Brasil 2045: enfim, o paraíso!

O ano é 2045. Em Brasília, os líderes dos principais Partidos reúnem-se com o Presidente Edward Underwood, que está em seu terceiro mandato, já reeleito para o quarto, após duas reformas constitucionais aprovadas em votações intermináveis...

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O ano é 2045.

Em Brasília, os líderes dos principais Partidos reúnem-se com o Presidente Edward Underwood, que está em seu terceiro mandato, já reeleito para o quarto, após duas reformas constitucionais aprovadas em votações intermináveis e nebulosas no Congresso Nacional.

– A criminalidade está insuportável, Presidente. Ninguém aguenta mais, bradam as principais lideranças de situação perante o Chefe do Executivo.

– Vamos reduzir a maioridade penal de novo – diz o Presidente.

– De novo? Na nova Constituição de 2030 já reduzimos para sete anos, Presidente, o Senhor ainda lembra? E por isso mesmo viramos piada Internacional e já há boatos na ONU sobre uma intervenção militar aqui – gagueja um dos parlamentares, lembrando que a foto de crianças chorando atrás das grades nas penitenciárias brasileiras superlotadas viralizou galaticamente, ao ponto em que até nas colonizações de Marte houve protestos.

No Brasil de 2045, as escolas públicas foram fechadas para caber tantas crianças criminosas.

– O Brasil é nosso e aqui ninguém se mete. Qualquer coisa, todos sabem que os EUA nos apóiam – diz o vetusto Presidente que mesmo após tantos anos no cargo e tanta insatisfação popular ainda mete medo no Congresso, de onde saiu direto para a Chefia do Executivo décadas antes.

– Oh my God!!! Nâo apoiam mais não – levanta-se um Senador apavorado, projetando nas paredes do Planalto com a sua retina eletrônica intraocular, a declaração da recém-eleita Presidenta dos EUA, a primeira candidata independente vitoriosa no pleito estadunidense, que ao se pronunciar sobre sua política internacional, afirma que irá convocar de imediato uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para impor sanções ao Brasil caso continue executando menores nas cadeias.

É que em 2045 a pena de morte também foi aprovada no Brasil, após fracassar a primeira redução da maioridade penal que prometia reduzir a criminalidade, décadas antes.

– É, parece que a oposição conseguiu envenenar até nossos grandes aliados do norte – murmura o Presidente.

– A oposição? Nós não temos nada a ver com isso, Senhor Presidente – diz o líder da pouca oposiçãoque sobrou no Brasil de 2045. Ele até daria um tom de deboche à frase, mas como nunca era convidado para nada, ficou com medo de reagir de forma mais enérgica.

– Vamos cortar então o resto daqueles programas, bolsas e realocar todas as suas verbas para as forças de segurança então – grita o Chefe da Nação, batendo com força na mesa.

– Bolsas? Cortamos todas na segunda Constituinte, Presidente, a mesma que privatizou a Petrobrás. Foi por isso que muramos Brasília, o Senhor deve estar lembrado. Sem falar que está faltando gente jovem para nos garantir a segurança, pois os que não morreram ou estão presos ou são criminosos em sua maioria – balbucia outro parlamentar amedrontado, enquanto olha a paisagem vazia para além dos vidros blindadas e fumê do palácio presidencial.

Aquela tensa reunião fora conclamada após boatos de que crianças de cinco anos estariam sendo os novos agentes do crime. Os neurotransmissores que medem o humor e voto em tempo real do País, apontam que a elite do Brasil de 2045 deseja que não exista mais maioridade penal, já que o último decreto presidencial determina que os filhos de presas grávidas fiquem igualmente presos.

O Presidente levanta-se da poltrona e decreta:

– Vamos esterilizar toda a população carcerária então, não há alternativa. Vamos aproveitar logo esta madrugada pois só retorno ao Brasil mês que vem e já tornamos pública hoje a decisão que vocês aprovarão mesmo. Assinamos tudo digitalmente.

É que em 2045 o Presidente passa a maior parte do tempo em sua residência oficial de Miami.

– Presidente, isso não vai adiantar. Já temos a maior população carcerária do mundo e a mais miserável também – lembra outro parlamentar preocupado.

Eis que então o único parlamentar líder da oposição tem a coragem de ser irônico:

– Façamos melhor, Senhor Presidente. Vamos esterilizar todas as mulheres presas, castrar todos os presos e proibir que os miseráveis procriem. É deles que vêm a criminalidade mesmo. Só vejo essa saída para o Brasil. E se não der certo, muramos todos os bolsões de miseráveis e jogamos a chave fora.

O Presidente e todos os demais parlamentares olham estarrecidos para o oposocionista e gritam em conjunto:

– Você está ficando doido??? Que absurdo!

O parlamentar fica envergonhado, surpreso e até anima-se:

– Ufa! Finalmente perceberam que o problema do crime não vêm das crianças nem da miséria? A culpa é nossa!!!

– Não idiota –  respondem todos os outros – a ideia é excelente, pois claro que o problema vêm deles. Mas decretar isso criará um problema real a médio prazo: quem vai pagar o nosso salário no futuro???

– Que Deus nos ajude então! – finaliza o Presidente, já encerrando a reunião e pensando no Mojito que tomará logo logo em Miami.

– Amém! – Gritam todos os outros.

É que em 2045 o Estado não é mais laico e política e religião se misturam. E o Presidente Underwood, claro, é o porta-voz de Deus.

 

 



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