Entre o exílio e a diáspora: precisamos de novas canções

A Canção do Exílio talvez seja um dos poemas mais conhecidos pelas pessoas brasileiras que alguma vez já foram à escola. O poema é o exemplo preferido dos livros didáticos de todos...

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A Canção do Exílio talvez seja um dos poemas mais conhecidos pelas pessoas brasileiras que alguma vez já foram à escola. O poema é o exemplo preferido dos livros didáticos de todos os anos escolares quando explicam o que é uma paródia, e é retomado quando, no ensino médio, aprendemos o que foi o “romantismo” e a sua “fase ufanista / nacionalista”.

Gonçalves Dias escreveu o poema em Coimbra, primeira capital do reino português, uma das capitais culturais europeias no séc. XIX, ainda hoje um centro de referência universitária na ex-Metrópole. O poeta, à moda romântica, transforma em penosa privação o que era então um enorme privilégio para qualquer brasileiro: estudar na mais tradicional universidade portuguesa.

Casimiro de Abreu, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Murilo Mendes, Mário Quintana, Tom Jobim e Chico Buarque, Ferreira Gular, Fernando Gabeira são alguns dos poetas que herdaram a canção e reescreveram à sua maneira cada um as suas relações com a Pátria Amada, nem sempre saudosa, nem sempre tão amada. Só essa pequena lista de nomes já revela o quão embranquecido e masculino é o nosso cânone literário, todo ele herdeiro de Gonçalves Dias. – ele mesmo mestiço embranquecido pela historigrafia literária.

Em cismar sozinha à noite depois de voltar das férias no Brasil, e diante da mesma colina que inspirou a primeira canção do exílio, não sei eu onde encontro mais prazer.

Não sei dizer se, sendo estudante de literatura ocidental, sou mais herdeira do exílio intelectual de Gonçalves Dias ou, sendo negra, da diáspora que levou para o Brasil à força os meus mais longínquos ancestrais, dos quais não restou registro na história.

Quantas voltas o mundo deu, me pergunto em terras lusitanas, para que essas duas realidades se encontrassem, para que uma mulher negra trineta de africanos escravizados viesse, com status de doutora, estudar no país que forjou o encontro violento que possibilitou essa existência.

Nem o Brasil, que deixa pessoas como eu à margem de direitos básicos que deveriam ser garantidos para todos os seus “nacionais”, nem a África, continente-mãe imaginado que eu nunca conheci, nem agora este Portugal que aos poucos descubro e em que me descubro são a minha pátria.

Exiladas à nascença pela cor da pele mestiça, para nós não existe uma pátria natural para onde possamos voltar e sentirmo-nos seguras, confortáveis, acolhidas.

Entre o exílio individual e a diáspora coletiva, nossas canções ainda estão por ser escritas, e nossos espaços de segurança e acolhimento ainda estão por ser construídos e conquistados. Não permita deus que eu morra sem que um dia eu chegue lá.



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