Site do PSDB voltado a mulheres tem sessão com receitas culinárias

Sugestões de pratos não aparecem em outros espaços, como a home principal do portal tucano; para militantes feministas, o fato reforça estereótipos sexistas:"o que o PSDB está transmitindo com essa sessão de receitas é: a mulher pode até se meter na política, desde que...

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Sugestões de pratos não aparecem em outros espaços, como a home principal do portal tucano. Para militante feminista, o fato reforça estereótipos sexistas.”O que o PSDB está transmitindo com essa sessão de receitas é: a mulher pode até se meter na política, desde que não deixe de ser a cozinheira da família”

Por Anna Beatriz Anjos

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(Reprodução)

Bolo de reis, espaguete com molho de tomate e manteiga, bacalhoada portuguesa, risoto de frango… Estas são algumas das receitas que aparecem na sessão “Dicas da Semana” do portal do PSDB Mulher. Entre resenhas de livros e filmes, as sugestões de pratos são maioria. As informações são do blog Imprença.

Nada contra o apreço pela culinária, mas o que levantou o questionamento da militância feminista é a ausência de dicas como essa em outros espaços do site tucano que não o destinado a mulheres. Na home principal, por exemplo, nem sinal das receitas. Aliás, a mulher mais citada não é tucana, mas sim da legenda adversária, a presidenta Dilma.

“Não tenho nada contra receitas, adoro, inclusive. Mas, ao restringi-las ao espaço dedicado às mulheres, parece que não somente é um assunto que diz respeito apenas a elas, mas que esse é o assunto que nos interessa em primeiro lugar”, assinala Vanessa Rodrigues, da ONG feminista Casa de Lua, em São Paulo. “Acredito que [a situação] reflete e reproduz o senso comum de ser esse o espaço destinado às mulheres na vida cotidiana. O espaço restrito da cozinha, da casa, do privado, e não discutindo política, atuando, militando.”

O fortalecimento de estereótipos sexistas é especialmente perigoso em um país como o Brasil, onde as mulheres são sub-representadas nos espaços de poder e decisão. A atual legislatura da Câmara dos Deputados conta com apenas 51 parlamentares em um universo de 513 – o que equivale a apenas 9,9% do total. A dificuldade das mulheres no acesso às altas esferas políticas do Brasil o colocou na 129ª posição em um ranking de 189 países, produzido pela União Interparlamentar (UIP), que mede a participação feminina no Parlamento. Neste ano, pela primeira vez duas mulheres ocupam simultaneamente cargos da Mesa Diretora da Câmara – uma delas é, inclusive, Mara Gabrilli, deputada tucana de São Paulo, ao lado de Luiza Erundina (PSB-SP).

A jornalista e militante feminista Jarid Arraes, colunista da Fórum, identifica o simbolismo de um dos partidos de maior expressão no país se colocar dessa forma. “O que o PSDB está transmitindo com essa sessão de receitas é: a mulher pode até se meter na política, desde que não deixe de ser a cozinheira da família, desde que não abandone suas funções delimitadas pelo machismo da sociedade. Isso é nocivo porque naturaliza a jornada dupla ou até tripla da mulher; naturaliza a exploração sobre a mulher, que deve cumprir diversas funções enquanto o homem só precisa cumprir uma única, que é a profissional”, explica.

Procurada, a assessoria de imprensa do PSDB Mulher afirmou que “é absurdo e lamentável” relacionar a publicação de receitas voltadas apenas às mulheres ao endosso de “qualquer tipo de preconceito machista, como o que costumava defender que lugar de mulher é na cozinha”.



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