Grécia tem saída fora da rendição incondicional?

Tsipras preferiu evitar o confronto imediato, preservar as condições de governabilidade e acumular forças para embates futuros, talvez em uma Europa menos coesa ao redor da Alemanha de Merkel e da França de Hollande

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Tsipras preferiu evitar o confronto imediato, preservar as condições de governabilidade e acumular forças para embates futuros, talvez em uma Europa menos coesa ao redor da Alemanha de Merkel e da França de Hollande

Por Breno Altman, em seu blogue

Guardadas as devidas e gigantescas proporções históricas, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, está diante de seu Brest-Litovsk.

Explico-me.

Quando a revolução socialista foi vitoriosa na Rússia, em outubro de 1917, o país estava mergulhado na primeira grande guerra, que havia destruído praticamente toda a infraestrutura e ceifado milhões de vidas.

Uma das grandes bandeiras de Lênin e seus companheiros, então, era a decretação unilateral da paz, associada a um chamamento para que os trabalhadores de toda a Europa se levantassem contras as burguesias de suas próprias nações.

Mas dois meses depois da tomada do poder pelos comunistas, as tropas alemãs continuavam a avançar, ameaçando a consolidação revolucionária.

Berlim exigia, para deter sua ofensiva, que a Rússia rompesse todos compromissos com França e Inglaterra, além da anexação dos Estados bálticos e da adoção de um regime de protetorado germânico na Ucrânia e na Bielorússia.

As negociações ocorreram em uma cidade chamada Brest-Litovsk, município então integrante do território polonês, entre dezembro de 1917 e março de 1918.

Os bolcheviques reivindicavam uma paz sem anexações nem indenizações. A Alemanha e seus parceiros, no entanto, detinham força militar e econômica muito superior.

A maioria do comitê central comunista defendia o rechaço às condições prussianas e a continuidade da guerra, na expectativa que a revolução se espalhasse pela Europa Central, incluindo a própria Alemanha.

Lênin, porém, advogava pela assinatura imediata do acordo, aceitando todas as imposições desde que a paz fosse celebrada e a Rússia soviética pudesse sobreviver.

Ameaçou abandonar o comando do governo se não fosse aceita sua posição. Apostando todo seu prestígio e liderança, o principal chefe da revolução dobrou seus camaradas, enfrentando divisões, choros e ranger de dentes.

Para ele, o que estava em jogo era a preservação ou o colapso da primeira revolução operária, cuja questão decisiva era o fim do conflito com a Alemanha, que ameaçava sua fronteira ocidental.

Os russos assinaram o Tratado de Brest-Litovsk em 3 de março de 1918.

A paz foi decisiva, nos meses seguintes, para o governo bolchevique enfrentar vitoriosamente a contrarrevolução, incluindo novas invasões estrangeiras, em uma guerra civil que durou de 1918 a 1922, ao cabo da qual foi possível a recuperação da Ucrânia e da Bielorrussia.

O chefe do Syriza vive encruzilhada de dramáticas semelhanças com este antigo episódio do século passado.

A alternativa ao acordo fechado nesse final de semana, com a saída da eurozona, seria enfrentar situação de insolvência e colapso que rapidamente poderia levar à queda do governo de esquerda, sustentado no Parlamento por uma coalizão com os Gregos Independentes, nacionalistas de centro-direita.

Este caminho, defendido principalmente pelo Partido Comunista, não apresenta apoio interno ou solidariedade internacional suficientes.

A maioria do povo continua amplamente favorável à integração regional e não se dispõe a pagar por uma ruptura de resultados imprevisíveis.

Rússia e China, por razões geopolíticas evidentes, não se mostram dispostas a estender suas teias financeiras a um país que cumpre papel estratégico na defesa militar das grandes potências capitalistas.

Tampouco revelam inclinação para participar de uma operação frontal contra a União Europeia, arriscando-se a provocar cenário mundial de elevada tensão.

Improvável que a Grécia tivesse condições autóctones de resistir às sanções econômicas que lhe seriam impostas como punição pela rebeldia. Não possui riquezas naturais importantes, sua indústria e agricultura são débeis, as principais receitas dependem da área de serviços, principalmente do turismo.

A conclusão de Tsipras parece ser que as fragilidades para consolidar uma trilha independente, nesse momento, seriam intransponíveis.

Na prática, levaria a Grécia a uma tentativa revolucionária, de caráter anticapitalista, sem combustível político ou material para sequer começar a travessia.

A estratégia do Syriza, a partir desta constatação, mudou de eixo.

Sua direção passou a entender que não haveria outra saída salvo aceitar as demandas financeiras dos credores europeus, desde que pudesse ter novos créditos para impedir a debacle econômica imediata e viesse a preservar parte da soberania grega.

O plebiscito do dia 5 de julho foi decisivo para Tsipras ter músculos para ir ao limite na disputa com as instituições europeias e arrancar algumas concessões, na lógica de intercambiar rendição condicional por tempo e sobrevivência.

A Troika, afinal, está disposta a quebrar e humilhar a Grécia, utilizando este caso como alerta contra outros povos da região que queiram abrir alas para uma esquerda antagonista.

O primeiro-ministro acabou, assim, por aceitar um pacto medonho.

O pacote inclui a criação de um fundo de ativos para privatização na ordem de 50 bilhões de euros, incluindo empresas de energia, transportes e telecomunicações.

Também faz parte da encomenda endurecimento das condições de aposentadoria, aumento de impostos sobre consumo, corte de subsídios regionais e redução dos gastos públicos, entre outras medidas draconianas para aumentar o superávit fiscal e garantir o pagamento dos credores.

Mas Tsipras, ao jogar a cartada da capitulação negociada, conseguiu estabelecer divisões entre França e Alemanha, o que lhe permitiu voltar para casa com cinco ofertas importantes, além de evitar a desidratação final da economia grega em poucos dias:

– O fundo de privatizações não será controlado por um consórcio internacional baseado em Luxemburgo e controlado por Berlim, como era a proposta inicial, mas dirigido pelo próprio governo grego.

– Dos 50 bilhões de dólares a serem obtidos com estas privatizações, 50% se destinarão a socorrer o sistema bancário e 25% a reduzir o endividamento público, mas outros 25% poderão ser investidos na recuperação econômica.

– A Grécia, cumpridas as exigências pactuadas, terá acesso a um plano de resgate no valor de 86 bilhões de euros, supostamente suficientes para respirar até 2018.

– Parte dos novos empréstimos, no valor de 35 bilhões de euros, poderão ser aplicados em programas de desenvolvimento e geração de empregos.

– Os credores assumiram o compromisso de analisar a reestruturação da dívida grega, no final do ano.

O líder do Syriza não voltou para casa vendendo felicidade, ao contrário do hábito de certos dirigentes progressistas que são useiro e vezeiro em fazer, da necessidade, virtude.

Suas palavras referem-se às tratativas com os credores como “resultado possível de uma dura batalha para garantir que a Grécia continue na zona do euro e possa se salvar”.

Travará, nos próximos dias, outro combate, dessa vez interno, para convencer seu partido a apoiar o acordo que subscreveu e aprovar, no Parlamento, entre 15 e 22 de julho, os itens exigidos para o início do socorro europeu.

Tsipras preferiu evitar o confronto imediato, preservar as condições de governabilidade e acumular forças para embates futuros, talvez em uma Europa menos coesa ao redor da Alemanha de Merkel e da França de Hollande.

A aposta é perigosíssima, pois não são pequenas as chances de erosão profunda em sua base política e eleitoral, além da tendência do garrote financeiro ser aliviado apenas momentaneamente.

Vozes importantes reagem contra sua política, entre as quais a do ex-ministro da Fazenda, Yanis Varoufakis, e de representantes das correntes mais radicalizadas do Syriza, que podem até mesmo levar a dissidências públicas na coalizão.

Muitos companheiros de viagem devem estar desgostosos, na situação atual, por Tsipras não enxergar ou desprezar pistas que poderiam levar ao Palácio de Inverno da mitologia política.

Mas o primeiro-ministro grego, para o bem ou para o mal, deve mesmo preferir, nestes dias decisivos, a lembrança daquela cidadezinha outrora polonesa, na qual a delegação bolchevique entregou todos os anéis e muitos dedos para sua revolução continuar engatinhando e respirando.]

Montagem: blogue do Breno Altman



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