Slavoj Žižek: pensata em relação ao populismo

Para filósofo, confrontamos-nos hoje com a enorme pressão do que, sem qualquer vergonha, deveríamos chamar “propaganda inimiga”. É por isso que todas as formas de resistência, do Syriza na Grécia ao Podemos em Espanha, passando pelos ditos “populismos” latino-americanos, devem contar com o nosso...

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Para filósofo, confrontamos-nos hoje com a enorme pressão do que, sem qualquer vergonha, deveríamos chamar “propaganda inimiga”. É por isso que todas as formas de resistência, do Syriza na Grécia ao Podemos em Espanha, passando pelos ditos “populismos” latino-americanos, devem contar com o nosso mais firme apoio

Por Slavoj Žižek, traduzido para espanhol por Óscar Guardiola Rivera e publicado em publico.es a 27 de abril de 2015. Tradução de Carlos Santos para Esquerda.net

Numa entrevista que concedi há pouco tempo, publicada primeiro no México e depois na imprensa latino-americana e espanhola, terei dado uma ideia completamente equivocada sobre a minha posição em relação à recente tendência populista da política radical de esquerda.

Se é certo que a revolução bolivariana na Venezuela pode ser objeto de muitas críticas, algumas delas merecidas, não deveríamos esquecer que também tem sido vítima de uma campanha contrarrevolucionária muito bem orquestrada; em especial de uma longa guerra econômica.

Não se trata de uma tática nova. Há uns anos, no início dos anos setenta, o então assessor de segurança norte-americano Henry Kissinger aconselhou a CIA sobre a melhor maneira de desestabilizar o governo democrático do presidente Salvador Allende no Chile. Depois de uma reunião com Kissinger e o presidente Nixon a 15 de setembro de 1970, o então diretor da CIA Richard Helms escreveu nas suas notas a sucinta instrução recebida deles: “Façam com que a economia chilena grite de dor!”. Altos representantes do governo norte-americano reconheceram que o mesmo procedimento está a ser aplicado na Venezuela.

Há apenas um par de anos, o antigo Secretário de Estado dos Estados Unidos, Lawrence Eagleburger, declarou ao canal de notícias Fox que a relação entre o presidente Hugo Chávez e o povo venezuelano “funcionará somente se a população da Venezuela continuar a ver no seu governo alguma capacidade para melhorar os seus padrões de vida. Se em algum momento a economia começar a ir mal, a popularidade de Chávez começará a decrescer. Estas são as armas que temos contra ele, e que deveríamos estar a usar. Isto é, as ferramentas econômicas para fazer com que a economia venezuelana piore, de maneira a que a influência do chavismo no país e na região caia a pique… Tudo o que possamos fazer para que a economia venezuelana se encontre numa situação difícil está bem feito; mas há que o fazer de maneira tal que não entremos em confrontação direta com a Venezuela, se pudermos”.

O menos que poderá dizer-se sobre afirmações como esta é que dão credibilidade ao argumento de que as dificuldades econômicas que o governo bolivariano enfrenta não são simplesmente o resultado da sua inépcia em matéria de política econômica.

Este é o ponto chave, politicamente falando, que os liberais não podem digerir: com toda a clareza, não estamos a tratar aqui com forças de mercado cegas ou com reações naturais. Digamos por exemplo, com os donos das lojas e supermercados que tentam obter maiores lucros através do açambarcamento, ou que levam os seus produtos para mercados mais favoráveis. Pelo contrário, trata-se de estratégias bem planificadas e muito sofisticadas. Se isto é assim, não se justifica então que o governo use a força legítima – uma espécie de terror, dir-se-ia – como medida defensiva? Por exemplo, que a polícia faça incursões em adegas secretas, ou detenha os açambarcadores e coordenadores da guerra econômica que provoca a escassez. E quando a 9 de março deste ano o presidente Obama emitiu uma ordem executiva declarando a Venezuela uma “ameaça contra a segurança nacional” dos Estados Unidos, não deu luz verde a quem procura “abreviar” o período do presidente Maduro, ou levar a cabo um golpe de estado? Num tom um pouco mais moderado, mais “civilizado”, é o mesmo que está ocorrendo com a Grécia.

Confrontamos-nos hoje com a enorme pressão do que deveríamos chamar, sem qualquer vergonha, “propaganda inimiga”. Segundo Alain Badiou, “o objetivo da propaganda inimiga não é aniquilar a força adversária existente (função que normalmente compete à polícia) mas, pelo contrário, aniquilar uma possibilidade ainda não realizada, nem sequer percebida, na situação atual”. Dito de outra maneira, estão tentando assassinar a esperança. A mensagem que este tipo de propaganda tenta propagar é a convicção resignada de que se este não é o melhor dos mundos possíveis pelo menos é o menos mau, de modo que qualquer tentativa de mudança radical só fará com que as coisas sejam muito piores.

É por isso que todas as formas de resistência, do Syriza na Grécia ao Podemos em Espanha, passando pelos “populismos” latino-americanos, devem contar com o nosso mais firme apoio. Isso não quer dizer abstermo-nos da mais férrea crítica interna quando for caso disso, mas deve tratar-se estritamente de uma crítica interna, de uma crítica entre aliados. Como diria Mao Tsé Tung, este tipo de crítica é própria das “contradições no seio do povo” e não de contradições entre o povo e os seus inimigos.

A reação do establishment europeu à vitória do Syriza na Grécia está a dar lugar, de maneira gradual, a um ideal muito bem resumido no título de uma coluna escrita por Gideon Rachman no “Financial Times” em dezembro do 2014: “O elo mais fraco da Europa são os eleitores”. Por isso num mundo ideal, a Europa deveria desfazer-se do seu “elo mais fraco” e deixar que os peritos assumam o poder para impor de maneira direta a política econômica. Se por acaso as eleições devessem persistir, a sua função seria apenas a de confirmar o consenso dos peritos.

A perspectiva de um resultado eleitoral “equivocado” provoca o pânico entre os membros do establishment: assim que essa possibilidade aparece no horizonte, pintam-nos uma imagem apocalíptica de caos social, pobreza e violência. E como é habitual em tais casos, a grandiloquência ideológica impõe-se: os mercados começam a falar como se fossem pessoas, expressando a sua “preocupação” a respeito do que poderá acontecer se as eleições não tiverem como resultado um governo com mandato suficiente para continuar com os programas de austeridade fiscal e reforma estrutural.

Recentemente, os media alemães caracterizaram o ministro de finanças grego Yanis Varoufakis como um psicopata que vive num mundo diferente do resto de nós. Mas ele é realmente tão radical? O que lhes produz pânico não é tanto o radicalismo de Varoufakis, mas a sua modéstia pragmática e razoável. Por isso, não é surpresa que alguns setores radicais do Syriza já o estejam a acusar de ter capitulado perante a União Europeia. Mas se observarem com cuidado as propostas de Varoufakis, é impossível ignorar que se trata de medidas que há quarenta anos teriam feito parte de qualquer agenda social-democrata. De fato, o programa do governo sueco ou do chileno nos anos sessenta e setenta era bem mais radical. É um sinal da pobreza do nosso tempo, que hoje em dia seja preciso pertencer à esquerda radical para advogar semelhantes medidas. É um sintoma da época obscurantista em que vivemos, mas também uma oportunidade para que a esquerda possa ocupar o lugar que em décadas anteriores foi sendo ocupado pela esquerda pacata e timorata do centro.

Que acontecerá se um governo como o do Syriza ou a inspiração do Podemos fracassarem? Nesse caso sim será certo afirmar que as consequências serão catastróficas não só para a Grécia ou para Espanha, mas para toda a Europa: pois essa eventual derrota dará ainda mais peso à opinião pessimista segundo a qual o trabalho paciente das reformas está condenado a fracassar, e que o reformismo, em vez da revolução, constitui hoje a mais inalcançável de todas as utopias. Em última análise, isso confirmaria que nos aproximamos de uma era de luta bem mais radical e violenta.

Foto: Wikipedia



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