Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista)

Em geral, histórias sobre mulheres ou produzidas por mulheres são demarcadas por gênero, encaradas como obras de público alvo exclusivamente feminino. E personagens femininas normalmente não são admiradas por homens. Mad Max quebra essas duas barreiras comuns no cinema e grupos machistas ameaçaram boicote...

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Em geral, histórias sobre mulheres ou produzidas por mulheres são demarcadas por gênero, encaradas como obras de público alvo exclusivamente feminino. E personagens femininas normalmente não são admiradas por homens. Mad Max quebra essas duas barreiras comuns no cinema e grupos machistas ameaçaram boicote ao filme, alegando ser uma “propaganda feminista”

Por Gizelli Sousa, no A maior digressão do mundo

Estreou neste final de semana passado o novo filme da saga Mad Max. Confesso que eu tinha zero intenção de assistir até ouvir falar da polêmica criada por grupos machistas que ameaçavam boicote ao filme, alegando ser uma “propaganda feminista”. Corri para o cinema e o que vi não me decepcionou. “Mad Max: Estrada da Fúria” não é uma continuação direta da saga, nem mesmo um remake, pois não reconta a história original,  apesar da utilização de elementos dos filmes anteriores como o ambiente distópico, as gangues de motocicleta, o fetiche por velocidade e o sobrevivente solitário Max (o protagonista da saga). Em estrada da Fúria, o diretor e roteirista George Miller (que também é responsável pelos filmes originais) fez uma releitura de sua própria obra.

SPOILERS LEVES

Neste universo distópico, a humanidade sucumbiu e o planeta é um grande deserto, Wasteland, em tons avermelhados para todos os lados. Há grupos isolados de seres humanos, uma existência dura, onde todos os sobreviventes são guerreiros. Dentro deste contexto, os conflitos que já temos hoje por petróleo e água são extrapolados. Assim, quem tem o controle sobre os recursos ganha contornos messiânicos. Nesta religiosidade de oportunidade, Immortan Joe, o falso messias que supostamente voltou dos mortos, comanda a Cidadela (uma torre de pedra erguida sobre um aquífero), ladeado por um séquito de guerreiros, os War Boys, capazes de morrer para adentrar Valhalla, o paraíso.

Immortan Joe tem uma imagem impactante, usa uma máscara para respiração decorada como uma caveira com dentes de cavalo e uma armadura plástica para proteger a sua pele coberta de bolhas. Não se sabe o passado de Joe, portanto não importa saber como se deu esta transformação física, mas ela certamente referencia a outro vilão icônico, Darth Vader, e nos faz questionar em que ponto Immortan Joe sucumbiu ao mal, onde perdeu sua humanidade. Joe tem dois filhos, Corpus Colossus e Rictus Erectus, o primeiro muito inteligente, porém possui alguma deficiência de crescimento, o segundo não chegamos a conhecer bem, mas sabemos que é um maiores guerreiros de Cidadela. Joe ainda está em busca de um herdeiro para perpetuar seu legado.

Imagem: Reprodução / Facebook
Imagem: Reprodução / Facebook

 Com este objetivo, Joe possui um pequeno harém, onde mantém cinco mulheres como escravas sexuais. É importante frisar, porém, que neste universo não são apenas as mulheres do harém de Joe que são tratadas como objeto. Os seres humanos de forma geral são tratados de forma totalmente utilitarista por Joe, os próprios War Boys em seu desespero por salvação são usados como armas de guerra. Mesmo o protagonista que dá nome ao filme, Max, é capturado em Wasteland para servir como BloodBag, doador de sangue. Num universo de guerreiros, há um cuidado com o tratamento das feridas de guerra, ainda que seja uma medicina rudimentar. Assim, todos tem uma “função” que os torna, de alguma forma, menos sujeitos.

Entretanto, no tocante à objetificação, há uma cena especialmente perturbadora em que vemos mulheres sendo ordenhadas como se fossem vacas, pois o leite humano, aparentemente, é o único que sobrou no mundo e leite tornou-se uma iguaria. As mulheres ordenhadas são aquelas que fazem parte do séquito de Joe, cuja única opção é ficar para não morrer nas areias do deserto. Novamente, como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas. Esta força feminista que transborda da mensagem do filme foi ampliada pela forma como George Miller conduziu sua obra.

Ao lidar com o tema da escravidão sexual, George Miller pediu a consultoria de Eve Ensler. Para quem não a conhece, Eve Ensler foi a criadora da peça “Monólogos da Vagina”, de 1996. A peça, que trata de assuntos como sexo, amor, menstrução, multilação genital, masturbação e estupro, entre outros, já foi traduzida em mais de 40 línguas e encenada em mais de 140 países. Eve criou o V-Day movement, um dia para levantar fundos para organizações de proteção às mulheres. Eve viajou o mundo conhecendo as mais diversas culturas e histórias de mulheres, perguntando a elas como ela poderia ajudar, como os fundos do V-Day poderiam ser aplicados para melhorar suas vidas. A participação de Eve no projeto sedimenta a tendência feminista do filme.

No rol de decisões acertadas, George Miller incumbiu sua esposa, Margaret Sixel, de fazer o corte final do longa, evitando colocar o projeto nas mãos das pessoas que costumam realizar este trabalho em Hollywood, que sabemos, já está cheia de vícios machistas nos filmes de ação. George Miller escolheu se cercar de mulheres neste projeto, o resultado é um longa que ninguém pode acusar de ser menos divertido que qualquer outro Mad Max, ao contrário, eu acredito que este é o mais representativo da franquia. Ação do começo ao fim. Eu não sou a maior fã de filmes de ação, mas neste caso não é uma ação cansativa como acontece, por exemplo, nos Transformers de Michael Bay, onde há uma confusão de peças metálicas na tela e ficamos observando sem saber exatamente o que está acontecendo. Em Mad Max a ação é filmada em planos estáticos, longos e bem marcados, nós sabemos exatamente o que está acontecendo e isto não torna o filme menos emocionante.

SPOILERS SEVEROS

Imagem: Reprodução / Facebook
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A condução da sinopse traça aspectos feministas do filme. O protagonista Max, um guerreiro solitário, porém dotado de uma consciência, ajudaria as esposas do vilão Joe a escapar da escravidão sexual a que eram submetidas. Entretanto, Miller percebeu o quanto seria machista ver um homem resgatando as mulheres que pertenciam a outro homem. Somente uma mulher poderia receber esta tarefa, somente uma mulher seria realmente capaz de resgatar outras mulheres, porque uma se espelharia na outra, seriam iguais. Surge então a outra protagonista do filme, a Imperatriz Furiosa (MEU DEUS, já começa lacrando no nome!), interpretada brilhantemente por Charlize Theron. Uma heroína como poucas na história do cinema de ação. Para mim é impossível não colocá-la ao lado de Katniss (Jogos Vorazes), Ripley (Alien) e Sarah Connor (Teminator 2). Furiosa costumava trabalhar para Joe, porém, em busca de redenção, rouba uma máquina de guerra e tenta levar as esposas para a sua terra natal, o Vale Verde. Na fuga, Max acaba se aliando a elas. Max e Furiosa são os protagonistas, mas Furiosa é a líder da missão, Max inclusive obedece suas ordens. Talvez este seja o maior incômodo dos machinhos com o filme, não aguentaram ver uma mulher em posição de comando.
Furiosa é uma mulher com uma deficiência física, ela não tem um de seus braços e usa uma prótese mecânica. Assim como os War Boys, ela tem a cabeça raspada, usa roupas funcionais para uma guerreira e tem uma força física tremenda, a ponto de entrar numa briga corpo-a-corpo com Max. Aliás, esta cena da briga no encontro inicial deles foi especialmente importante para evidenciar que as mulheres neste filme não são bibelôs. Passamos a conhecer um pouco melhor Cheedo, Toast, Capable, Dag e Angharad, as esposas. Não se engane com as roupas curtas e pele à mostra, que servem como recordação de como as esposas foram tratadas até então, como objetos, não para mantê-las no mesmo status. Ancoro essa opinião, primeiro, pelo impacto de ver as esposas cortando seus cintos de castidade, uma cena de forte simbolismo. Segundo, porque as esposas, duas delas grávidas, também são movidas por seu instinto de sobrevivência e não estão ali apenas para agir como uma carga a ser transportada, elas lutam e participam ativamente da ação do filme. E principalmente porque todas elas tem personalidade própria e até mesmo conflitos internos sobre fugir ou não.

Elas não são belas donzelas em perigo, são mulheres empoderadas assumindo os riscos de escapar de seu algoz. Outra coisa interessante é como elas, as esposas, defendem os War Boys, embora eles as estejam caçando a serviço de Joe, elas conseguem ver através da situação e enxergar o verdadeiro inimigo. Os War Boys, assim como elas, são meros objetos para Joe. As esposas são dotadas de inteligência e sensibilidade, até mesmo destoando um pouco da crueldade do mundo que as cerca. Por sinal, outra cena digna de nota, perturbadora, grotesca, de uma cesária nos mostra que essa crueldade é o modus operandi do mundo de Mad Max.

Imagem: Reprodução / Facebook
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Não bastasse todo o cuidado em representar estas mulheres, nós também somos presenteados com um gangue de motoqueiras guerreiras idosas. E pelo aspecto físico, uma delas é indígena. Considere o quanto é raro ver uma mulher idosa no cinema sem que ela esteja encenando alguém que lida com a perda de memória ou morrendo em camas de hospitais. Em Mad Max, as mulheres idosas são pessoas poderosas, imagine o quanto é difícil chegar aos 70 anos em um ambiente inóspito cheio de conflitos? Contudo, é mesmo Charlize Theron que rouba todas as cenas com sua determinação, destreza e força, mas também emociona quando percebe que seu objetivo maior pode não ser alcançado e nos mostra que Furiosa é apenas humana, passando por este mundo, fazendo o melhor que pode.

Em geral, histórias sobre mulheres ou produzidas por mulheres, são demarcadas por gênero, ou seja, são encaradas como obras de público alvo exclusivamente feminino. E personagens femininas normalmente não são admiradas por homens. Embora eu, mesmo mulher, me sinta representada por vários personagens masculinos da ficção, o oposto é muito raro. Eu creio que em Mad Max conseguiram quebrar essas duas barreiras comuns no cinema, fazer um filme com mulheres sem demarcar o filme com um único gênero e fazer uma personagem que inspira homens e mulheres. Já chega de sermos alocadas sempre como subgênero e público de menor importância na cultura pop. Histórias sobre mulheres podem ser divertidas e lucrativas e veja só, elas ainda são um campo a explorar, pois ainda não foram contadas na mesma medida que as histórias masculinas, parece que Hollywood começa a perceber isto.

Foto de capa: Reprodução / Facebook



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