A ditadura da “Democracia da minoria”

No último domingo, o apresentador Guga Noblat voltava para casa e passou perto do MASP, com sua filha recém-nascida abrigada em uma bolsa colada ao seu corpo. Teve a “má sorte” de estar com uma camisa...

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No último domingo, o apresentador Guga Noblat voltava para casa e passou perto do MASP, com sua filha recém-nascida abrigada em uma bolsa colada ao seu corpo. Teve a “má sorte” de estar com uma camisa vermelha e passar ali no mesmo instante no qual acontecia um “panelaço” convocado pelo neoativista Lobão, o cantor. A “convocação geral” de Lobão reuniu 40, mas não foram 40 milhões, nem mesmo 40 mil, ou 40 centenas, ou mesmo 40 dezenas. Foram apenas 40 pessoas mesmo.

No local, Guga Noblat foi hostilizado pela camisa que vestia (vermelha). A filha a tiracolo não desmotivou Lobão nem seus 40 seguidores, que panelavam, apitavam e alguns mandavam que Guga Noblat e sua filha assustada fossem “para Cuba”.

O vídeo foi postado pelo próprio Noblat em seu perfil no Facebook, veja abaixo:

 

Passei pela Av Paulista voltando para casa e deu nisso. Mais uma vez fui atacado por um bando de militantes idiotas. Mesmo com minha filha no colo.só pra esclarecer os haters que possam apoiar os covardes que me ofenderam. 1- Estava voltando pra casa com a filha no colo qnd cruzei com cerca 20 manifestantes. Moro do lado masp. Não tinha como prever q me ofenderiam.2- Eram 3 pessoas batendo panela e mais 15 ao redor deles. O taxi da paulista fazia mais barulho. Não evitei a manifestação pq parecia insignificante e não imaginava que seriam tão baixos e doentes a ponto de me atacar, especialmente com um bebe.

Posted by Guga Noblat on Domingo, 17 de maio de 2015

 

 

 

Na semana passada, o ex-ministro Alexandre Padilha também foi importunado publicamente enquanto se encontrava em um restaurante de São Paulo. Um dos frequentadores resolveu “acusá-lo” pelo Mais Médicos, Programa Federal este que, apesar de no início ter sido mal recebido pela classe médica, posteriormente foi abraçado por alguns milhares e tem beneficiado cerca de 65 milhões de brasileiros que antes não tinham acesso à medicina. O “crítico” de Padilha, falou – segundo ele – em nome dos brasileiros, mas notadamente de uma minoria que têm vivenciado uma condição surreal no Brasil: eles reclamam de uma ditadura eminente no País (que elegeu democraticamente uma presidente pela segunda vez), mas tem ancoragem numa parcela mínima da população.

Seria a ditadura da “Democracia da Minoria”.

Tais manifestações deste ano minguaram por nítida falta de apoio maciço da população. Na contagem insuspeita feita pelo Estadão, a última grande tentativa de “Fora Dilma” reuniu em todo o Brasil cerca de 600 mil pessoas, o que equivale a 0,3% de nossa população. A anterior havia reunido um pouco mais, algo em torno de 0,8%. Mesmo assim, estas duas últimas talvez tenham sido as manifestações com maior apoio da mídia tradicional no Brasil. Chamadas ao vivo na TV aberta, convocação de ativistas como Lobão, atores, atrizes, jornalistas, plantões, campanhas online e até mesmo a convocação do candidato derrotado na eleição – também chamado recentemente de O QUASE Presidente – Aécio Neves não foram suficientes para provar o improvável: que o País daria arrimo a um golpe travestido de “Fora Dilma, Volta Exército ou EUA Help Brazil”, dentre alguns.

Frize-se que tais manifestações tiveram a cobertura e apoio que a campanha pelas Diretas Já, antes da redemocratização do Brasil, nunca sequer sonhou em ter. Nas inúmeras manifestações pelas Diretas, numa época em qua não existiam mídias sociais online ainda, mesmo assim se reuniram milhões País afora durante o ano 1984, pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que garantiria o retorno de eleições diretas para Presidente da República. Manifestações que apesar do maciço apoio popular, não repercutiam tanto (ou quase nada) na chamada mídia tradicional, então as únicas mídias possíveis. Aliás, 30 anos depois, essa omissão é motivo de mea culpas com décadas de atraso, por parte de alguns veículos. À época, houve quem tratasse a maior manifestação em São Paulo como se fosse “festa do aniversário da cidade”.

Talvez a mesma mea culpa que ouviremos – se ouvirmos – daqui a algumas décadas quando alguém assumir que se tentou no Brasil um nítido movimento de direita que tinha, dentre suas bandeiras, o pedido de intervenção militar e derrubada de um governo recém-eleito de forma democrática. Manifestações nada republicanas de pessoas que bradavam contra, inclusive, a ameaça da “ditadura bolivariana” a caminho. São os pesos e medidas que parte da mídia no Brasil é pródiga em utilizar no seu dia a dia.

Mas este texto é principalmente para ressaltar essa lógica obtusa, esse ilogismo político que chega a ter toques surreais, de um movimento que diz bradar contra a tal ameaça comunista, que diz ser uma resistência à tal ditadura que se avizinha, mas tem um arrimo perigosíssimo na intolerância, no ódio e cujos contornos fascistas merecem reflexão e atenção.

Seria algo como uma surreal ditadura da “Democracia da minoria”, que continua repercutindo desproporcionalmente nos mesmos aparelhos ideológicos de sempre, como se o Brasil já não tivesse dobrado essa página da eleição de 2014. É a minoria que hostiliza alguém que passa com uma camisa vermelha e seu filho no colo, quando 40 protestantes se reúnem em torno da “liderança” Lobão. É a minoria que hostiliza alguém publicamente em um restaurante com direito a gravação e aplausos de sua claque, em meio a um restaurante atônito. É a minoria que não entende que democracia é também aceitar a derrota.

Sim, o momento é delicado e ameaçador a vários princípios insculpidos em nossa Constituição de 1988, que não levou o titulo de CIDADÃ por acaso. A ameaça, entretanto, é de uma minoria intolerante, raivosa e que pode querer muita coisa, menos democracia.

(Na foto, comício pelas Diretas Já, na Candelária, Rio de Janeiro, em 1984)



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