A política genuína e as outras políticas

O que faz uma política ser genuína? Comecemos pela origem da palavra política. Surgiu na Antiguidade como “politae” (inflexão de “politus”) que, numa tradução livre, seria “organização social”. Aristóteles sugeria que seu objetivo é a...

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O que faz uma política ser genuína?

Comecemos pela origem da palavra política. Surgiu na Antiguidade como “politae” (inflexão de “politus”) que, numa tradução livre, seria “organização social”. Aristóteles sugeria que seu objetivo é a conquista da felicidade humana, tanto individual (do homem na polis), quanto coletiva. O estudo da política seria justamente a análise das formas de governo que levariam a este fim: a felicidade individual e coletiva. Walter Benjamin retomou o conceito original de busca da felicidade, em meio à tortura pessoal de fuga do nazismo, o que dramatizou esta procura como a da fonte da juventude.

Na versão grega, “politikós” designava o que é próprio da política (“politiké”), mas também polido, cortês e educado.

Na origem, portanto, a ação política tem relação com o olhar para o coletivo a partir de uma relação de afeto, de polidez, nunca de violência. Entretanto, vale destacar, não se trata, na origem, de algo como compreendemos ser a vocação para a democracia. Aristóteles, mais uma vez, sugeria que o “tirano é instituído pela massa popular para que ele a proteja dos nobres”. Proteção como ato político. Péricles chegou a definir democracia não como liberdade, mas como respeito à maioria. Esta distinção chegou ao discurso aristocrático, como o de Alexis de Tocqueville, que um dia afirmou amar “com paixão a liberdade, a legalidade, o respeito pelos direitos, mas não a democracia” porque odiava a “demagogia” (nota preparatória do discurso parlamentar de novembro de 1841). Retomava o dilema que mais tarde conservadores travestidos de liberais expuseram entre a vontade do povo ou a lei.

A política genuína, de qualquer maneira, é aquela que se inspira no coletivo: vontade e desejo coletivos (construídos a partir da negociação, nem sempre formal, entre interesses individuais) que se plasmam nas leis, desde que os legisladores estejam em consonância com os desejos, valores e crenças coletivos (caso contrário, se deslegitimam).

Nos últimos dias, duas situações díspares me fizeram pensar sobre o uso e abuso da prática política em nosso país.

A primeira situação foi o discurso ensandecido do senador Aécio Neves sobre o não pronunciamento da Presidente Dilma Rousseff em cadeia de rádio e televisão no 1º de Maio. A governante decidiu utilizar as redes sociais para disseminar pequenos pronunciamentos no Dia do Trabalho. A intenção política da Presidente foi evitar a reação dos opositores que, desde março, reagem aos seus pronunciamentos públicos com apupos e panelas. Está no seu direito constitucional falar ou se silenciar neste dia e parece sábio não falar quando não tem muito o que dizer aos trabalhadores.

Mas o senador Aécio Neves revela desespero desde que perdeu as eleições, no ano passado. Altera seu discurso e foco de ataque como se portasse uma metralhadora giratória cujo eixo se desgovernou, perambulando de um lado para o outro, fazendo meias-luas e giros de 360 graus, alternados, mas sem lógica, sem previsibilidade alguma.

Aécio Neves, desde o início deste ano, flertou com a proposta de impeachment, afirmou que procuraria os adolescentes que protestaram em 15 de março e que já não apareceram em grande número em 12 de abril, atacou o PT, esvaziou – de tanto gastar pelo uso – o sentido da palavra gravíssimo, atacou a gestão da Petrobrás, recuou na proposta de impeachment e, finalmente, atacou a ausência da imagem da Presidente da República sustentando que se trata de ato de covardia.

Não parece um discurso polido, educado, muito menos focado na felicidade coletiva. A impressão é que tal discurso não revela nem mesmo felicidade ou alegria do senador. Parece motivado por melancolia ou ressentimentos profundos, que calaram tão fundo que só se aliviam com golpes fortes e agressivos, ainda que sem direção certa, para alimentar a adrenalina e a paixão, aquela que cega a razão.

Não se trata, enfim, de atos políticos genuínos porque orientados para aplacar dores da alma individual.

Na outra ponta, o silêncio de José Genoino. No primeiro final de semana de maio, completou mais um aniversário. Chegou aos 69 anos de idade. Também se calou. Já é um homem livre. Poderia se pronunciar a respeito do momento tão difícil. Mas se calou. Em silêncio, respeitou a si mesmo, mas também às instituições do país. Deve ter meditado que qualquer movimento público alimentaria a fogueira das vaidades e dos ódios que se espraiam como “selfies” disseminados nas redes sociais em dia de protesto de rua ou jogo de futebol. Seu silêncio é, sem dúvida, um ato de autoproteção. Mas, não só. Em silêncio, não nega o julgamento que lhe foi imposto. Em silêncio, não alimenta o embate nas ruas.

Aí está a diferença entre a política genuína e a não política ou o uso da política para fins pessoais, nem sempre confessados até mesmo por quem abusa insistentemente do seu nome como álibi. Porque para poder confessar que o grito aparentemente político é, de fato, dor na própria alma, é preciso olhar para si e, muitas vezes se resignar ao fato, ao evidente, ao inevitável.

A política genuína, afinal, se faz a partir da adversidade pessoal. É dela que nasce o autocontrole, o freio para pulsões pessoais. O nascimento do superego político é o que faz o líder olhar para o horizonte e encontrar o coletivo. Sem estas pequenas tragédias pessoais, o político passa a ser líder de suas próprias vontades. E se resume a elas. Revelando-se um político pouco genuíno.



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