Corrupção, democracia e capitalismo: a purgação do PT

O reencontro com seus valores originais representa a única chance de o PT recuperar a credibilidade para compartilhar com o povo o comando do seu destino

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O reencontro com seus valores originais representa a única chance de o PT recuperar a credibilidade para compartilhar com o povo o comando do seu destino

Por Saul Leblon, na Carta Maior

A mais habilidosa e eficaz jogada do conservadorismo nas últimas décadas foi acuar a agenda progressista brasileira carimbando no PT a marca da degeneração ética.

Se isso pode ser revertido é outra história, mas o fato é que a operação foi concluída com sucesso.

E a tal ponto que hoje ela é a pedra angular do golpe branco, igualmente bem sucedido, que mantém o PT, o governo e o campo progressista submetidos aos ditames de uma agenda conservadora repisada diuturnamente como a ‘única’ saída para o país.

Não se trata apenas – e isso é sistematicamente reiterado — de denunciar a existência de ilícitos na vida do partido.

Fosse assim a ofensiva neoudenista apenas o nivelaria à norma da política brasileira.

Não.  A mensagem subliminar, não raro quase caricata, inoculada dia e noite em poções fartamente distribuídas pelo dispositivo midiático é a de que a corrupção no PT, leia-se, na esquerda, representa uma degeneração metabólica.

Coisa só sanável cortando-se o mal pela raiz, tornando proscrito o Partido dos Trabalhadores que impôs quatro derrotas presidenciais sucessivas à elite brasileira.

O ardil almeja atingir o fundo da alma brasileira, ou seja, secar a esperança na política como espaço dos que nunca tiveram vez, nem voz, na vida do país.

O que falta para espetar esse último prego no caixão da esperança?

Falta capturar Lula no redil da degeneração ética.

A isso se debruçam as investigações de seletividade autoexplicativa, os meios de comunicação e as milícias conservadoras que pisoteiam o imaginário popular incansavelmente com ilações, meias-verdades, calúnias e a falta de respeito habitual com que são tratados os interesses e as lideranças populares por aqui.

Ao despolitizar a luta pelo desenvolvimento, o PT praticou o haraquiri político que agora se volta contra a sua alma na forma de um esfolamento cotidiano em praça pública.

A saída do labirinto implica, em primeiro lugar, em desmistificar a falácia da política como um espaço de confronto entre querubins e demônios.

Virtude não é um traço do genoma humano.

Para que ela prospere como valor compartilhado  –nunca definitivo–  a sociedade teve que se resguardar historicamente construindo instituições virtuosas, estas sim, com poder de sedimentar anteparos ao interesse egoísta, incensado pela leitura rudimentar de Adam Smith.

Faz parte desse mutirão civilizatório reforçar comportas que reduzam a pressão do dinheiro grosso sobre as urnas, os partidos, seus programas, as lideranças e seus mandatos.

Negligenciá-lo e, ao mesmo tempo, cobrar ética na política, equivale a estuprar a democracia até a morte e acusa-la de complacente.

Um artigo do economista Jeffrey Sachs, que está longe de ser um carbonaro, publicado no Portal do Project Syndicate, em 2011, encerra interessante atualidade no Brasil no momento em que violadores crassos acusam a esquerda de transformar o bordel capitalista em um ambiente sem escrúpulos.

Fosse hoje, Sachs poderia ter incluído nesse prontuário o malabarismo moral de juízes tropicais que, valendo-se da toga, insistem em manter a democracia refém da bacanal plutocrática.

O desafio das forças democráticas e progressistas não se limita apenas em viabilizar uma reforma política que liberte a vítima da hipocrisia de seus algozes.

Essa reforma não se completará sem um protagonista social que lhe dê nervos e musculatura popular.

Ou seja, sem a criação de organizações que revertam o mais grave erro do PT no ciclo iniciado em 2003: ter subestimado o peso da democracia participativa na construção de uma política desenvolvimento.

Os avanços sociais inegáveis esbarraram no economicismo que levou o partido, ao mesmo tempo, a se distanciar das bases e a negligenciar a mobilização popular por reformas e democracia, sem as quais a máquina do crescimento não se renova e a ética política se evapora.

As chances de uma regeneração do PT é o tema do artigo do ex-senador Saturnino Braga ‘Mudar o PT’.

O reencontro petista com os valores de sua origem — e o do Brasil com um novo ciclo de crescimento mais justo e participativo — converge assim para um mesmo desafio.

Ou seja, criar condições de força e consentimento na sociedade para pautar os mercados, em vez de mendigar a sua indulgência.

Essa é a tarefa intransferível de uma frente ampla democrática, progressista e nacionalista maior e mais forte que a soma das partes que hoje ainda subestimam o alcance dessa união.

Frequentemente na história, transformações democráticas fornecem a única alavanca capaz de remover obstáculos econômicos que se mostram intransponíveis quando abordados no âmbito de sua própria lógica.

É o caso do impasse atual do desenvolvimento brasileiro em que o requisito de elevar a produtividade sistêmica parece se opor à manutenção dos salários reais e à expansão de investimentos que assegurem a provisão de serviços públicos universais à população.

Mais que isso.
 
Devolver ao discernimento popular a escolha dos fins e dos meios necessários à construção do país que o Brasil poderia ser, mas que ainda não é, representa a única chance de o PT, e como ele todo o campo progressista, reconquistar a credibilidade necessária para compartilhar com o povo brasileiro o comando do seu destino.

Foto: Valter Campanato/ABr



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