Na USP, professor defende tese de que negros africanos tem QI menor que europeus

Utilizando um artigo considerado ultrapassado e falando em inglês para dificultar a compreensão, um professor da pós-graduação da USP deu uma aula racista nessa semana, mas foi surpreendido pela presença de estudantes do coletivo Ocupação Preta; "Shut up", dizia o docente quando alunos e...

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Utilizando um artigo considerado ultrapassado e falando em inglês para dificultar a compreensão, um professor da pós-graduação da USP deu uma aula racista nessa semana, mas foi surpreendido pela presença de estudantes do coletivo Ocupação Preta; “Shut up”, dizia o docente quando alunos e alunas negras tentavam intervir 

Por Ivan Longo 

Se fosse no começo do século XX, o episódio ainda seria aceito sem maiores problemas. Mas, por ter acontecido em pleno ano de 2015, a anacrônica aula do professor britânico Peter Lees Pearson, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), não passou despercebida. Na última quarta-feira (22), Pearson ministrou  aula para uma turma de pós-graduação e sua tese conotou conceitos extremamente ultrapassados e racistas. 

Usando como base o artigo “James Watson’s mostly inconvenient truth: Race realism and moralistic fallacy”, de autoria de J. Philippe Rushton e Arthur R. Jensen, o professor começou a explicar, “cientificamente”, como testes de QI “comprovavam” que os negros africanos têm uma capacidade cognitiva menor que europeus ou asiáticos, por exemplo. 

Se o Ocupação Preta –  coletivo de alunos e alunas negras da USP que luta pela ampliação da presença negra na universidade – não estivesse presente, a possibilidade de haver qualquer tipo de confronto com as ideias do professor seria praticamente nula. Além de propor uma discussão “conjunta” para uma turma com 19 pessoas brancas e apenas 1 negro, o docente não apresentou qualquer outro autor que fizesse um contraponto às teses que apresentava.

Essas teses, porém, já foram rechaçadas pela Academia inúmeras vezes. Watson foi, inclusive, exonerado de seu cargo de conselheiro no Spring Harbor Laboratory (CSHL) em Nova Iorque em virtude de suas afirmações sobre a inferioridade cognitiva de pessoas negras.

“Entendemos que era necessária a ocupação dessa aula primeiramente porque quase todos(as) estudantes matriculados eram brancos(as). Dentre 20 pós-graduandos(as) presentes, apenas um era negro. Este fato por si só já choca e evidencia o caráter elitista e racista da USP e dos cursos ministrados nela. Há um número irrisório de negros e negras nas salas de graduação e pós-graduação da tão reconhecida Universidade de São Paulo”, afirmaram alunas que fazem parte do coletivo. 

E assim o fizeram. Aos poucos, dezenas de negros, ao ficarem sabendo da aula que estava sendo dada, começaram a ocupar a sala para fazer o contraponto aos conceitos racistas que estavam sendo levantados por Pearson. Muitos começaram a intervir e expressar sua opinião, mas o debate não fluía pois o professor, de acordo com os estudantes, adotava uma postura ainda mais elitista que sua própria aula: ele só se comunicava em inglês.

“Quem não sabe falar em inglês, que fique sem se expressar”, chegou a afirmar. Em diversos momentos, de acordo com membros do coletivo, o professor ainda fazia escárnio dos alunos e alunas “extras” na sala de aula e muitas vezes chegava a – literalmente – mandá-los calar a boca, com um clássico “shut up”.

“O mais chocante certamente foi a posição do professor: impediu diversas vezes que mulheres pretas falassem, mandou os negros calarem a boca – literalmente! – incontáveis vezes, insistiu que não éramos capazes de compreender, ora pela língua, ora pela ciência. Constrangeu os próprios alunos os obrigando a se manterem na posição que ele escolhia. Além disso riu, fez escárnio e ironias várias vezes. É uma postura inaceitável, porque a posição clara de poder que ele ocupa diante dos alunos não deveria ser permissão para atitudes abusivas. Mas foi o que aconteceu”, explicaram os membros do grupo, que optaram por responder coletivamente aos questionamentos da Fórum

De acordo com o Ocupação Preta, a ideia de entrar na sala de aula era a de firmar a presença negra na universidade e trazer à tona algumas perguntas, como: “Por que, em 2015, ainda é necessário dispensar esforços para combater tal artigo que expressa tão obviamente o racismo, quando poderíamos, nas mais variadas áreas, estar refletindo sobre assuntos produtivos à comunidade paulista que sustenta a Universidade de São Paulo?”; “Qual o significado político de uma discussão de tal artigo dentro de uma universidade composta por uma maioria branca elitizada?”; “É possível discutir se o artigo é racista ou não sem a presença dos sujeitos vítimas do racismo, no caso os negros?”. 

E é por meio desse tipo de questionamento e da ocupação, firmando a presença negra na universidade, que os alunos e alunas que compõem  o coletivo pretendem mudar a realidade “branca” e “elitista” da Universidade de São Paulo.

Procurado para se posicionar quanto às declarações dos estudantes, o professor Pearson não deu retorno até a publicação desta matéria.

Confira a íntegra da nota do grupo Ocupação Preta.

Nota de Repúdio ao Racismo Pseudocientífico Defendido na USP

Ontem a Ocupação Preta esteve presente em uma aula da pós-graduação do Instituto de Biociências da USP. O propósito da aula era debater o artigo “James Watson’s mostly inconvenient truth: Race realism and moralistic fallacy”, de autoria de J. Philippe Rushton e Arthur R. Jensen, indicado pelo professor para “discussão em conjunto”.Entendemos que era necessária a ocupação dessa aula primeiramente porque quase todos(as) estudantes matriculados eram brancos(as). Dentre 20 pós graduandos(as) presentes, apenas um era negro. Este fato por si só já choca e evidencia o caráter elitista e racista da USP e dos cursos ministrados nela. Há um número irrisório de negros e negras nas salas de graduação e pós graduação da tão reconhecida Universidade de São Paulo.

Mais do que esta triste realidade uspiana (a inexistência de representatividade negra nas salas de aula), o que também nos motivou a fazer a intervenção na aula do Professor Peter Lees Pearson foi o conteúdo extremamente racista e ofensivo do material proposto. O artigo propõe análises comparativas de QI entre populações africanas, européias e asiáticas, sugerindo uma inferioridade intelectual do povo africano com base em estudos de James Watson. Os estudos de Watson foram rechaçados pela academia por serem baseados em estudos de cefalometria (herdeira cientifica da frenologia, um ramo pseudocientífico que serviu de base pra diversas atrocidades no meio médico e sobretudo psiquiátrico-manicomial) e análises de aplicações de testes de QI sem análises psicossociais. Watson foi inclusive exonerado de seu cargo de conselheiro no Spring Harbor Laboratory (CSHL) em Nova Iorque em virtude de suas afirmações sobre a inferioridade cognitiva de pessoas negras.Compreendemos que a escolha do artigo feita pelo professor foi infeliz, pois o texto apresenta racismo puro, explícito e além de não trazer dados concretos, foi apresentado sem autores(as) que fazem críticas a ele, endossando ainda mais o racismo de forma determinista. O desconforto a qualquer leitor(a) que respeite a dignidade humana é assegurado!

O ataque ao povo africano e à sua descendência é bastante claro. E esse ataque não passou despercebido desta vez. Contestamos, nos manifestamos contrários a escolha do artigo e fomos enegrecer a discussão com nossos posicionamento de negras e negros que somos, estudantes das mais diversas áreas da universidade que sentem o racismo todos os dias, resistindo e combatendo com muita força. O que nos surpreendeu foi a postura extremamente racista do professor que defendeu subjetivamente o texto e que não valorizava o diálogo, diversas vezes batendo palmas em cima da falas dos estudantes negros, dizendo “Shut up!” e se recusando a fazer a discussão em português, mesmo sabendo que havia estudantes que não entendiam inglês e por isso, não podiam se defender. O professor começou uma discussão sobre um artigo que ressaltava e queria provar a inferioridade intelectual negra, acusando as “pessoas extras” que estavam presentes de “não saberem ciência”.

A Ocupação Preta repudia esse tipo de método de aula, nas quais há a defesa de textos ultrapassados que remetem a pensamentos eugenistas.Repudiamos ainda a inflexibilidade da Universidade (em todos os níveis) em refletir assuntos que dizem respeito ao povo negro com os próprios sujeitos negros que se apresentam para discutir.Seguiremos resistindo e lutando para transformar e enegrecer a Universidade de São Paulo e todos os outros espaços que julgarmos necessários. E que a cada dia juntem-se a nós mais e mais pessoas negras que estudam na universidade se apoderando e ocupando espaços a nós historicamente negados.Queremos uma USP com menos “racist classes” e com mais cotas raciais que insiram a comunidade negra para transformar e guiar o conhecimento científico.

Dentro e fora da Universidade, RACISTAS NÃO PASSARÃO!

Foto: Jornalistas Livres 


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