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O ativismo feminista é muito difícil, independente da ferramenta que seja utilizada para fazê-lo. Seja em coletivos presenciais, em instituições ou em blogs na internet, as mulheres feministas que assumem o compromisso de militar...

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O ativismo feminista é muito difícil, independente da ferramenta que seja utilizada para fazê-lo. Seja em coletivos presenciais, em instituições ou em blogs na internet, as mulheres feministas que assumem o compromisso de militar e intervir na cultura enfrentam muitos desafios: hostilidade, xingamentos, ameaças, cargas pesadíssimas de misoginia e outros tipos de violência, além da amarga falta de apoio.

A falta de apoio, aliás, é um tema bastante sensível. Nos últimos anos, vi diversos projetos feministas acabarem ou serem interrompidos por falta de suporte. Um dos meus favoritos era o podcast We Can Cast It, produzido pela Gizelli Souza e pela Aline Valek; o trabalho maravilhoso dessa dupla parou porque o público não dava muito retorno; nem mesmo outras feministas compartilhavam o trabalho.

Para quem vive de escrever, como eu, o problema é ainda mais grave. Escrever é bastante trabalhoso, principalmente quando é preciso abordar questões sociais. Há uma enorme responsabilidade no tocante à forma como os temas são apresentados, algo que fica evidentemente mais complexo quando é preciso apurar casos, buscar fontes, entrevistar pessoas e envolver terceiros no texto. Para produzir conteúdo de qualidade, revisar ortografia e gramática, publicar e divulgar o texto, muito tempo é gasto. Mas não só tempo, pois é preciso também ter a famigerada inspiração e muita coragem para se expôr e botar a cara no sol.

Infelizmente, ainda existem os ataques. Os comentários educados e as críticas construtivas são sempre bem vindos, mas os ataques são péssimos. Xingamentos e ameaças são tão rotineiros que se tornam praticamente uma parte natural da escrita. Em diversas situações, a feminista que escreve acaba parando para refletir e diz a si mesma: “nossa, esse texto vai me dar uma dor de cabeça” ou “vou receber xingamento até o mês que vem”. E dá muita dor de cabeça, mesmo, pois além da hostilidade vinda de outros internautas, há ainda tentativas de intimidação de empresas ou instituições que viraram manchete e tiveram suas práticas discriminatórias questionadas.

O apoio de outras feministas e de outros leitores, no entanto, não chega em uma proporção sequer similar. Pelo contrário, o comum é que o silêncio impere e as pessoas aliadas não se deem o trabalho nem de curtir as publicações, tampouco de compartilhar e tentar levar pra frente aquela publicação que foi feita com tanto esforço. É claro que sempre haverá pessoas que de fato não gostam ou não concordam com o conteúdo; mas presumindo que pelo menos algumas gostem, onde está o apoio?

Esse assunto já foi abordado por Gizelli Souza, que criou uma campanha chamada “Valorize As Minas“; um apelo para que as feministas e apoiadores parem de compartilhar clique de indignação – pois mesmo que a intenção seja de mostrar revolta, o que está sendo compartilhado é conteúdo produzido por gente misógina, racista e homofóbica – e passem a clicar, curtir e divulgar o que é feito por outras mulheres. Não surpreendentemente, o retorno para a campanha foi bem pequeno.

O resultado disso é que cada vez mais as mulheres se sentem desencorajadas e sozinhas. Chega uma hora que cansa, que não dá mais pra produzir, escrever, desenhar, montar, divulgar. Os projetos acabam e vão se tornando cada vez mais escassos, porque, afinal de contas, todo mundo precisa pagar contas, comer e sobreviver na sociedade.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a maioria dos eventos e debates para os quais escritoras feministas são convidadas não possui remuneração ou sequer ajuda de custo. Em muitos casos, nós precisamos pagar do nosso próprio bolso o transporte até o local do evento. E isso sem levar em consideração o fato de que em incontáveis eventos feministas não são sequer convidadas, muito menos se não tiverem formação acadêmica. E já que estamos falando de uma sociedade racista, lesbofóbica, transfóbica, gordofóbica e capacitista, vale lembrar que as mulheres que fazem parte de outros grupos marginalizados são ainda menos convidadas para falar, mesmo quando as demandas lhes são pertinentes.

Conversando com várias mulheres que escrevem online, posso afirmar com segurança que muitas de nós não recebemos ajuda nem mesmo quando pedimos. É o caso dos botões de contribuição financeira, como os do PagSeguro que estão aí na coluna direita do blog. Eu, por exemplo, tenho duas assinantes que contribuem com R$ 10,00 mensais – valor que ainda recebe a taxa de 6% cobrada pelo sistema. Além disso, muitas vezes estamos falando de pessoas que não se encaixam em padrões e por isso possuem mais dificuldade na hora de conseguir emprego. Ou, ainda, pessoas que se forem procurar empregos que paguem um salário mínimo, não conseguirão conciliar o trabalho com a escrita, porque trabalhar na empresa dos outros ainda exige saúde, energia, tempo de deslocamento e sobrecarga de funções.

É verdade que não está fácil pra ninguém e na área do jornalismo, especificamente, a coisa está feia. Por isso tantas escritoras, colunistas, jornalistas ou até mesmo portais – como é o caso da revista Fórum – tentam se manter de forma independente, contando com a contribuição dos leitores.

No fim das contas, falta consciência do esforço que é necessário para produzir, escrever e se expor. Não queremos que a grande mídia seja a única opção de notícias, nem que a misoginia continue a ser protagonista de todos os textos e links. E é por isso que precisamos colaborar: quem não pode fazer uma doação, pode compartilhar a publicação, divulgar no twitter, comentar, indicar a leitura para amigos ou mandar uma simples mensagem de apoio, dizendo que lê e gosta do trabalho. Um simples gesto pode significar muito – são atitudes assim que podem evitar que conteúdo feminista e de esquerda deixe de existir.



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