique, vice-cacique, mais cabeças para pensarem nisso junto e mais do que cabeça, ter braço, ter ações que irão fazer melhor para todo mundo, porque duas pessoas não dão mais conta disso”, disse. Foi aí que um dos mais velhos da liderança me chamou e falou: “a gente gostou da sua ideia e isso pode acontecer, mas como foi você que teve a ideia, você tem que fazer parte dessa ideia efetivamente”. Aí eu topei.

Em 2008, foi constituído o conselho guarani. Desde então, quase todas as aldeias têm esse tal de conselho (risos), mas nenhuma outra aldeia é tão numerosa quanto essa em relação à ação feminina. Ainda em 2008, eu atirava com os homens para lá e para cá (risos) e aí tiveram muitas críticas também das próprias mulheres: “Como assim uma mulher fica andando com os nossos maridos para lá e para cá?”. Os próprios homens faziam um cordão de proteção de falar da importância do meu trabalho, que eu estava ajudando… E eu ia mantendo um respeito, coisas simples, como, por exemplo, não me envolver com nenhum homem do grupo de liderança. Isso trouxe uma confiança também das mulheres casadas, das esposas dessas pessoas do conselho, de que poderiam confiar em mim. Em muitas aldeias que já visitei aqui em São Paulo mesmo, no Rio Grande do Sul, os homens ficam impressionados por ver uma mulher Guarani na liderança, falando das coisas.

Fórum – Por parte dos homens, já sentiu algum tipo de obstáculo quando você começou a se envolver mais com essas esferas de lideranças?

Jera – De alguns, sim. Principalmente desses que eu enfrentava. Você comete algumas situações que quebram as regras, por exemplo, [denunciar] violência contra a mulher, injustiça contra a mulher, contra a criança. Vou e falo no meio de todo mundo, ou chamo a pessoa e falo concretamente sobre o meu ponto de vista. Às vezes, de sair de forma inconsequente na defesa das mulheres e crianças, enfrento homens mais violentos, ameaço também. Falo para ele: “Você dá conta talvez de uma mulher, mas se juntar todas as mulheres da aldeia, você não valerá nada, então ‘se liga’” (risos). Às vezes eles também se unem para tentar nos enfraquecer, inventam histórias ou às vezes mentem descaradamente, falam de situações que eu não fiz, mas a minha sorte é que, de todas as lideranças homens, a grande maioria é mais sensível em relação ao quanto a entrada das mulheres no conselho facilitou a vida de todo mundo. Então, imagine, um cacique para atender toda a demanda da aldeia, toda a demanda que vem de fora, para elaborar situações de apoio para todos. De repente tem o conselho, homens, mulheres, jovens que ajudam a pensar e atuar em pontos diferentes ao mesmo tempo. Isso facilita muito.

(Foto: Reprodução/Youtube)
(Foto: Reprodução/Youtube)

Fórum – Você acha que sua atuação uniu um pouco mais as mulheres da aldeia? 

Jera – Sim, a minha atuação desde o início trouxe uma força maior feminina na aldeia. Sou mulher, e a outra mulher tem um caminho mais fácil para chegar em mim. [Tem a questão da] confiança, de poder falar mais abertamente. Dessas falas, você resolve o problema, e isso trouxe uma confiança. Hoje a gente tem esse trabalho já bem mostrado, que foi uma das minhas atuações, a partir do momento que eu entrei no Conselho, falar em todas as reuniões: “As mulheres podem entrar também no Conselho, podem entrar mais pessoas, homens, mas tentar focar um pouco nas mulheres”. Comecei a atuar para, de repente, trabalhar a questão da mulher na aldeia, trabalhar a questão da criança na aldeia e às vezes para os homens é difícil lidar com isso. Mulher com mulher se entende mais, e hoje a gente tem uma união bem forte das mulheres que atuam como liderança.

Fórum – Ao defender e representar sua aldeia, já enfrentou algum tipo de dificuldade por ser mulher?

Jera – Até hoje, não. Enfrentei mais aqui dentro, mesmo, do que fora. Lá fora a gente é especial. “Olha, mulher liderança indígena” (risos), porque não é uma coisa muito comum, né? Então a gente é sempre bem recebida, as pessoas elogiam bastante, principalmente as próprias mulheres juruá que vêm me dar força e incentivo, gostam dessa situação.

Fórum – Você se considera uma mulher feminista? No contexto da sua cultura, é possível dizer o que é feminismo? 

Jera – O feminismo, acho que posso traduzir bem dentro da linguagem da minha própria cultura: as mulheres nascerem e ensinarem aos homens que tudo o que elas fazem eles podem fazer também, sem entrar em desequilíbrio. Meu pai sempre cozinhou, sempre limpou, sempre lavou louça, cuidava da gente. As mulheres na aldeia, quando estão menstruadas, têm que ficar quietinhas, a gente não pode fazer comida, não pode fumar cachimbo para dar pros homens. Temos que ter o nosso espacinho, isso é muito bom. Quando a mulher tem essas paradas de “tpm” ficam bravas, nervosas, choronas, e aqui, quando você está menstruada, pode ficar em um cantinho, é maravilhoso. Na cultura Guarani tem isso, quando a mulher está nesses dias, o homem tem que fazer tudo o que ela faz: alimentar os filhos, dar banho, acender fogo, cozinhar, lavar, varrer. Então, considero que o mundo Guarani tinha essa coisa muito equilibrada, principalmente quanto à minha lembrança de criança. E aí do outro lado, a mulher também tem que se reconhecer nesse papel equilibrado, de que ela é mulher, mas o homem nunca pode propor que ela seja diferente dele nesses aspectos de que ele pode mais e ela menos.

Fórum – As atividades que as mulheres desempenham aqui na aldeia têm valor equivalente às dos homens?

Jera – Na maioria das vezes é equivalente. Se o homem pode caçar, coletar lenha, roçar, carpir, plantar, a mulher pode fazer tudo isso. Por sua vez, a mulher pode cozinhar, limpar, lavar roupa, dar banho nos filhos, pode alimentar, e o homem também pode fazer tudo isso. Para mim, fica equilibrado. E aí tem algumas outras situações que é questão de força física mesmo, que o homem faz e que a mulher não consegue fazer, como, por exemplo, carregar as madeiras grandes para fazer as casas. Mas se tem uma necessidade, por exemplo, a nossa aldeia é invadida e todos os homens estão mortos, a gente foge para o mato e aí só tem mulher, a gente com certeza conseguiria cortar madeira e aí todas juntas carregar a madeira para fazer as casas. Quando não é isso, essa parte requer mais “força física” e o homem vai e faz, até por gentileza deles mesmo, porque eles também poderiam falar: “vamos todas as mulheres, a gente corta e elas carregam” (risos), mas eles vão, cortam e carregam e a mulher, por sua vez, faz outros tipos de trabalho, fica atenta para ajudar, dar água, levar comida, pegar madeiras menores para fazer a parede das casas. Mas tem algumas outras coisas sutis que só a mulher pode fazer e algumas que só homem pode fazer, como algumas sementes que é muito melhor a mulher plantar pela sua delicadeza do que o homem. É muito mais difícil o homem pegar as sementinhas e cantar para elas, às vezes eles não têm muita paciência, e a mulher tem essa delicadeza mais natural.

Fórum – Você ou as mulheres daqui, como liderança, se relacionam como líderes? Você vê alguma semelhança entre as mulheres indígenas e as mulheres negras, por exemplo? Há essa troca?

Jera – Falo bastante na aldeia, por exemplo, das feministas na cidade que lutam pelos direitos iguais, e sempre falo bastante das coisas que vejo no movimento nas cidades, tentando fortalecer a ação da mulher e o reconhecimento das mulheres no seu valor. Nos grupos de mulheres que temos aqui na aldeia, a gente falou esses dias bastante com uma menina: “Você é separada, tem os seus filhinhos, mas você tem que continuar com a sua dignidade, não pode ficar só com o sentimento de inferioridade, não deixar os homens te verem como objeto, tem que se manter íntegra. Você continua uma pessoa que vai sentir dor, mágoa, vai chorar, mas do outro lado você continua uma mulher forte, pode continuar fazendo outras coisas. O fato de você se separar não torna você inferior”. Falamos bastante dessa questão, mas até hoje não tenho uma experiência de trabalhar ou ter contato mais forte com o movimento feminista.

Nesse grupo, tem uma pessoa que é mais senhora, as outras estão em seus trinta, quarenta anos, todas têm filhos e a maioria delas foi abandonada pelos seus maridos, por outras mulheres. Isso causa um transtorno, independentemente da etnia da mulher. Acha-se feia, horrorosa e aí ficam com a autoestima muito baixa. Elas sofrem bastante, e aí às vezes sofrem muita crítica da própria mulher, porque ela se torna uma “ameaça” para as casadas. Muitas vezes as mulheres precisam se apoiar mais, às vezes os homens já vêm com essa situação de objeto [objetificação], e se a outra mulher também não apoia, então isso se torna um pouco mais grave.

Fórum – O que é ser uma mulher Guarani para você? E você, como líder, o que quer deixar de legado e concluir como liderança?

Jera – Para mim, mulher Guarani, na aldeia, ser liderança hoje significa muitas coisas. Uma delas é um novo ritmo de realidade em uma comunidade tão cheia de homens no comando. Isso significa poder ajudar mais as mulheres da aldeia, as crianças da aldeia, poder dar um pouco mais de atenção para o que passa despercebido no mundo da mulher em vários aspectos. Eu queria muito continuar trabalhando, com o objetivo de que isso possa ter continuidade e que outras mulheres possam atuar mais nessa equipe de homens na aldeia. Que elas possam se proteger e possam proteger outras mulheres no futuro. Que para o futuro esse “equilíbrio” possa ser mais aprimorado – talvez não só nos dias de menstruação os homens cozinhem para as mulheres, mas que mesmo quando não estão menstruadas eles possam fazer uma comida gostosa e oferecer.



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