Mais uma mulher pode ter morrido vítima de aborto clandestino no Rio de Janeiro

Tatiana Camilato, de 31 anos e grávida de quatro meses e meio, saiu de casa há uma semana para fazer um aborto clandestino e não voltou mais. A família só voltou a ter notícias suas no dia seguinte, quando foi levada por uma mulher...

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Tatiana Camilato, de 31 anos e grávida de quatro meses e meio, saiu de casa há uma semana para fazer um aborto clandestino e não voltou mais. A família só voltou a ter notícias suas no dia seguinte, quando foi levada por uma mulher desconhecida ao hospital. Horas mais tarde, estava morta

Por Redação

(Reprodução/Facebook)
Tatiana Camilato tinha 31 anos e estava grávida de quatro meses e meio (Reprodução/Facebook)

Há exatamente uma semana, no dia 9 de julho, Tatiana Camilato, de 31 anos e grávida de quatro meses e meio, saiu sozinha de sua casa, na zona norte do Rio de Janeiro, para fazer um aborto clandestino na mesma região. Sua família só voltou a ter notícias suas no dia seguinte, quando foi levada por uma mulher desconhecida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Engenho Novo, também na zona norte. Horas mais tarde, estava morta.

“Ela contou [sobre o aborto] apenas para uma amiga e para a minha filha de 15 anos. Essa amiga ainda tentou tirar essa ideia da cabeça dela, mas a Tatiana disse: ‘Eu não tenho saída, preciso fazer isso, sou mãe solteira. Preciso tirar'”, contou ao portal G1 Daniele Camilato, irmã da vítima, que deixa três filhos, de 9, 12 e 13 anos. A Polícia Civil carioca investiga o caso.

Segundo Daniele, o corpo de Tatiana apresentava sinais de briga. “No IML e depois, no enterro, a gente via que ela estava arranhada, com um corte na testa. A funerária colou a boca dela para não vermos que ela estava com os dentes muito quebrados, alguns faltando inclusive”, relata a irmã, emocionada. A família aguarda os resultados dos exames realizados pelo Instituto para saber o que de fato aconteceu.

Daniele também questiona a maneira como Tatiana teria chegado ao hospital – a mulher responsável por conduzi-la ao local apresentou nome e telefone falsos. “Ela teria dito que viu Tatiana passando ali na região. É mentira, porque não ela não costumava andar por ali. Disse que minha irmã estava passando mal, foi ao banheiro e teve seguidas evacuações, passou muito mal”, afirma.

O celular e o valor destinado ao aborto – R$ 650 – foram retirados da bolsa da vítima, deixada na UPA junto a ela.  “Onde está essa mulher? Onde está o celular da minha irmã?”, pergunta Daniele.

Parte das estatísticas

O que ocorreu com Tatiana Camilato não é um fato isolado: no Brasil, milhares de mulheres morrem todos os anos em decorrência de abortos realizados em condições precárias e inseguras.

(Foto: Reprodução/Facebook)
Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, morreu no ano passado após uma tentativa mal-sucedida de aborto (Foto: Reprodução/Facebook)

Embora o procedimento seja legalizado em três casos no Brasil – gravidez resultante de violência sexual, anencefalia do feto ou risco à vida da mulher –, as interrupções clandestinas acontecem em grande quantidade. Segundo a pesquisa “Magnitude do abortamento induzido por faixa etária e grandes regiões”, produzida pelos professores Mario Giani Monteiro, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, somente em 2013, cerca de 850 mil abortamentos induzidos podem ter ocorrido no Brasil. Destes, conforme o Ministério da Saúde, apenas 1.523 são casos de abortos legais.

No ano passado, outro caso semelhante ao de Tatiana atingiu repercussão nacional: em agosto, também no Rio de Janeiro, Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, perdeu a vida após uma tentativa mal-sucedida de interrupção da gravidez. Segundo sua mãe, Maria Ângela Magdalena, a filha havia completado 12 semanas de gestação e teria decidido abortar por “desespero”.

Dias após ter saído de caso para se submeter a um aborto – que lhe custaria R$ 4,5 mil –, o corpo de Jandira foi encontrado carbonizado na zona oeste da cidade. A Polícia Civil pediu, ainda em 2014, o indiciamento de dez pessoas pelos crimes de aborto, fraude processual, formação de quadrilha e ocultação de cadáver.



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