O PSDB Mulher precisa estudar sobre a luta das mulheres

No último dia 29, a Revista Fórum fez uma matéria questionando o machismo do “PSDB Mulher”, a única sessão em um site de partido que exibe receitas culinárias. Como resposta, a deputada...

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No último dia 29, a Revista Fórum fez uma matéria questionando o machismo do “PSDB Mulher”, a única sessão em um site de partido que exibe receitas culinárias. Como resposta, a deputada Thelma de Oliveira (PSDB-MT) publicou uma nota dizendo que “de jeito nenhum” vão se definir como feministas de vozes graves, mal vestidas e arrogantes. Para ensinar ao PSDB que educação importa, vale a pena tentar um didatismo e explicar para o partido o que é, de fato, lutar em favor das mulheres brasileiras.

É verdade que tanto mulheres quanto homens podem gostar de receitas; o que chama atenção é o fato de que as receitas foram publicadas somente no portal dedicado às mulheres. As receitas simplesmente são jogadas lá, sem qualquer contexto ou proposta de reflexão política. Mas talvez seja demais pedir que o PSDB fale de comida com politização; afinal, para isso teriam que discutir o agronegócio, os transgênicos, a situação dos trabalhadores do campo e os outros diversos problemas da indústria alimentícia. É difícil imaginar o partido tendo qualquer preocupação com a qualidade dos alimentos consumidos pelos brasileiros.

Outro ponto a se refletir é a associação da mulher com a cozinha, já que o portal se chama “PSDB Mulher”; parece que o setorial do partido precisa estudar um pouco mais sobre a luta histórica das mulheres pelo direito ao espaço público. Fazendo um recorte racial – coisa que o PSDB não consegue fazer de forma decente -, é possível compreender que mulheres negras e mulheres pobres ainda vivem relegadas a posições subalternas nas cozinhas alheias, ganhando salários baixos e tendo direitos trabalhistas violados. Além disso, as mulheres brancas de classe média há várias décadas lutam para não serem apenas “donas de casa”, mas para conquistar espaço também no mercado profissional e na política.

Falta também discutir sobre as jornadas duplas e triplas que as mulheres até hoje são obrigadas a fazer. Mesmo quando trabalham fora, o retorno para casa não é sinônimo de descanso, mas sim de tarefas domésticas, preparo de refeições e cuidado com os filhos, que os homens se recusam a dividir com igualdade. Para muitas mulheres do PSDB, isso pode soar distante da realidade, já que muitas têm empregadas domésticas a quem podem entregar as receitas publicadas no site.

Por fim, vale refletir sobre esse medo de não ter a voz aguda, as roupas da moda e o temperamento “carinhoso, amigável e compartilhador” exigido das mulheres. Porque as feministas são tão diversas quanto as mulheres são diversas. Não há nada de errado ou ruim em ter a voz grave, não se preocupar em estar supostamente “bem vestida” ou em cultivar comportamentos assertivos, de quem sabe o que quer e não pede desculpas por não ser submissa.

É uma pena que o PSDB Mulher não entenda mais da luta das mulheres e não faça qualquer reflexão crítica sobre o machismo na nossa sociedade. Como ficou evidente na fala da deputada, elas marcham ao lado de misóginos, de gente que pede intervenção militar e um modelo conservador de sociedade. Talvez não saibam que, segundo esses parâmetros, o que resta para as mulheres é nada ou quase nada.

De todo esse episódio, pelo menos podemos afirmar com certeza que o PSDB continua sendo o que gosta de ser: distante dos movimentos sociais, distantes das bandeiras do movimento de mulheres, ignorante quanto as questões de gênero da sociedade, com posturas superficiais e muita dificuldade retórica.

* A autora desse texto não tem qualquer vinculação com nenhum partido político. Nem mesmo com o PT.

Foto de capa: Reprodução



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