Em 1973, Allende criava projeto de ‘internet socialista’ para (tentar) evitar golpe

Desenhado por cientista britânico, sistema de informações inédito ligava as empresas estatais do país por meio de rede de computadores; ferramenta foi usada para acelerar resposta do governo e evitar desestabilização

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Desenhado por cientista britânico, sistema de informações inédito ligava as empresas estatais do país por meio de rede de computadores; ferramenta foi usada para acelerar resposta do governo e evitar desestabilização

Por Victor Farinelli, no Opera Mundi 

Santiago do Chile, novembro de 1972. A greve de caminhoneiros já durava três semanas, situação que começava a provocar os primeiros efeitos na capital chilena. Diante dos primeiros sinais de descontentamento popular e forte pressão da imprensa, o presidente Salvador Allende pega o telefone: “Busquem o sr. Beer. Chegou a hora de provar o que ele tem para nós”.

O britânico Anthony Stafford Beer era um cientista que desde 1971 se dividia entre Londres e Santiago, deixando seu antigo trabalho de desenvolvimento de novas tecnologias de controle de informação para grandes corporações europeias em segundo plano para dar início ao que ele pensava ser o grande projeto da sua vida: o chileno Cybersyn — um sistema de informação integrado projetado para monitorar a atividade econômica das 472 empresas do país ligadas ao Estado chileno.

Meses antes da greve, Beer havia pedido a Allende uma oportunidade para testar o projeto. O próprio presidente tinha dúvidas a respeito do sistema, e havia riscos em colocá-lo à pova numa situação de crise real. Mesmo assim, Allende decidiu que a greve de caminhoeiros era o momento certo.

Antes que Beer pudesse pegar o primeiro voo Londres-Santiago, a equipe do Projeto Cybersyn no Chile colocou o sistema para funcionar. Em diferentes pontos da capital e da Grande Santiago, começaram a ser enviados dados, por telefone ou telex, para o centro de operações — chamado de opsroom — que, em menos de duas horas, fez um levantamento do conteúdo de quatro grandes armazéns de mantimentos da capital, ligados às empresas estatais. Com essa informação, o governo implantou um novo esquema de abastecimento da capital, com os poucos caminhoneiros que não haviam aderido à greve e com o (irônico) auxílio de veículos das Forças Armadas.

À medida que a quantidade de produtos diminuía nos armazéns, o governo sabia com rapidez onde buscar mais recursos. Por exemplo: se o que começava a faltar era leite, o Exército enviava um furgão até o sul do país ou à Argentina para buscar mais. Se o que faltava eram frutas e legumes, o opsroom produzia em questão de minutos um informe com as regiões onde o desabastecimento era maior, e onde recorrer para resolver o problema. Nos casos de mercados controlados por empresas estatais, a mesma lógica: a ferramenta indicava onde o governo deveria alocar mais ou menos recursos, de acordo com as circunstâncias, analisadas em pouco tempo.

Assim nasceu SYNCO

O teste de fogo acabou sendo um sucesso. Apesar de não ter evitado completamente os efeitos da greve, conseguiu contê-los por algumas semanas em quase toda a cidade, e impediu, especialmente, que fossem sentidos nos setores mais pobres, o público-alvo da Unidade Popular — termo pelo qual se conhece o governo do socialista Salvador Allende.

Até aquele momento, o Projeto Cybersyn era apenas uma aventura em que Allende apostava, mas pensando em resultados a longo prazo. Foi proposto em 1971 pela Corfo (Corporação de Fomento da Produção), através de seu diretor, o engenheiro Fernando Flores, e do matemático boliviano Raúl Espejo. Ambos tinham o sonho de trazer para o Chile o cientista Stafford Beer, conhecido mundialmente na época por seus trabalhos no campo da cibernética. Fizeram o convite e se surpreenderam com a resposta positiva e ansiosa do britânico.

Os resultados daquele teste, no final de 1972, depois de pouco mais de um ano de desenvolvimento, entusiasmaram o presidente, e foram decisivas na promoção de Flores ao cargo de ministro da Economia, através do qual continuaria comandando tanto a Corfo quanto o projeto cibernético socialista. Allende deu maior prioridade ao acabamento técnico da ferramenta, que ganhou mais verba orçamentária e novos computadores, além de um departamento especial para funcionar como programa oficial de governo. Dessa forma, recebeu seu nome definitivo: SYNCO – Sistema de Informação e Controle.

Para se ter uma ideia do avanço que o projeto chileno representava basta dizer que, naquele mesmo ano de 1972, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos desenvolvia e testava a ARPANET, percursora da Internet que conhecemos hoje, mas ainda sem nenhuma aplicação civil.

“A história real do SYNCO é fascinante, não só porque seu desenho propunha uma espécie de internet antes da internet como nós conhecemos, e que talvez tivesse se desenvolvido de forma diferente à que temos hoje, como também pelo contexto”, descreve o escritor Jorge Baradit, autor de um livro de ficção sobre o projeto cibernético. “Era uma internet socialista num mundo onde a Guerra Fria estava em seu momento mais tenso, em ponto de ebulição”, argumenta.

Como atuaria o SYNCO

Quando estivesse funcionando plenamente, SYNCO ligaria todas as empresas estatais do país através de uma rede de computadores (um conceito que por si só era difícil de explicar na época) que gerasse informação quase em tempo real, dando ao Estado uma agilidade ainda maior que a do breve teste durante a greve dos caminhoneiros.

A ideia animou ainda mais o presidente, que estipulou o mês de agosto de 1973 como data ideal para o lançamento definitivo do sistema — o golpe militar, como se sabe hoje, se consumaria em 11 de setembro daquele ano. Allende pediu, ainda, cautela aos envolvidos. Os funcionários deveriam evitar falar com terceiros sobre os rumos do projeto, para que a informação não chegasse a grupos que tentavam desestabilizar o governo.

“Esse foi o momento mais constrangedor do encontro, porque, além de haver a suspeita de que havia gente infiltrada no projeto, alguns dos membros da equipe técnica eram declaradamente de direita e simpáticos a partidos de oposição ao governo. Não havia dúvida que vazavam informação”. O testemunho do cenário é de Guillermo Toro, um ‘operador nível três’ recém integrado ao projeto —  ele nem chegou a participar da fase de testes durante a greve dos caminhoneiros, no mês anterior.

A forma como Toro se tornou parte daquela aventura cibernética serve como prova dos rumores em torno daquele encontro. Economista recém formado pela Universidade Católica, não foi aceito como funcionário da Corfo porque não tinha filiação partidária, requisito para trabalhar em alguns ministérios durante a gestão da Unidade Popular. Foi, então, recomendado para um projeto paralelo da Corfo, “que precisava de alguém para criar fórmulas de redução de informação”, segundo conta a Opera Mundi o próprio Toro, e que não exigia nenhuma militância político-partidária.

Assim, o jovem economista foi apresentado ao matemático boliviano Raúl Espejo, o diretor-chefe do projeto. “Beer era um gênio, foi ele quem fez o desenho do sistema como um todo. Mas quem dirigia operacionalmente e analisava diariamente a evolução do Cybersyn era o Raúl”, segundo Toro, que resumia sua função em “filtrar as informações captadas a um modelo de no máximo dez variáveis que desse uma visão completa da economia do país, para que, a partir daí, o nível 5 do sistema, que era o presidente, pudesse tomar decisões mais rápidas e dar mais agilidade ao governo diante dos problemas”. Em linguagem técnica, o conceito é conhecido como data mining e ainda hoje é bastante utilizado em corporações do mundo inteiro, aplicado em sistemas de apoio a executivos.

Toro lembra ainda que, naqueles anos em que a informática engatinhava no mundo inteiro, um relatório com índices econômicos precisos demorava meses para ser produzido, e geralmente só chegava às mãos de uma autoridade econômica quando sua informação já estava obsoleta. “SYNCO distribuía poder, porque dava voz a todas as empresas estatais no processo de tomada de decisões. Todas elas tinham direito a transmitir seus resultados e suas necessidades, e em coisa de minutos. Não chegava a ser em tempo real, estamos falando da época do cartão perfurado, mas era uma velocidade espantosa para aquele então”, descreve o analista.

Corpo Humano

Guillermo Toro e outros 30 ‘operadores nível 3’, técnicos econômicos e cibernéticos, estavam bem no centro do fluxograma de Stafford Beer, onde o nível 4 era ocupado por Fernando Flores, Raúl Espejo e outros ministros no degrau anterior ao da instância de tomada de decisões.

Ao explicar o funcionamento da plataforma ao presidente chileno, Beer usou uma analogia adequada à profissão de Allende (médico):

– SYNCO fará a economia chilena funcionar como um corpo humano perfeito, parte do sistema serão os membros, a parte central serão os órgãos responsáveis pela produção, entre eles o coração, que juntos mantêm essa economia viva. Mais acima temos os sentidos. E aqui no topo, o cérebro…

Neste momento, Beer fez uma pausa, buscando o ar para poder dizer, solenemente, “aqui estará o senhor, companheiro presidente”. Mas Allende o interrompeu:

– Finalmente! Aqui estará o povo.

Antes do ‘www.’, a internet socialista

Mais do que um instrumento dedicado somente ao monitoramento da economia chilena, o projeto SYNCO, na cabeça do excêntrico Stafford Beer, deveria dedicar-se também a toda a sociedade do país. O desenho avançado do projeto alcançaria tanto as empresas quanto as casas de todo o país.

Em suas visitas ao Chile, Beer não se dedicava somente ao trabalho em Cybersyn, mas também a conhecer pessoas e fazer amigos, e onde mais conseguiu amigos foi no mundo artístico. Um deles foi o cantor e compositor Víctor Jara, a quem foi apresentado pela esposa do músico, a bailarina Joan Turner, também britânica. A partir de então, se tornaram bastante ligados, tanto pelo gosto de Beer pela cultura quanto pelo interesse de Jara pela tecnologia — o cantor era ex-aluno e funcionário da Universidade Técnica do Estado, lugar onde, posteriormente, seria capturado pelo Exército, antes de ser torturado e assassinado.

As conversas de Beer com os artistas chilenos empurraram Beer a buscar um projeto menos preso às metas econômicas do governo, e que tivesse um resultado mais próximo das pessoas. Pensava numa rede de computadores que pudesse ser acessada pelas pessoas em suas casas, que cada lar chileno pudesse ter um terminal do SYNCO, onde se poderia transmitir informação sobre necessidades econômicas pessoais ou comunitárias, e também pesquisar dados sobre o desempenho da economia e outras informações a respeito do que acontecia no país.

Essa parte “social” do Projeto Cybersyn, segundo testemunho do próprio cientista em palestras sobre o assunto, jamais chegou a ser apresentada para o presidente Salvador Allende, mas foi estudada e explorada pelo escritor Jorge Baradit, autor de livro de ficção cuja história em nada se parece com os episódios da política chilena daqueles anos. Em seu romance de ficção científica — intitulado SYNCO, sucesso de público e crítica no país —, Baradit descreve um cenário inverso, como pode ser visto logo na chamada da capa da obra: “Chile 1973, Pinochet impede o golpe e Allende cria o primeiro Estado cibernético da história”.

“Depois de reunir tanta informação, a cabeça viajou quase naturalmente para um mundo paralelo, onde SYNCO havia dado certo e criado uma nova versão da história que precisava ser desenvolvida”, conta o autor, sobre os detalhes do processo de criação. O livro também gerou uma sinistra página de internet (http://www.baradit.cl/synco/) e um projeto cinematográfico, que por enquanto está em fase de pré-produção.

Além da ficção de Baradit, outro livro importante sobre o Projeto Cybersyn se chamaRevolucionarios Cibernéticos, escrito pela pesquisadora estadunidense Eden Medina, e que faz um relato mais documental do que foi realizado, com detalhes técnicos e análises dos métodos utilizados, além de fotos e gráficos recriando o desenho do projeto segundo Stafford Beer.

Foto: Wikicommons



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