Inês, um exemplo de dignidade!

Nos anos 1980, cheia de sequelas das torturas, foi aconselhada a procurar um psicanalista. Deram-lhe o telefone de um psiquiatra. Ela ligou... e reconheceu a voz do médico que a examinava enquanto estava encapuzada, na Casa da Morte, mandando parar ou seguir com as...

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Nos anos 1980, cheia de sequelas das torturas, foi aconselhada a procurar um psicanalista. Deram-lhe o telefone de um psiquiatra. Ela ligou… e reconheceu a voz do médico que a examinava enquanto estava encapuzada, na Casa da Morte, mandando parar ou seguir com as torturas. Corajosamente, denunciou o sujeito e conseguiu que o Conselho Regional de Medicina cassasse seu diploma

Por Mouzar Benedito

Na terça-feira desta semana, uma matéria na Folha de S. Paulo informava que morreu a única sobrevivência da “Casa da Morte”.

Inês Etienne Romeu, que foi militante da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, era a tal sobrevivente.

A Casa da Morte ficava em Petrópolis, no estado do Rio. Presos políticos levados para lá durante a ditadura eram torturados das maneiras mais bárbaras, até que lhes arrancassem todas as informações possíveis, e depois os matavam.

Inês veio de Minas Gerais e foi presa em São Paulo. Depois de muito torturada pela equipe do delegado Fleury, foi levada para o Rio de Janeiro, e depois para a Casa da Morte, em Petrópolis.

Na época, militantes de esquerda que viviam na clandestinidade não podiam passar seus endereços a ninguém. A forma de se encontrarem para marcar ações ou passar informações era o que se chamava “ponto”.

Era um encontro marcado em um local e horário com precisão, e terminada a conversa já se marcava outro ponto ou mais de um. Em muitos casos havia sinais para um mostrar ao outro que estava tudo bem. E a regra era de, no caso do companheiro não aparecer na hora, a pessoa se mandar dali, porque provavelmente o outro teria sido pego pela polícia.

A repressão sabia que esses encontros funcionavam assim e quando pegava algum militante o torturava não só para saber de suas atividades como “subversivo”, mas também para “abrir” os pontos que tinha marcado, quer dizer, revelar os lugares e horários de seus próximos encontros.

No dia e horário marcado, o preso era levado para o local do ponto e muitos policiais ficavam de tocaia, fingindo ser garis, operários de macacões, vendedores ambulantes ou qualquer outra coisa. Quando o companheiro do preso se aproximava, pulavam em cima dele e o prendiam, torturavam e fazia que entregasse outros pontos para prenderem outros militantes. E assim, o ponto, que foi uma estratégia de defesa usada pela esquerda, acabou virando uma armadilha, para prisões em série.

Muitos presos não suportavam as torturas e “abriam” pontos, mas alguns abriam pontos falsos. Eram levados para o local e não aparecia ninguém. Aí os levavam de volta para os porões da ditadura e o torturavam mais ainda.

Inês usou essa estratégia. Levada para um ponto falso, pulou na frente de um caminhão para ser morta sem entregar nenhum companheiro. Mas sobreviveu.

Foi levada de volta para a Casa da Morte e era torturada seguidamente. Ficava encapuzada.

Um médico presenciava tudo, e quando parecia que ela morreria, o médico a examinava e dizia: “Podem continuar”. Ou mandava parar para que ela sobrevivesse até outra sessão de torturas. Foi solta para agir como agente infiltrada na esquerda, mas não fez isso, voltou para a clandestinidade até ser presa de novo. Só foi libertada anos depois.

Nos anos 1980, cheia de sequelas das torturas, foi aconselhada a procurar um psicanalista. Deram-lhe o telefone de um psiquiatra. Ela ligou… e reconheceu a voz do médico que a examinava enquanto estava encapuzada, na Casa da Morte, mandando parar ou seguir com as torturas. Corajosamente, denunciou o sujeito e conseguiu que o Conselho Regional de Medicina cassasse seu diploma.

Nunca a conheci, mas sempre a admirei muito. E admirei muitos outros também.

Lembranças daqueles tempos

Por causa da morte dela, fiquei me lembrando da história de alguns outros torturados, entre eles meu conterrâneo e amigo José Roberto Rezende, também militante da VPR, que foi preso no Rio de Janeiro. Ficou preso quase nove anos, depois foi morar em Belo Horizonte e escrevemos juntos o livro Ousar Lutar – memórias da guerrilha que vivi, publicado pela Boitempo Editorial, um depoimento dele, para mostrar aos jovens deste século o que se passava na cabeça de um jovem da época, que se arriscava a ser preso, torturado e morto por causa de um ideal.

Ele morava num “aparelho”, quer dizer, um apartamento usado por clandestinos, junto com um companheiro da organização.
Foi preso num ponto em Copacabana, entregue por companheiros que foram muito torturados. Logo de cara, levado para ser torturado também, tinha uma grande preocupação: não “abrir” nenhum ponto verdadeiro e não revelar antes das onze e pouco da noite o seu endereço, porque o combinado era que se ele não voltasse para casa até as onze era porque tinha sido preso, então o companheiro tinha que se mandar dali. O prazo era cinco minutos.

Mas a polícia sabia que muitos tinham o compromisso de suportar as torturas até uma determinada hora, para que seus companheiros fugissem, e adiantavam o relógio da parede da sala de torturas.

O torturado perde a noção do tempo. Cinco minutos podem parecer horas. Vendo no relógio da parede que tinha chegado a hora em que podia entregar um endereço, ele falava. E na verdade ainda não era aquela hora. O relógio podia estar adiantado uma ou duas horas, e a polícia chegava ao endereço a tempo de prender novas vítimas para torturar.

José Roberto sabia que faziam isso. Então, para não correr o risco de entregar um companheiro, suportou as torturas até o amanhecer. Seu companheiro escapou. Nunca foi pego.

Sadismo e sofrimento

Conversei com muitos ex-presos políticos barbaramente torturados, e eles têm muita dificuldade para falar sobre isso. É como sofrer aquilo de novo, segundo alguns. Um amigo que foi preso junto com a mulher dele, ambos muito torturados, me contou que depois de libertos o casal nunca conseguiu conversar sobre isso.

Para escrever o livro com o José Roberto, falei que ele tinha que contar como foi.

Durante um mês o torturaram diariamente, no pau-de-arara, com choques elétricos e pancadas. Conseguiu não entregar ninguém. Sobre as ações que praticou e que a polícia sabia, o torturavam para contar quem tinha participado junto com ele. Só falava nomes de companheiros que sabia estarem exilados ou mortos.

No último dia de tortura, nem perguntaram nada. Apenas o colocaram no pau-de-arara e torturaram, torturaram… Ele já não conseguia andar, porque o choque elétrico, além de dolorido, desidrata, seca as pessoas. Depois de uma sessão de choques elétricos, o torturado sente uma sede enorme. Se lhe derem um balde de água ele bebe.

Depois de dias e dias sendo torturado com choques elétricos, suas pernas ficaram atrofiadas por um bom tempo, ele tinha que se arrastar.

Terminada essa última sessão de tortura por puro sadismo, já que nem tentaram obter qualquer informação dele, o colocaram numa cela sozinho. Ele se arrastou até a pia, e tinham fechado a água… Mais sadismo!

Com uma sede insuportável, se arrastou até a privada. “E com a mão em concha, tirava a água dela e bebia”, me contou.

Enfim, é isso que me vem à mente agora. E também a monstruosidade de quem pede a volta da ditadura. Que conheçam a história de Inês Etienne Romeu, do Zé Roberto e de muitos outros.



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