Minorias correm mais perigo com governos do que com extremistas

No Oriente Médio, minorias étnicas ou religiosas são ameaçadas, atacadas e expulsas de seus países de origem por organizações extremistas como Al Qaeda e Estado Islâmico (EI). Mas um novo estudo afirma que o risco maior que correm as populações da região procede de...

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No Oriente Médio, minorias étnicas ou religiosas são ameaçadas, atacadas e expulsas de seus países de origem por organizações extremistas como Al Qaeda e Estado Islâmico (EI). Mas um novo estudo afirma que o risco maior que correm as populações da região procede de seus próprios governos

Por Thafli Deen, do Envolverde/IPS

No conflitante Oriente Médio, as minorias étnicas ou religiosas são ameaçadas, atacadas e expulsas de seus países de origem por organizações extremistas como Al Qaeda e Estado Islâmico (EI). Mas, um novo estudo publicado no dia 20 deste mês pela organização independente Minority Rights Group International (MRG), com sede em Londres, afirma que o risco maior que correm as populações da região procede de seus próprios governos.

Entre as minorias atacadas estão yazidíes, turcomanos, shabaks, curdos e cristãos coptos e assírios.

Mark Lattimer, diretor-executivo da MRG, disse à IPS que a ameaça que implicam os movimentos extremistas para as minorias é muito real, “mas, no geral, não é tão grande como a ameaça de seus próprios governos”. Em lugares tão remotos entre si como Birmânia, Rússia e Sudão, as minorias sofrem ataques sistemáticos dos governos que, se supõe, devem protegê-las, acrescentou.

Na Síria, embora muitas minorias agora vivam em enclaves controlados pelo governo, o saldo da população civil morta na guerra civil se deve mais aos ataques governamentais do que aos realizados pelas forças opositoras, afirmou Lattimer. Mais de 200 mil pessoas morreram no conflito que começou em março de 2011, e aproximadamente metade dos 18 milhões de habitantes da Síria tiveram que abandonar suas casas devido às hostilidades, que continuam piorando.

Pela primeira vez, o conflito sírio encabeça a lista de Povos sob Ameaça que a MRG realiza a cada ano. O sectarismo extremo se estendeu por grande parte do país, e quase todas as comunidades cristãs vivem agora em enclaves em zonas controladas pelo governo, segundo o informe. Somente nas regiões do norte em poder curdo houve uma tentativa séria de estabelecer uma democracia inclusiva, afirmou a MRG.

O índice mostra que os níveis de ameaça da população civil aumentaram consideravelmente em sete países, Afeganistão, Egito, Iraque, Líbano, Líbia, Síria e Iêmen, tanto em 2014 como no ano em curso. Perguntado o que a Organização das Nações Unidas (ONU) pode fazer para proteger os direitos das minorias, Lattimer respondeu que milhares de funcionários do fórum mundial em todo o planeta trabalham com afinco para proteger as comunidades que são minorias.

Entretanto, a ONU em seu conjunto com frequência adota um enfoque reativo, e somente presta atenção quando as violações dos direitos humanos das minorias são extremas, destacou Lattimer. Essa situação poderia melhorar enormemente se as minorias fossem incluídas de forma habitual nos projetos de desenvolvimento, se pudessem participar plenamente da vida pública e se estivessem representadas nas negociações de paz, acrescentou.

O Iraque encabeçava o índice de Povos sob Ameaça quando este foi publicado pela primeira vez em 2006, e nos anos seguintes nunca deixou de ocupar os primeiros lugares. Mais de 14 mil civis morreram nesse país em 2014, muitos deles em massacres cometidos pelo extremista EI, na medida em que expulsava as comunidades minoritárias, incluídos yazidies, shabaks, caldeu-assírios e turcomanos, de Mosul, Sinjar e da planície de Nínive.

Milhares de mulheres e meninas yazidíes permanecem em cativeiro do EI, e o risco continua sendo grave para as comunidades xiitas ameaçadas por esse grupo extremista, bem como para os sunitas em risco de sofrerem represálias por parte das forças de segurança iraquianas e das milícias xiitas aliadas, segundo a MRG.

O conflito na República Centro-Africana, que subiu quatro lugares e esse ano ocupa o número 10 na lista da MRG, continuou entre os outrora rebeldes sélekas, majoritariamente muçulmanos, e as guerrilhas antibalakas, compostas principalmente por cristãos.

Mais de 850 mil pessoas, quase um quinto dos pouco mais de cinco milhões de habitantes do país, eram refugiados ou deslocados internos no final de 2014, e dezenas de milhares fugiram de suas casas nos primeiros meses de 2015. Dirigentes sélekas e antibalakas assinaram um polêmico acordo de paz em abril, em Nairóbi, no Quênia.

O Egito subiu três posições no índice deste ano, segundo o estudo. Os combates em curso e medidas de segurança mais rigorosas afetaram a vida dos beduínos do Sinai, que sofrem marginalização política e econômica há décadas. Continuaram as criticas dos ativistas de direitos humanos ao governo por fazer muito pouco para garantir a segurança das comunidades coptas e outras de fé cristã, especialmente no Alto Egito, onde pessoas, suas casas e lugares de culto sofrem ataques de maneira corrente.

Na China, que subiu 15 lugares na lista, houve uma forte escalada nas táticas utilizadas pelas guerrilhas uigures que buscam a independência da Região Autonoma Uigur de Sinkiang. Mais de 200 pessoas morreram nos ataques guerrilheiros, centenas foram detidas de forma maciça e dezenas acabaram condenadas a penas de morte.

Pouco se fez, segundo a MRG, para remediar o subdesenvolvimento e a exclusão que sofrem as comunidades uigures e que está na origem dos distúrbios. A estratégia do governo de qualificar de terroristas os ativistas uigures de direitos humanos impediu a melhora da situação.

O regresso de um estilo de governo mais autocrático na Rússia, que ocupa o 16º lugar na lista da MRG, coincidiu com o aumento da xenofobia na sociedade russa contra os migrantes, sejam estrangeiros ou do Cáucaso, segundo a organização. Mas a ameaça é maior no próprio Cáucaso do Norte, onde continuam os enfrentamentos entre as forças russas e os separatistas islâmicos na Chechênia, Ingusetia, Kabardia-Balkaria e, sobretudo, no Daguestão, acrescenta o informe.

Foto: PHAN April Hatton



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