Grupos para mulheres na computação: segregando ou agregando?

Por Ana Paula Gomes – Publicado originalmente em “Em Busca do Sim” Há alguns muitos anos, logo depois de sair do curso técnico, fui chamada para coordenar um setor de manutenção...

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Por Ana Paula Gomes – Publicado originalmente em “Em Busca do Sim”

Há alguns muitos anos, logo depois de sair do curso técnico, fui chamada para coordenar um setor de manutenção de computadores. Neste setor haviam dois técnicos homens e um deles falou diretamente comigo que “não receberia ordens de uma mulher”.

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Desde as piadas maldosas até dizerem que eu era beneficiada por ser mulher, eu já passei. Mas, eu não estou aqui pra ficar resmungando sobre essas situações e sim pra falar um pouco sobre um movimento que está na crista da onda atualmente: mulheres na computação.

Eu mudei de opinião

Quem me conhece de perto sabe que eu não sou feminista. Na verdade, eu não curto muito viver no extremo das coisas: nenhum extremo é bom. E, mesmo tendo vivido momentos de discriminação durante a minha carreira na área de tecnologia, eu nunca tive dificuldade em participar dos eventos, conviver numa boa em ambiente de trabalho com muitos homens e nem de palestrar. Por isso, eu tinha a impressão de que poucas mulheres participavam porque somos poucas em computação. E porque, estatisticamente, estávamos em número reduzido. Até então, eu nunca havia parado para pensar bem a respeito do assunto.

O que aconteceu

No ano passado, fui chamada para liderar o GDG Belo Horizonte, junto com o Rodrigo Antinarelli. O GDG é o Google Developer Group, uma comunidade para desenvolvedores interessados em tecnologias Google. Só que junto com o GDG veio outra responsabilidade que eu não estava esperando muito: o Women Techmakers (WTM). O WTM é um programa do Google que incentiva a participação das mulheres na área de tecnologia. Quando soube dessa minha nova responsabilidade fiquei meio reticente: eu não tinha motivação nenhuma pra fazer algo dedicado para mulheres na área. Tudo bem, nenhuma não. Uns 10% talvez. hahaha

E agora?

Minha primeira hipótese

Comecei a pensar como poderia contribuir nesse grupo de mulheres. Daí, pensei no problema mais óbvio: somos poucas.

Então, eu imaginava que deveria fazer algo mais voltado pra incentivar estudantes do ensino médio a irem pra computação ou ensinar criancinhas a programar. Um passo antes de escolher uma carreira.

Enquanto isso as coisas no GDG estavam a todo vapor. Milhares de eventos rolando e sempre a mesma estatística: 85 ~ 100% de participação masculina. E se aproximava a data de um evento voltado para as mulheres: o Dia Internacional da Mulher (IWD). Por conta da data, a Google faz um evento dedicado as mulheres nas suas respectivas sedes e  nós estávamos escalados na organização deste evento.

Eu estava errada

Durante as preparações para o IWD eu tive contato com duas Googlers, que estavam responsáveis em organizar o evento junto com a gente. Uma do RH e outra Engenheira. No nosso primeiro almoço para discutir o evento eu confessei que não entendia o motivo dessa movimentação toda pra atrair mais mulheres e outras minorias. Eu achava que essas divisões eram mais um motivo para segregar do que agregar qualquer coisa. E que tudo isso era pro “marketing”. (A pessoa aqui é sem limites na honestidade ¬¬)

Depois de me escutar, a moça do RH começou a me explicar sobre algo importante para as empresas: o produto. Não apenas a concepção dele em si mas o retorno que um produto bem sucedido trás: os usuários. A diversidade de uma equipe resulta em um produto que atende melhor as pessoas! E se atende melhor as pessoas, logo, gera receitas maiores. Quanto mais pessoas de backgrounds diferentes estiverem trabalhando em algo, um pouco das experiências de cada um estará refletido ali. Além disso, falamos também sobre a importância da inclusão das minorias e tornar o mundo mais igualitário, quiçá justo.

Meu almoço esfriou. Claro que ela me explicou muito melhor do que esse parágrafo. E eu fiquei pensando muito a respeito e resolvi me pôr à prova: me empenhar e ver o que ia acontecer.

Primeiro passo: olhos e ouvidos atentos as pessoas

Fizemos o evento. E, mesmo não tendo restrição em relação ao sexo, tivemos 80% de participantes do sexo FEMININO. Daí você pensa: claro, o nome do evento era esse. Mas, a chave é justamente essa: ao ver uma imagem feminina no cartaz do evento ou ter um evento direcionado atrai mais mulheres.

Isso me intrigou bastante. Começamos a fazer encontros mensais das mulheres. E essa taxa de participação se mantém. Não faltam mulheres para palestrar e nem para ouvir: falta incentivo.

É impressionante: muitas relatam que existe muito machismo e que muitas vezes são/foram desencorajadas a continuar na área. Aqui um trecho de uma resposta de um formulário que passamos a respeito:

“O mercado de trabalho ainda é preconceituoso com relação a mulheres, você pode ir bem no processo seletivo que se estiver concorrendo com um homem na maioria das vezes ele será selecionado. Na própria faculdade existe um preconceito embutido, tive um professor que ao entrar na sala e deparar com várias mulheres perguntou se tinha entrado na sala de enfermagem por engano.”

“já deixei de me matricular em matérias por acreditar que seria a única menina na sala”

Próximo passo

Em pouco tempo depois desses eventos, outras iniciativas se uniram naturalmente pela causa. A principal delas foi o Minas Dev, uma comunidade de desenvolvedores de Minas Gerais – uma galera muito bacana que movimenta as coisas por aqui.

O Beto Muniz, um dos organizadores deste grupo, sugeriu criar um grupo para que mulheres desenvolvedoras pudessem trocar ideias. Inicialmente eu fiquei meio reticente pensando: “ah, mas já existe o grupo Mulheres na Tecnologia. Ou o grupo X, Y, Z. Será que precisa mesmo?”. Eu sempre fico questionando antes de tomar um passo. :P Então, criamos(Mulheres Desenvolvedoras –  Brasil no Facebook)! A Paula Faria, também organizadora do Minas Dev, ficou à frente também.

Durante a divulgação do grupo muitas pessoas, especialmente homens, se manifestaram contra. Isso mesmo. Alguns chegaram a dizer que isso era uma estratégia para outros homens darem em cima de mulheres, que mulheres são inferiores mesmo e muitas tretas. :(

Resultado

Maaaas, vamos a coisa boa! O resultado foi surpreendente. Não tem nem 5 dias do grupo criado e é “só amor”. Eu fiquei extremamente surpresa com a repercussão: tem muitas garotas foda compartilhando o que sabem fazer e ajudando outras. Nada de ninguém resmungando que sofreu alguma coisa, ao contrário do que poderiam pensar por aí. Várias coisas bacanas tem surgido, como:

“Meu nome é Fulana, trabalho em BH como desenvolvedora back-end com Node.js e C#, principalmente. Pego freelas com wordpress e node sempre que rola… :)
Nas empresas que ja trabalhei e em grupos e reuniões que frequento nunca tem muitas mulheres… então é bom saber que não estou sozinha… hahaha”

“Oi,Meninas!
Eu sei que só mulheres normais
Acho q sou única deficiente auditiva
Meu sonho ser programadora de web, mas..é muito difícil para mim …”

“Olá, gente linda! <3
Meu nome é Ciclana, sou do Rio (cadê as cariocas??) e me identifico com computação desde sempre, tanto que comecei fazendo técnico de informática, depois fiz Engenharia de Computação e agora estou num mestrado na área de processamento de Big Data.
Também sou sócia, desenvolvedora Back End e Gerente de Projetos numa fábrica de softwares. Uso mais Java mas me aventuro no que aparecer. Sou também arquiteta de soluções certificada pela Amazon então se precisarem de ajuda com algo na nuvem da AWS é só me chamar :D
Sou ALOKA dos cursos online e sempre tô fazendo pelo menos um. Meu próximo objetivo é aprender mais sobre gerência de projetos (sou nova nisso) e aprender Ruby on Rails. Se tiverem dicas, serão super bem vindas!
Tô aqui há uns 20 minutos e já tô morrendo de amores por esse grupo hahaha <3″

Queria colar tudo aqui! Tá muito divertido. Mundo novo pra mim esse onde somos maioria… :)

Empresas como o Spotify também tem tido umas iniciativas sensacionais pela diversidade na nossa área. :) Coisalindideuz. Só que apesar disso, ainda tem gente com o cérebro do tamanho de uma titica de galinha que não entende o motivo das iniciativas e ainda faz questão de recriminar e coibir minorias.

Mas, como diria a pensadora contemporânea Taylor Swift (hahaha), “hatters gonna hate”. Se você que é da área não consegue enxergar algo assim como uma mudança positiva, “você está fazendo isso errado”. Eu posso dizer isso porque mudei de opinião e consegui enxergar de diversas maneiras o quão isso é importante.

Ah, dizem por aí que as mulheres ainda não dominaram o mundo porque estão escolhendo a bolsa e o sapato. Pelo o que eu estou vendo, em tecnologia, já temos um look candidato. ;)

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Ana Paula Gomes

Ana Paula Gomes é baiana com muito orgulho, inquieta, curiosa e completamente apaixonada por tecnologia. Atualmente faz o mestrado em Ciência da Computação na Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG) e tem bacharelado em Análise de Sistemas pela Universidade do Estado da Bahia(UNEB). Além disso, líder do Google Developer Groups e Women Techmakers de Belo Horizonte. Adora viajar, ter uma boa conversa, olhar o mar e pensar em aplicativos que tornem a vida das pessoas melhor. Além disso, gosta de movimentar as coisas!

 

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