Aldo Fornazieri: O abate de Cunha e o novo estágio da crise

Ao se associar ao presidente da Câmara, Aécio teve por objetivo dar vazão ao se inconformismo pela derrota em 2014 e se vingar de Dilma. O tucano quer chegar à presidência mesmo que seja pela via aventureira de um golpe parlamentar. Já Cunha, ao...

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Ao se associar ao presidente da Câmara, Aécio teve por objetivo dar vazão ao se inconformismo pela derrota em 2014 e se vingar de Dilma. O tucano quer chegar à presidência mesmo que seja pela via aventureira de um golpe parlamentar. Já Cunha, ao anunciar que rompeu com o governo, fez apenas um gesto farsesco, pois nunca esteve com o governo

Por Aldo Fornazieri, no Jornal GGN

O chumbo que saiu de novas delações premiadas da Lava Jato e que atingiu o deputado Eduardo Cunha em seu voo desenvolto e agressivo configurou um novo estágio da crise política. Esse estágio aumentou o grau de incerteza acerca do desdobramento da crise e obriga os vários atores do jogo político a se reposicionarem. De imediato, a denúncias que atingiram Cunha são fortes e contundentes o suficiente para que a consciência democrática exija seu imediato afastamento da presidência da Câmara. Em países em que se pratica uma democracia decente, Cunha não só deveria se afastar da presidência da Câmara, mas também renunciar ao seu mandato. Se Cunha não se afastar pela pressão democrática, deveria ser afastado pela justiça, pois demonstrou o quanto ele é perigoso, na medida em que, segundo informações da imprensa, ele ameaça testemunhas direta ou indiretamente. A democracia e a legalidade não podem tolerar tal conduta.

O chumbo que atingiu Cunha o tornou ainda mais perigoso. Ao desengavetar CPIs e dar provimento a pedidos de impeachment, revela-se o risco em que consiste em colocar uma pessoa irresponsável no comando de uma das instituições mais importantes da República. Ao querer fugir de responder pelos seus atos e pelas denúncias que o atingem, Cunha mostra que não tem limites e que está disposto até mesmo a mergulhar o país numa crise institucional por interesse próprio.

O PSDB de Aécio Neves e outros setores da oposição precisam pagar o preço por sua associação com Eduardo Cunha. Fica claro que a ação de Aécio nunca teve como objetivo um saneamento moral e institucional da política brasileira. Ao se associar a Cunha, o presidente do PSDB simplesmente teve por objetivo dar vazão ao se inconformismo pela derrota em 2014 e se vingar da presidente Dilma. Ademais, Aécio quer chegar à presidência da República mesmo que seja pela via aventureira de um golpe parlamentar. Cunha, na verdade, ao anunciar que rompeu com o governo, fez apenas um gesto teatral e farsesco, pois nunca esteve com o governo. Ele sempre agiu como biombo do PSDB de Aécio Neves, servindo-lhe de instrumento para minar a governabilidade do país.

Movimentação dos atores: As Forças da Sensatez e as Forças da Irresponsabilidade

A crise política vem gerando uma espécie de alinhamentos inorgânicos das forças políticas em torno de duas condutas: a sensatez e a irresponsabilidade. Michel Temer vem se tornando quase um ícone da sensatez ao resistir ao golpismo de Cunha e de Renan Calheiros no PMDB. Ele se tornou o fiel da balança não só do pouco que resta da estabilidade do governo, mas também vem galgando degraus como fiel da balança da estabilidade institucional do país. Com Cunha enfraquecido, Temer tem a chance de retomar um maior controle do PMDB e de pensar na pavimentação de um caminho que leve a 2018.

O governador Alckmin, ao seu modo e pelos seus interesses políticos legítimos, também vem se perfilando nas forças da sensatez ao se posicionar contra o impeachment. O seu objetivo é que Dilma chegue até 2018, garantindo uma governabilidade mínima do país, mas com o PT desgastado e interditado pelo eleitorado. Até lá, Alckmin construiria sua candidatura presidencial. Com o possível registro definitivo da Rede Sustentabilidade, Marina Silva pode voltar ao jogo político. Com que desenvoltura ainda não se sabe. Os sinais que ela vem emitindo é que se situaria no campo das forças que querem evitar uma crise institucional do país.

Os três principais cavaleiros da insensatez são Aécio Neves, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Eles não medem as conseqüências para atingir seus objetivos pessoais, mesmo que isto signifique mergulhar o país numa grave crise institucional. São apoiados por deputados que tiveram campanhas financiadas com dinheiro da corrupção. Cunha e Renan, não só se dispõem a confrontar o Planalto, mas também o Ministério Público, o STF e a Polícia Federal.

Nesses realinhamentos todos, o PT e Lula têm pouco espaço de manobra, atingidos em cheio pela operação Lava Jato. Pelo lado do governo, o enfraquecimento de Cunha, ao mesmo tempo em que fez crescer o risco do impeachment, abriu uma janela de oportunidades. Tendo em vista o recorrente histórico de trapalhadas de Dilma e de seu governo, resta saber se essa janela será aproveitada. Essa janela implicaria uma reforma ministerial capaz de dar mais solidez ao governo; a implementação de medidas de retomada de crescimento econômico; um recomeço de relação com os partidos aliados e uma maior articulação com forças econômicas e sociais tendo em vista a estabilidade institucional, a retomada do crescimento e políticas de redução dos efeitos do desemprego.

Impeachment e Crise Institucional

São vários os fatores que indicam que a abertura de um processo de impeachment mergulharia o Brasil numa crise institucional, com possíveis confrontos de rua. Há razões fortes que sustentam a tese de que o impeachment representa um golpe político e parlamentar. Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que presidencialismo não é parlamentarismo. O fato de existir um presidente politicamente enfraquecido, não legitima o impeachment. O impeachment precisa ter um fundamento jurídico-político e não apenas político. A ação que o PSDB move contra a chapa Dilma-Temer no TSE, por abuso de poder econômico, seria perfeitamente aplicável à campanha de Aécio Neves. As chamadas pedaladas fiscais também não constituem motivação jurídica suficiente para o impeachment. Neste contexto, o impeachment seria puramente político, o que caracteriza um golpe.

Com um possível governo sucedâneo ao de Dilma, nada indica que a situação econômica e social melhoraria – fator que poderia agravar o conflito político com greves, com a politização das greves e com possíveis atitudes de desforra das forças sociais e de esquerda. O PT passaria a se colocar na condição de vítima.

O que se tem então é que o país poderá ter uma trajetória até 2018 sem Dilma muito pior do que com a continuidade de Dilma. Em síntese: vários atores começam perceber que se a situação está ruim com Dilma, seria muito pior sem ela. Dilma oferece um frágil horizonte de previsibilidades. Com o impeachment o Brasil se veria diante de uma densa e imperscrutável neblina. Nesse cenário, não se trata de criar uma coalizão de forças para salvar o governo Dilma. Essa é uma tarefa que o próprio governo deve resolver. O que se trata é de agir com responsabilidade e aglutinar forças que impeçam a crise institucional.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Fotomontagem: Jornal GGN



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