Quem tem medo de hacker?

Normalmente associados a figuras obscuras e criminosas, os hackers estão alinhados ao que há de mais moderno em termos de colaboração, criação de inovações tecnológicas, soluções de problemas e ainda ocupam espaços que vão desde governos, órgãos públicos e organizações até escolas e comunidades...

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Normalmente associados a figuras obscuras e criminosas, os hackers estão alinhados ao que há de mais moderno em termos de colaboração, criação de inovações tecnológicas, soluções de problemas e ainda ocupam espaços que vão desde governos, órgãos públicos e organizações até escolas e comunidades carentes; leia a entrevista e saiba um pouco mais sobre quem são eles e elas

Por Ivan Longo, de Porto Alegre

Nesta semana, uma pane eletrônica nos Estados Unidos – que paralisou, temporariamente, os sistemas da Bolsa de Valores de Nova Iorque, da United Airlines e do Wall Street Journal – assustou os norte-americanos e, apesar das negativas do governo, a imprensa insiste em levantar suspeitas de um ataque cibernético promovido por hackers. O episódio traz à tona, mais uma vez, a interpretação negativa e criminosa que as pessoas têm, de uma maneira geral, em relação aos hackers.

O termo ‘hack’, importado da língua inglesa, começou a ser disseminado em meados da década de 50 entre os engenheiros para designar aqueles que faziam modificações significativas nos sistemas eletrônicos de controle dos trens. Atualmente, quem pratica o ‘hack’ normalmente é entendido como aquele com conhecimento técnico bastante apurado em informática e que tem capacidade de entender e modificar sistemas. Essa, na visão dos hackers, ainda é uma visão superficial. Pior ainda, no entanto, é a conotação pejorativa que o termo carrega para boa parte das pessoas por conta, principalmente, de uma construção da indústria cultural.

Para desmistificar essa figura, Fórum entrevistou três hackers brasileiros diferentes que estão participando do 16º Fórum Internacional Software Livre, em Porto Alegre (RS). Cada um deles atua em um meio diferente. Saiba quem são e confira o que eles disseram sobre seu ‘estilo hacker’ de ser.

Pedro Guerra Brandão

Cientista da computação e hacker que ajudou a implantar o Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados, onde trabalha. Graduado em Ciência da Computação, atua em projetos voltados para a inovação em participação e transparência, tais como Dados Abertos e o portal e-Democracia. 

Adriano Canabarro Teixeira

Hacker e professor do curso de Ciência da Computação da Universidade de Passo Fundo e criador do projeto Escola de Hackers, que ensina esse tipo de cultura para crianças do ensino fundamental das escolas municipais de Passo Fundo.

Kamila Brito

Hacker, empreendedora e criadora do projeto Barco Hacker, que leva o assunto para comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia através de um laboratório montado dentro de um barco, principal meio de locomoção na região.

Fórum – O que é e o que faz um hacker?

Pedro: O hacker é um inovador. Ele trabalha de uma forma muito colaborativa e tem como objetivo o bem maior de sociedade, o de aprimorar alguma coisa. E eu entendo o hacker como um cara técnico: ele entende tão bem daquele sistema, de como as coisas funcionam, que ele começa a adquirir conhecimento, acumular bagagem suficiente para poder modificá-lo, começar a repensar a forma de fazer. É um pensamento subversivo. As pessoas às vezes encaram negativamente. Mas o hacker está questionando aquilo que é o sistema e como as coisas funcionam.

Adriano: O hacker é o cara que é curioso, que está disposto a aprender sempre, que tem uma competência técnica em qualquer área e que quer colocar essa competência técnica e conhecimento a serviço da melhoria do mundo – não importando se vai melhorar o mundo inteiro ou só seu micro mundo e assim por diante.

Kamila: O hacker pode ser qualquer pessoa. Temos que desmistificar que ele está numa área específica. Pode ser qualquer um com desejo de transformar a vida das pessoas, desenvolver, achar soluções para problemas reais de uma comunidade, de uma região, no seu trabalho, no seu espaço. O hacker  tem poder de transformação. Além de ser também um estilo de vida, de ser fora do padrão, do formato estabelecido.

Fórum – Qual a importância do hacker em uma sociedade cada vez mais conectada?

Pedro: Eu acho que o papel do hacker é muito importante e as pessoas estão começando a tomar consciência desse papel. Ele já conhece a coisa bem o suficiente a ponto de já começar a mudar e questionar aquilo ali. Então, ele não aceita que aquilo que exista, que aquele sistema seja daquela forma e precise ser daquela forma. Será que realmente é o melhor jeito de fazer isso? Isso às vezes é muito assustador para as pessoas.

Adriano: Ele é importante porque é a única maneira de se viver no mundo de hoje. A gente tem 97% das informações do mundo digitalizadas. Ou seja, está tudo aí. Você tem uma capacidade de processamento muito grande, e você tem uma impossibilidade de prever o que é importante no mundo daqui a dois anos. Ou seja, ou você aprende a trabalhar com problemas, coletivamente, construindo soluções coletivas que necessariamente tragam melhoria para o mundo… Ou então você não tem lugar nesse mundo. A gente tem 7 bilhões de habitantes e a Terra tem condições de dar conta de 3 bilhões de forma sustentável. Ou seja, a gente precisa mais do que nunca de pessoas que queiram resolver problemas, queiram criar soluções e alternativas e estejam dispostas e tenham habilidades para isso, que é a lógica do hacker.

Kamila: O hacker tem uma relevância fundamental na sociedade. Primeiro, porque a gente consegue absorver informação muito rápido, em tempo real, e já tem o poder de traduzir  aquela informação, de interpretar e de disponibilizar em outros formatos, não só tecnológicos. Mas realmente transforma. Eu peguei uma informação agora, o que vou fazer com ela? Eu posso mudar, disparar para algum meio ou algum canal que vá refletir em uma ação. É isso, fazer informação virar ação.

Fórum – De onde vem essa interpretação negativa que as pessoas têm em relação aos hackers?

Pedro: Na minha visão, vem da década de 1980. Os filmes começavam a retratar o hacker de forma negativa, o cara que invade, o cara que fica com aquele casaco que você mal vê o rosto dele direito, uma coisa meio dark. O cracker, que é o que retratam na verdade, é o oposto. O cracker  age no intuito próprio, são egoístas, querem invadir, burlar a lei. O hacker, não. Ele quer trabalhar de uma forma colaborativa, tem uma outra visão de mundo. Ele quer uma mudança positiva.

Adriano: Eu acho que, da população em geral, são os meios de comunicação de massa, principalmente os filmes. Tratam o hacker como um criminoso virtual. E eu acho que geralmente o criminoso virtual tem uma característica do hacker, que é uma competência técnica  grande. Os grandes crackers têm isso. Acho que na hora de fazer um filme, eles fazem uma pesquisa, mas escolhem o termo hacker por ser mais comum. Acho que vem daí e isso é um elemento importante e motivador para que a gente possa usar cada vez mais o termo hacker e esclarecer quando houver oportunidade, como agora.

Kamila: Tem um conceito norte-americano bem errado que é vinculado ao hacker. A própria cultura de uma forma geral das pessoas, de você enxergar coisas inovadoras… Quando você não tem esse conceito formado, você começa a achar estranho qualquer outro conceito que esteja implementado, e o atual é o hacker.  Há essa disparidade de conceitos, de aceitação. Mas isso vem de questões culturais e educacionais e é muito refletido pelo que passam em filmes, séries etc.

Foto: Ana Maria Muller

 

 

 

 



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