Alunas cotistas são alvo racismo em universidade do RS

"Você sabe ler, neguinha?”, perguntou o formando do curso de Agronomia à estudante, que registrou boletim de ocorrência; alunos da Universidade Federal de Pelotas "comemoravam" último semestre em frente a alojamento destinado a universitários de baixa renda

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“Você sabe ler, neguinha?”, perguntou o formando do curso de Agronomia à estudante, que registrou boletim de ocorrência; alunos da Universidade Federal de Pelotas “comemoravam” último semestre em frente a alojamento destinado a universitários de baixa renda 

Por Anna Beatriz Anjos

Na manhã da última quarta-feira (13), data que entrou para a história como o fim oficial da escravidão no Brasil, mais um caso de racismo aconteceu em uma universidade pública do país. Alunos da UFPel, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, afirmam ter sofrido ofensas relativas sobretudo à sua cor de pele, mas também à classe social, gênero e orientação sexual. Segundo as vítimas, os autores da agressão são estudantes da mesma instituição de ensino.

Andy Marques Real e Polyana Rocha de Oliveira Santos, alunas cotistas de Artes Visuais e Música, respectivamente, chegaram a registrar boletim de ocorrência sobre o caso. Ambas vivem na Casa do Estudante Universitário (CEU), moradia destinada a discentes de baixa renda. Em nota, os residentes da CEU relatam que, por volta das 7 horas de quarta, um grupo de formandos em Agronomia se reuniu em frente ao local e acordou os moradores aos gritos de “hora de acordar, porque às 6h todo mundo trabalha e os estudantes que moram na CEU não sabem o que é isso”. Segundo o informe, tal procedimento configuraria uma “tradição” entre os graduandos do curso.

Alguns dos residentes, então, desceram até a rua para pedir que o grupo se retirasse, mas este, novamente, ironizou sua condição, dizendo que eram “vagabundos sustentados pelo governo”. Os moradores teriam despejado baldes de água nos agressores para forçá-los a ir embora, ao que reagiram com “xingamentos LGBTfóbicos, além de agressões a identidade gênero”, informa a nota.

Foi quando um dos formandos empurrou Andy, encostou em seu rosto a camiseta que vestia – estampada com os dizeres “Agronomia-FAEM (Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel)” – e lhe perguntou: “você sabe ler, neguinha?”. Ela revidou com um tapa, que acertou o rosto do rapaz e feriu sua mão. Enquanto isso, mais um formando agredia Polyana com um empurrão. Após a confusão, o autor do insulto racista deixou o local – ele ainda não foi identificado.

Andy e Polyana registraram ocorrência tanto na Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) da Polícia Civil, como na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) da cidade. Também realizaram exame de corpo de delito. Também em nota, a UFPel alegou que “está identificando os estudantes que participaram do ocorrido e vai instaurar os processos administrativos e disciplinares cabíveis, responsabilizando cada um dos envolvidos”.

“Considero que foi um caso de racismo, nenhuma duvida quanto a isso, a partir o relato das alunas que registraram o boletim de ocorrência”, declarou o professor Rogério da Rosa, titular da Coordenadoria de Ações Afirmativas e Políticas Estudantis (CAPE) da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). Ele aguarda dossiê que será produzido pelos residentes da CEU sobre o episódio. De acordo com Rosa, após a chegada do documento, serão tomadas “providências junto à Reitoria, ao curso de Agronomia e ao Diretório Acadêmico dos Estudantes de Agronomia”.

*Atualizada às 15h de 15/05.



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