Quem é quem na disputa pela Casa Branca

Enquanto Hillary Clinton ainda não tem grandes rivais na indicação do Partido Democrata, republicanos se equilibram entre a pregação conservadora do Tea Party e os valores clássicos do liberalismo econômico para voltarem a comandar o Executivo

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Enquanto Hillary Clinton ainda não tem grandes rivais na indicação do Partido Democrata, republicanos se equilibram entre a pregação conservadora do Tea Party e os valores clássicos do liberalismo econômico para voltarem a comandar o Executivo

Por Vinicius Gomes

Desde que a série House of Cards estreou no Netflix, contando a história da ascensão de um congressista norte-americano e o jogo sujo dos corredores do poder em Washington, D.C., arrebatou corações e conquistou milhões de fãs. Enquanto eles aguardam ansiosamente pela quarta temporada, o mundo já pode visualizar a configuração do que será a verdadeira disputa pela presidência dos EUA nas eleições em 2016. Um filme que sempre tem uma boa carga dramática a cada disputa, e cujo desenrolar do enredo prende a atenção dos espectadores locais e de boa parte do planeta também.

Na última semana, Hillary Clinton anunciou que fará parte da corrida presidencial. Ela é a primeira a oficializar sua candidatura pelo Partido Democrata e ao longo dos próximos meses “colocará o pé na estrada” – como afirma o vídeo anunciando sua candidatura – para receber o apoio de seus eleitores e conseguir a nomeação de seu partido para a disputa presidencial. No vídeo-pronunciamento de Hillary, vemos norte-americanos comuns da classe trabalhadora, de todas as cores, todas etnias, todos os credos e diferentes orientações sexuais se preparando para dar um novo passo em suas vidas. São homens de mãos dadas planejando o casamento, uma jovem asiática em busca de seu primeiro emprego, um casal negro prestes a se tornar pai e mãe, houve até mesmo um momento em que foi necessário colocar legendas, quando dois irmãos disseram estar começando seu novo negócio… em espanhol. Há ainda o curioso fato de a própria ex-primeira-dama e ex-senadora de Nova Iorque demorar a aparecer no vídeo. Nos dois minutos e meio do anúncio, ela surge só nos sessenta segundos finais.

Há diversas motivações para que esta peça tenha tido este formato final. O que talvez salte aos olhos seja desfazer a imagem de arrogância passada na última disputa para definir o candidato dos democratas, quando muitos entenderam que Hillary, favorita absoluta no  começo do duelo, acabou menosprezando o então senador de Illinois Barack Obama. “Estou na corrida e estou para ganhar”, anunciava em seu site à época em que definiu sua pré-candidatura em 2007. Mas também há outras razões para o formato da peça de lançamento que apontam para os rumos que a campanha, hoje ainda mais favorita do que àquela época, deve tomar.

De acordo com Solange Reis, pesquisadora do Instituto Nacional de Estudos dos Estados Unidos (iNEU) e coordenadora do Observatório Político dos Estados Unidos (Opeu), isso é feito propositalmente transformar uma forte candidata à presidência do país em coadjuvante, sublinhando que a peça da campanha não tem a ver com ela, e sim com as pessoas. “Após uma enxurrada de imagens de pessoas comuns, Hillary mostra-se ‘gente como a gente’ e coloca no mesmo patamar de importância e prontidão educar um filho, trabalhar na fábrica ou ser presidente dos Estados Unidos”, argumenta Reis. Segundo Luis Jiménez, professor-assistente de Ciências Políticas na Universidade de Massachussets Boston, a peça sinaliza parte da mensagem política de Hillary, de que lutará pela classe trabalhadora e que apoia o casamento homossexual. “A coalizão democrata já vem incluindo as minorias e as mulheres há um bom tempo – especialmente desde [Barack] Obama. A propaganda de Hillary dialoga com isso”, explica Jiménez.

“Não há, dentro partido, alternativas que possam disputar essa liderança como foi Obama anteriormente”, sugere Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) da Unesp, que aponta outra vantagem para a ex-primeira-dama: depois do primeiro presidente negro na história do país, existe a possibilidade de se eleger a primeira presidente mulher. “Isso dá a ela uma popularidade grande”, afirma, “ainda maior que a dos candidatos do Partido Republicano”. De fato, enquanto Hillary figura, até o momento, como candidata única e favorita nas primárias democratas, o outro lado ainda assistirá longas “batalhas” internas pela nomeação.

O Partido Republicano já conta com três candidatos: Rand Paul, senador pelo Kentucky, Ted Cruz, senador pelo Texas e Marco Rubio, senador pela Flórida. Outro nome ainda não oficial, mas praticamente dado com certo é Jeb Bush, ex-governador da Flórida e irmão mais novo de George W. Bush; sendo o último, por mais que seu sobrenome possa sugerir o contrário, o mais moderado politicamente entre os quatro.

Na visão de Ariel Finguerut, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professor de Relações Internacionais do Senac, dentro do espectro direitista que geralmente caracteriza os republicanos, Jeb Bush é o mais centrista e quem melhor dialoga com o chamado “establishment republicano”, ao passo que Ted Cruz, Marco Rubio e Rand Paul são mais conservadores e alinhados em maior ou menor grau ao Tea Party, a ala ultra-radical do Partido Republicano que, em 2013, quase desencadeou uma nova crise econômica global ao forçar o Congresso a impedir que a Casa Branca, capitaneada por Barack Obama, pagasse suas próprias contas, correndo o risco de pedir uma moratória.

“Ted Cruz é um político bem formado e bem preparado – de certa forma sua trajetória foi planejada desde cedo para eventualmente chegar até a Casa Branca”, afirma Finguerut. “Ele gosta de se espelhar em Ronald Reagan como um nome capaz de liderar e com convicções conservadoras”. De fato, “convicções conservadoras” é o que não faltam a Cruz, levando-se em conta suas declarações polêmicas como a de que “os grupos gays estão travando uma jihad contra os cristãos”. “Marco Rubio segue um perfil mais de conservadorismo com compaixão”, continua Finguerut. Algo que, para o professor, deu certo com George W. Bush em 2000. “Seu apelo ao eleitorado latino pode ser fundamental para os republicanos voltarem a Casa Branca”. Ambos são, inclusive, filhos de imigrantes cubanos.

Já Rand Paul é classificado como uma espécie de “político relutante”, ou um “outsider”. Ao contrário de seus concorrentes republicanos – assim como de Hillary –, Paul é singular por ser contrário à política externa intervencionista dos EUA e é um dos maiores defensores de Edward Snowden. Isso se deve ao fato de ele também fazer parte da “ala libertária” do partido, aquela que posiciona os artigos definidos pela Constituição dos EUA como direitos inalienáveis dos cidadãos norte-americanos e que não podem estar sujeitos ao capricho dos governantes – como foi o caso de invasão de privacidade pelos programas da NSA. “Rand Paul fará muito barulho e certamente será competitivo nas primárias Republicanas”, diz Finguerut.

Assim como em House of Cards, apenas no ano que vem saberemos qual será o destino dos EUA e, por consequência, de boa parte do embate geopolítico no mundo. Porém, as apostas já estão sendo feitas.

Enfim chegou a hora da Hillary?

Em 2007, começava o fim do período de George W. Bush na Casa Branca. Depois de oito anos, o segundo Bush a ocupar o Salão Oval deixava como legado duas guerras sangrentas e sem fim à vista, o início daquela que viria a ser a pior crise econômica global desde 1929 e um país desacreditado perante a opinião pública mundial. Os republicanos pareciam ser a encarnação do mal na Terra e só havia uma esperança para voltar a liderar a maior potência econômica e militar do planeta.

Hillary Rodham Clinton tinha o sobrenome certo, era senadora por Nova York e, provavelmente, uma das ex-primeira-damas mais famosas na história estadunidense. Sua candidatura como a escolha democrata após os anos sombrios dos EUA sob W. Bush e o Partido Republicano parecia ser o caminho mais natural a ser trilhado, mas em seu caminho havia Barack Hussein Obama, o advogado negro, com nome e sobrenome árabe, que havia sido o único congressista a votar contra a invasão do Iraque em 2003. O resto da história, todos nós sabemos qual foi.

Oito anos depois de perder as primárias mais disputadas dos últimos 40 anos, o anúncio da candidatura presidencial de Hillary Clinton não pegou absolutamente ninguém de surpresa. Todavia, as palavras “I’m running for president” possuem uma sonoridade implacável que, aliada à sua figura, praticamente torna sua escolha como representante dos democratas para 2016 algo inevitável.

Será?

Como dito acima, um dos principais erros de Hillary em 2007 – ano das primárias – apontado por especialistas e analistas políticos, foi se deixar levar pelo favoritismo e entrar no clima de “já ganhou”. “A imagem de uma candidata favorita favorece e dá espaço para candidaturas mais outsiders – como era Obama no começo – e esses candidatos podem despertar e mobilizar o eleitorado numa velocidade que acaba derrubando o candidato supostamente favorito”, explica Finguerut. Por essa razão, o professor também enxerga a ex-primeira-dama como uma figura mais cautelosa atualmente, trabalhando simultaneamente com a ideia que sua nomeação é inevitável, mas sem favoritismo: “O fato dela lançar sua campanha através de um vídeo e não com num grande comício sinaliza para essa cautela”.

(Foto: Flickr/Brett Weinstein)
Hillary Clinton é favorita a vencer a nomeação democrata (Foto: Flickr/Brett Weinstein)

Porém, apesar de um fenômeno carismático como Obama não surgir frequentemente em política – e tampouco exista tal expectativa para esse ano, diversos adversários democratas despontam no horizonte de Hillary.

O primeiro nome a ser cotado é o do atual vice-presidente Joe Biden, mas, ao mesmo tempo, este é o mais improvável. Outros dois nomes bem cotados são Martin O’Malley e Lincoln Chafee. O primeiro é o ex-governador do estado de Maryland e o último, ex-governador e ex-senador de Rhode Island. Correndo por fora estariam Jim Webb, ex-senador pela Virgínia, e Bernie Sanders, atual senador por Vermont. Outra possibilidade, e aquela que parece ter o maior potencial para ser um desafio à Hillary, é o nome de outra mulher: Elizabeth Warren, senadora por Massachussets e um dos nomes mais à esquerda do partido.

Webb, no entanto, tem se mostrado uma incógnita, sendo muito lento para se organizar para eventos com fins de financiamento de campanha ou propaganda política. O mesmo acontece com o candidato “natural”, o atual vice-presidente. Apesar de Biden ter concorrido à presidência duas vezes no passado, não existe qualquer indicação de operação política para sua candidatura.

O que talvez pese para qualquer um que se proponha a desafiar Hillary, será o quanto eles conseguiriam se distinguir da virtual nomeada em uma série de políticas, principalmente correndo para a “esquerda” da base eleitoral democrata. Nesse quesito, Chafee, Sanders e, principalmente Warren, teriam mais sucesso.

O nome de Chafee emergiu apenas nas últimas semanas, mas ele é visto como uma espécie de “coringa”, alternando-se de uma postura de republicano para independente, e depois para democrata, e provavelmente não empolgará a base progressista. Sanders se autointitula um “socialista”. Ele tem aparecido em programas de televisão e cruzado o país, principalmente em estados-chave como Iowa e New Hampshire, pregando contra bilionários. Porém, parece que nem mesmo os mais progressistas têm acreditado muito nas chances do senador, principalmente depois que ele cogitou não concorrer às primárias. A principal esperança do campo progressista residiria em Warren, que, por sua vez, repete insistentemente que não irá concorrer, mesmo com campanhas organizadas por diferentes grupos políticos insistindo que ela o faça.

Assim sendo, tudo parece apontar para O’Malley como o candidato mais viável no momento. Ele, inclusive, tem se mostrado o mais pró-ativo na questão, realizando campanha em Iowa, o primeiro local onde ocorre a pré-campanha pela nomeação, e o mais “agressivo” em seus ataques a Clinton. Recentemente, afirmou que a presidência não deveria ser “uma coroa passada entre duas famílias”, referindo-se, obviamente, aos Clinton e aos Bush. Além disso, com vistas a agregar a base eleitoral “desiludida” de Warren, ele tem se posicionado diretamente contra a desigualdade econômica e aumentado seus ataques a Wall Street – uma área em que a senadora está em desvantagem, na visão dos progressistas.

De qualquer maneira, a candidatura nas primárias também serve como uma alavanca importante nas carreiras políticas, com congressistas entrando mesmo sabendo que irão perder. “Certamente haverá postulantes”, diz Ayerbe sobre a indicação do Partido Democrata. E mesmo com todo o favoritismo de Hillary, é altamente improvável a chance de o partido nomeá-la sem contar com as primárias. “Mesmo que ela seja a favorita e não apareçam desafiantes sérios, as primárias servem para mobilizar a base liberal e preparar a campanha para a eleição presidencial”, explica Finguerut. Uma pesquisa nacional realizada pelo Bloomberg Politics, revelou que 72% dos eleitores declaradamente democratas ou independentes, disseram que seriam bom para a atual favorita enfrentar um adversário “sério” nas primárias.

Assim como não seria bom para a campanha de Hillary entrar sem “esforço” na disputa com os republicanos, a pesquisadora Reis também aponta outra desvantagem para uma hipotética ausência de primarias. “Uma longa campanha democrata centrada apenas em uma figura tão conhecida seria monótona, enquanto os republicanos dariam à mídia um espetáculo animado”, aponta. E de espetáculo animado para a mídia, os republicanos são realmente especialistas.

Republicanos: entre o Tea Party e mais um Bush…

(Foto: Gage Skidmore)
Jeb Bush é o nome mais certo para concorrer às primárias republicanas (Foto: Gage Skidmore)

Em outubro de 2013, para deixar patente seu descontentamento com o Affordable Care Act (popularmente chamado de Obamacare), cujo objetivo era fornecer plano assistencial para mais de 30 milhões de norte-americanos que não tinham nenhum tipo de seguro de saúde para o atendimento médico, o ultra-conservador Tea Party afirmou que tais medidas eram “socializantes, no caminho da adoção do comunismo”. O que dá uma dimensão de como se comporta o vistoso grupo político.

O Tea Party veio a ficar ainda mais notável quando, naquele mesmo mês de 2013, praticamente paralisou o governo norte-americano com o famoso shutdown, ocasião em que a Casa Branca ficou impedida pelo Congresso de pagar suas contas, desencadeado por aquilo que Finguerut classificou como “a retórica anti-Obama”, concentrada principalmente na ideia de derrotar o Obamacare. À época, o linguista norte-americano Noam Chomsky afirmou que os republicanos haviam ido tão longe para a direita que simplesmente não conseguiam mais votos, sendo compelidos a mobilizar uma base de eleitores com elementos que sempre estiveram ali, mas eram uma espécie marginalizada do sistema político, como os extremistas religiosos, por exemplo. “Mas isso, partindo da presunção de que eles seriam controláveis”, ponderou o intelectual. Por isso, uma das grandes questões desde então é o quanto o Tea Party teria influência na “moldagem” do candidato republicano.

Na opinião de Jiménez, a ala será crucial na nomeação. “Existem diversas políticas que seria impossível [um candidato] defender e ainda esperar ser nomeado”. Sendo assim, o Tea Party fará o máximo para forçar que os candidatos permaneçam alinhados à ala em bandeiras como a saúde – privada, obviamente –, da imigração, na questão das armas, no papel do Estado para com os mais pobres e na questão dos impostos para os mais ricos. Todavia, como define Reis, o Tea Party é uma faca de dois gumes para os republicanos: “Não há como ignorá-lo, mas levá-lo demasiadamente em conta pode significar derrota.” Por isso, de um ponto de vista eleitoral, o radicalismo do grupo pode tornar o candidato escolhido para enfrentar os democratas pela presidência refém do fundamentalismo. “A questão é que um discurso muito conservador pode trazer problemas para o candidato republicano”, argumenta Ayerbe. Segundo o professor, o desafio dos candidatos ligados ao Tea Party é se tornar competitivo criando um discurso mais coerente, que seja eleitoralmente viável, junto às bandeiras conservadoras da ala.

Os três candidatos oficiais, Ted Cruz, Rand Paul e Marco Rubio, podem ser considerados, em determinados pontos, como afinados ao Tea Party. No caso de Paul, tal afinidade é maior do ponto de vista econômico, mas ele não é totalmente conservador do ponto de vista moral, como é o caso de Cruz e Rubio, que teriam como desafio evitar a fuga de votos de eleitores moderados, por conta dessa evidente ligação. Há também o discurso mais libertário, que entende o governo como um problema e que, portanto, deve ser limitado ao máximo. “Nesses pontos Ted Cruz e Rand Paul são 100% Tea Party”, avalia Finguerut.

Sendo assim, para Ayerbe, Bush é quem tem mais vantagem na corrida republicana. “Eleitoralmente, seria alguém com muito mais chances que os outros três”. Por outro lado, aponta Reis, seu maior desafio de Bush, sendo o único que não possui evidentes ligações com o Tea Party – e por ser mais moderado em abertura a direitos civis –, é manter-se suficientemente perto e longe ao mesmo tempo. “Encontrar a linha tênue entre conservadorismo e progressismo é seu desafio para não perder votos de republicanos menos conservadores, ou mesmo para conquistar indecisos que rejeitam Hillary Clinton”, explica Reis.

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o Tea Party é uma faca de dois gumes para os republicanos: “Não há como ignorá-lo, mas levá-lo demasiadamente em conta pode significar derrota”, define Reis (Foto: Transconflict.com)

Para a pesquisadora, há algumas agendas que um republicano não tem como evitar defender. “Em termos econômicos, os candidatos apresentam variações de discurso em prol de livre mercado, crescimento econômico, Estado mínimo, controle de gastos, combate ao déficit fiscal, corte de impostos e de benefícios sociais, e geração de empregos”. Portanto, a diferença está na profundidade. “Enquanto Paul é radicalmente contra a participação do Estado na economia, Bush apoia benefícios fiscais para setores produtivos, como o de petróleo e gás, defesa, inovação e tecnologia; quando Rubio advoga por um orçamento de Defesa robusto, ele se diferencia de Cruz no que diz respeito ao tamanho do equilíbrio fiscal”, cita.

A questão da política externa

Segundo Finguerut, uma das regras de ouro do marketing político é que “política externa não dá voto”. Mas seria possível dizer, uma vez definido o candidato republicano e presumindo que os democratas nomeiem Hillary, que um dos pontos mais críticos na briga pelo Salão Oval pode ser a política externa? No que tange a apontar erros na administração Obama, consequentemente atingindo a candidatura democrata, os republicanos têm um prato cheio: Iraque-Síria, Estado Islâmico, Rússia-Ucrânia e até mesmo aquilo que o mundo aponta como sucessos, casos da negociação nuclear com o Irã e a retomada de diálogo com Cuba, que os republicanos taxam como “derrotas”. Existe ainda o fato de que o período de Hillary como secretária de Estado é extremamente criticado, em especial em função de dois episódios: o atentado contra a embaixada dos EUA na Líbia, em 2012, e o uso do e-mail pessoal para a comunicação oficial do Departamento de Estado norte-americano.

Para Ayerbe, a política externa de Obama na reta final de seu mandato está pavimentando um bom caminho para Hillary, notoriamente com os diálogos com Cuba e Irã. “Embora exista uma oposição majoritária no Congresso, suas medidas estão tendo boa repercussão na população”, afirma. “Tenho certeza que a política externa será um grande ponto de discussão, mas duvido muito que isso fará diferença em termos de votos”, afirma Jiménez, que, além de ecoar a “regra de ouro” citada por Finguerut, aponta também que as opiniões sobre Hillary Clinton já estão basicamente formadas. “Assim sendo, não existe muita margem para mudança de opinião sobre ela, não importa qual seja o tópico, mas especialmente no tema da política externa”.

Quanto aos candidatos republicanos, em comum eles têm rejeição ao acordo com o Irã, o antagonismo à Rússia, a elaboração de uma aliança especial com Israel, e o ataque à condução da política de Obama e Hillary Clinton com o resto do mundo como “frouxa e perigosa” para a segurança nacional. Mas há diferenças significativas entre os pré-candidatos nesta área.

Como já mencionado, Rand Paul é aquele que é contra uma política externa intervencionista, podendo ser classificado como isolacionista. “Ou seja, defensor de menor envolvimento do país em questões internacionais, de não submissão às organizações internacionais e da guerra como último recurso de fato”, explica Reis. Paul é crítico à política de assassinatos com o uso de drones e é, possivelmente, o único a se posicionar contra fornecer armas ao governo ucraniano e ao avanço da Otan para o Leste, rumo às fronteiras da Rússia.

Contrário a Paul, Rubio é o mais “falcão”, como são chamados os políticos mais belicistas. “Acreditando na missão internacional messiânica dos Estados Unidos, apoia intervenções no exterior e mudança de regimes estrangeiros para o estabelecimento de instituições à semelhança ocidental. Alianças e alinhamentos a organizações não estão descartados, desde que toda ação seja liderada pelos Estados Unidos”, continua Reis. Por ser filho de imigrantes cubanos, assim como Ted Cruz, seu campo central de atuação em política externa é a América Latina. “Ele é contra os atuais acordos diplomáticos com Cuba e extremamente crítico ao governo da Venezuela. É alguém que na campanha será muito crítico à política externa de Obama e vai tentar ligar Hillary Clinton a isso”, sugere Ayerbe.

Fechando o grupo dos candidatos Tea Party está Ted Cruz, que apesar de não ser alguém com uma posição mais relevante dentro da política interna dos EUA, também possui uma visão maniqueísta do mundo, sendo a favor de intervenções desde que não signifiquem envolvimento de longo prazo em imbróglios domésticos de outros países.

Por sua vez, Jeb Bush ainda não possui um discurso definido, possivelmente pelo fato de ainda não ter se lançado como candidato. Para Ayerbe, no entanto, o terceiro da dinastia Bush possui uma visão mais pragmática e menos ideológica do que seus familiares mais famosos. “Enquanto governador da Flórida ele apoiou uma reforma na saúde no qual o Estado tem um papel”, aponta. Para Reis, Jeb Bush precisa encontrar uma fórmula para antagonizar a política externa de Obama, sem ficar atado à desastrosa gestão de seu irmão. “Com exceção, talvez, de Rand Paul, a plataforma republicana será reformista no sentido de refortalecer o poder de decisão e ação dos Estados Unidos no sistema internacional”.

Então, o que o mundo, e o Brasil, podem esperar desses candidatos?

O que poderia ser uma boa notícia para bilhões de pessoas em todo o planeta, um EUA menos imperialista e menos intervencionista – tendo, por exemplo, Rand Paul como próximo presidente –, certamente não acontecerá. Reis aponta que a cultura política estadunidense não premia presidentes que diminuem o papel do país no mundo. “Seja um presidente democrata ou republicano, haverá tentativa de reformar a imagem dos Estados Unidos como liderança global”, afirma, avaliando ainda que caso um republicano seja eleito, é esperada menor relevância das organizações internacionais no diálogo com o governo.

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Figuerut acredita que, independentemente do partido, o próximo presidente dos EUA será mais conservador ou pelo menos terá uma retórica menos progressista do que a que apareceu nesses anos de Obama (Imgkid.com)

Jiménez enxerga, por exemplo, que uma Hillary Clinton na presidência iria por um caminho similar ao de Obama em assuntos domésticos, como imigração, saúde, impostos e mudança climática, mas seguiria por uma trilha distinta na política externa, especialmente no que tange à flexibilidade de utilizar tropas norte-americanas em outros países. “Hillary Clinton é alguém que dá muita importância à hegemonia dos EUA no mundo, irá buscar uma presença mais afirmativa”, corrobora Ayerbe.

Figuerut acredita que, independentemente do partido, o próximo presidente dos EUA será mais conservador ou pelo menos terá uma retórica menos progressista do que a que apareceu nesses anos de Obama. “Creio que a América Latina, e o Brasil entraria nisso, terá mais importância pelo menos em nível diplomático/ bilateral e a segurança energética seguirá como central. Querendo ou não, a ordem internacional ainda dependera e será afetada pelas decisões e estratégias dos EUA.” Segundo Reis, nesse caso, a ligação de Hillary Clinton e Jed Bush com empresas de energia, e como eles articulariam seus interesses no Brasil, precisam ser vistos com atenção. “Por enquanto, me parece prematuro especular sobre os efeitos das eleições norte-americanas aqui”, pondera.

(Foto de capa: Imgkid.com)



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