Dia Mundial contra a Monsanto: por que essa discussão tem a ver com você

A Monsanto é uma das maiores produtoras de agrotóxicos do mundo e o Brasil lidera a lista de consumidores desses herbicidas. A relação entre os dois tem gerado desconforto, principalmente com o estudo recente lançado pela OMS, que confirma o potencial cancerígeno de componentes...

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A Monsanto é uma das maiores produtoras de agrotóxicos do mundo e o Brasil lidera a lista de consumidores desses herbicidas. A relação entre os dois tem gerado desconforto, principalmente com o estudo recente lançado pela OMS, que confirma o potencial cancerígeno de componentes comercializados pela empresa

Por Maíra Streit

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Marcha contra a Monsanto será realizada em várias partes do mundo (Foto: Rafael Stédile)

Dezenas de países estão se mobilizando para a Marcha Mundial contra a Monsanto, prevista para acontecer neste sábado (23). O objetivo do protesto é chamar a atenção para os riscos causados pelos produtos comercializados pela corporação. Mas, antes que você pense que esse assunto faz parte de uma realidade distante, saiba que a empresa está mais presente no seu dia a dia do que poderia imaginar.

O fato é que a Monsanto se encontra entre as maiores produtoras de herbicidas do mundo. Ela atua ainda no ramo de sementes transgênicas, em que controla 90% do mercado, tornando-se um dos mais expressivos monopólios já registrados até hoje. Com sede no Brasil desde 1963, 70% da produção de soja do país, para se ter uma ideia, é derivada de suas sementes. Em um crescimento vertiginoso nos últimos anos, ela figura entre as cem empresas mais lucrativas dos Estados Unidos.

No entanto, os críticos da companhia afirmam que todo esse sucesso foi adquirido às custas de prejuízos incalculáveis para o meio ambiente, os pequenos agricultores e a saúde da população em geral. Não são poucos os indícios que relacionam o consumo dos produtos da Monsanto com incidência de doenças como câncer, anencefalia, hipotireoidismo, autismo, além de problemas renais e cardíacos, dentre outros.

O grande vilão atenderia pelo nome de glifosato, agrotóxico que registra o maior número de vendas atualmente e é usado, desde 1974, com o nome comercial Roundup. Um estudo recente da Agência Internacional para Investigação sobre Câncer (IARC, sigla em inglês), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), confirmou a classificação do componente como agente potencial de câncer em humanos e animais. O levantamento foi realizado durante um ano por 17 pesquisadores de onze países diferentes.

O Ministério Público Federal já entrou com uma ação recomendando que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determine o banimento do herbicida no mercado brasileiro. Foi apresentada também uma petição à Justiça em que se reforça o pedido para proibir a concessão de novos registros de agrotóxicos que contenham oito ingredientes ativos – entre eles o glifosato – condenados por organismos internacionais.

Mortes comprovadas

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Brasil é campeão mundial no consumo de agrotóxicos (Foto: Fernando Frazão/ABr)

A confirmação da existência de mortes provocadas pelos componentes dos produtos usados na agricultura brasileira também é mencionada na petição, com base nos documentos dos Centros de Informações e Assistência Toxicológica do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que atestam o registro de onze, 41 e 36 mortes, respectivamente, entre os anos de 2009 e 2013. Em todos os casos, os dados informam que os óbitos decorreram “da exposição aguda aos ingredientes dos agrotóxicos”.

O procurador Anselmo Lopes, responsável pela ação, acredita que os números seriam, na realidade, muito maiores do que os notificados. Ao formalizar sua justificativa, ele lembra que tanto a OMS quanto o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimam que, nos próximos cinco anos, o câncer será a principal causa de mortes no Brasil, fato que se deve, em grande parte, ao aumento no uso de agrotóxicos.

O país, aliás, é campeão mundial no consumo de herbicidas. A média por habitante é de 5,2 litros de veneno por ano. O pesquisador da Embrapa Hortaliças Vicente Eduardo Almeida explica a estratégia utilizada pela Monsanto para aumentar os lucros nessa área. As sementes geneticamente modificadas vendidas pela empresa têm incorporada em suas características uma tolerância ao glifosato. Assim, quem usa as sementes se vê obrigado a comprar também os agrotóxicos da mesma marca, obrigando o produtor a pagar royalties e criar uma relação de dependência diante da transnacional.

“A Monsanto tem a patente do glifosato e acaba nos levando a imaginar que a indução a um maior consumo do veneno venha do interesse econômico. E se compararmos a soja tradicional e a transgênica, ela não mostra aumento na produtividade. Não se justificou sob esse ponto de vista. Do ponto de vista ambiental e da saúde, também não. Pelo contrário, aumentaram os riscos”, alerta.

Histórico

Se formos buscar no passado, a gigante da biotecnologia traz ainda um histórico bastante nebuloso. Durante a guerra do Vietnã, nos anos 1960, o herbicida conhecido como “agente laranja” foi usado pelos militares norte-americanos para desfolhar as árvores da selva tropical no país adversário. A mistura de dois tóxicos poderosos – o 2,4,5-T (ácido Triclorofenoxiacético) e o 2,4-D (ácido Diclorofenoxiacético) – era fornecida por várias empresas, mas o da Monsanto foi considerada a mais forte por conter níveis maiores de dioxinas. Como já foi comprovado, as dioxinas são carcinogênicas e teratogênicas (geram má formação fetal).

Por conta disso, a Monsanto foi acusada pelos veteranos de guerra, após o conflito, de propiciar uma série de doenças vinculadas à exposição ao agente. Entre os nativos, a estimativa é de que 500 mil crianças do Vietnã nascidas desde a década de 1960 apresentaram deformidades relacionadas ao produto. A Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) concluiu que estudos foram manipulados para mascarar os perigos do agente laranja. À época, a Monsanto teve que pagar US$ 16 milhões pelos danos causados.

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Estudos alertam para a relação entre herbicidas e o aumento na incidência de câncer (Foto: Agroecologia.org)

Além do levantamento da OMS publicado em 2015, outras pesquisas indicaram riscos trazidos pelas substâncias utilizadas pela companhia. Um estudo de 2009 do Journal of Biologycal Science mostrou efeitos danosos nos rins e no fígado, devido ao consumo do milho proveniente de semente geneticamente modificada. Outro estudo, divulgado em 2012 na Food And Chemical Toxicology comprovou que ratos que se alimentavam à base de organismos geneticamente modificados estavam mais propensos ao câncer e morriam mais rápido do que os demais.

Nos Estados Unidos, país de origem da empresa, o cantor Neil Young acaba de lançar o disco “Monsanto Years”, com músicas de protesto contra a gigante do agrotóxico. O álbum é uma parceria entre o músico e o grupo Promise Of The Real, do qual fazem parte Lukas e Micah Nelson, filhos de Willie Nelson. Outro artista que veio a público mostrar seu descontentamento com as práticas da corporação foi o ator Chuck Norris, que escreveu um artigo alertando a população e o governo sobre os danos que o uso do glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, pode causar à saúde global.

Lobby político

Mas, se as provas desses malefícios estão cada vez mais evidentes, por que a Monsanto atua sem maiores impedimentos e, inclusive, parece expandir os seus negócios? Na opinião de Flávia Londres, membro da secretaria-executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a resposta está no intenso lobby político realizado em várias partes do mundo. E, no Brasil, não seria diferente.

Ela lembra a atuação da bancada ruralista no Congresso Nacional, que defende interesses específicos, motivada pelo financiamento de campanhas oferecido pelas empresas do setor. E, nesse jogo, os cidadãos seriam os maiores prejudicados. Flávia cita como exemplo o projeto de lei 4.148/2008, de autoria do deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), que propõe a não obrigatoriedade da rotulagem de alimentos à base de organismos geneticamente modificados, aprovado por ampla maioria na Câmara no final de abril.

Para ela, esse seria um caso emblemático da tentativa de impedir que as pessoas tenham acesso a informações daquilo que está sendo ingerido no dia a dia. “Precisamos de uma reforma política para acabar com o financiamento privado de campanha e também de uma conscientização da população sobre isso. Tem um Plano Nacional de Agroecologia em curso, mas as políticas do agronegócio ainda nadam de braçada. A gente precisa de mais apoio”, destacou.

Pressão popular

A ativista aposta na pressão popular como uma forma de pressionar parlamentares e, por isso, considera importantes as mobilizações como as que ocorrerão no próximo sábado. “Isso depende de uma população questionadora, que possa estar cobrando uma mudança de rumos”, concluiu.

Também circulam denúncias de que, como a empresa investe rios de dinheiro em instituições públicas de ensino, teria em troca uma gama de pesquisas técnicas e científicas favoráveis aos seus produtos. Tentando contrapor muitos desses argumentos, uma petição no Avaaz reúne mais de 1,4 milhão de assinaturas e critica as irregularidades em uma carta voltada à Anvisa, Ministérios da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente, além de autoridades dos Estados Unidos, União Europeia e Canadá.

Procurada pela Fórum, a assessoria da Monsanto no Brasil informou que está consciente das manifestações e que “há diferentes pontos de vista sobre essas questões”, considerando importante que “todos possam expressar e compartilhar suas opiniões”. Em nota, garantiu que a segurança dos produtos é uma prioridade para a empresa e contestou as conclusões do estudo apresentado pela Agência Internacional para Investigação sobre Câncer, negando qualquer potencial carcinogênico do glifosato.

Assista abaixo ao documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, realizado pela jornalista francesa Marie-Monique Robin:


(Foto de capa: Divulgação/Marcha contra a Monsanto)



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