Cora Coralina, a primeira biblioteca feminista de São Paulo

Inaugurada do início de julho, sala temática, localizada na zona leste da capital, é marco importante para as mulheres da região e da cidade. Além de reunir acervo específico sobre gênero, espaço abrigará eventos como rodas de conversa, debates, apresentações e saraus

1375 0

Inaugurada do início de julho, sala temática, localizada na zona leste da capital, é marco importante para as mulheres da região e da cidade. Além de reunir acervo específico sobre gênero, espaço abrigará eventos como rodas de conversa, debates, apresentações e saraus

Texto e fotos por Anna Beatriz Anjos

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 205 clicando aqui

Inaugurada no último dia 4, a Sala Temática Feminista da Biblioteca Cora Coralina – a primeira da cidade de São Paulo – é um ambiente especial. Contradiz a impessoalidade e a sisudez das paisagens da capital com suas amplas janelas, que dão passagem à luz do sol. Os vidros que compõem as ventanas abrigam versos de escritoras e poetisas, na leitura dos quais é possível se perder. Se os demais espaços da Biblioteca são brancos, as paredes da sala são coloridas e adornadas por retratos e pinturas produzidas por mulheres. Qualquer um que adentre o local se sente convidado a passear por ele, examinar atentamente seus detalhes, escolher algum dos mil títulos que oferece e se acomodar para nas páginas mergulhar.

Localizada em Guianazes, na zona leste da cidade, a biblioteca feminista, como tem sido chamada, é fruto de uma parceria entre as secretarias municipais da Cultura e de Políticas para as Mulheres. Seu acervo, construído a partir de doações, ainda está em formação – quem quiser ceder algum exemplar, basta levar até lá.

“A intenção é transformar o espaço em referência na área de gênero e diversidade sexual. A ideia é que não seja apenas para leituras eventuais, mas que se torne referência de pesquisa”, afirma Denise Dau, secretária Municipal de Políticas para as Mulheres. “Nossa pretensão é que não seja só uma biblioteca importante, referência da zona leste, mas que consigamos chegar em um nível que uma estudante da USP que for fazer uma tese abrangendo as políticas de gênero se anime e ache que aquele acervo pode ajudá-la na construção de seu trabalho.”

Uma das características mais interessantes da nova biblioteca é a região onde está localizada. Já que grande parte dos equipamentos públicos de cultura e lazer se concentram no centro da cidade, optou-se por infringir essa lógica e levar a sala temática à periferia. Para a militante feminista Iris Leite, moradora de São Mateus, isso faz toda a diferença. “A zona leste tem um movimento forte de mulheres, mas a gente não tem espaço, na realidade, porque é tudo muito centralizado. Uma das coisas mais incríveis [sobre a biblioteca] é a questão da descentralização. Para participar das coisas, sempre precisávamos ir para o centro, e com o espaço aqui fica muito mais fácil”, destaca.

A efervescência de coletivos e movimentos sociais – sobretudo relacionados à luta das mulheres – presente na região é uma das razões pelas quais a Biblioteca Cora Coralina foi eleita para abrigar a sala temática. “Por aqui há vários grupos culturais e equipamentos [públicos] que trabalham com a questão das mulheres. Há muitas pessoas que militam em prol dessa causa”, esclarece o bibliotecário Cléo Lima, coordenador da unidade.

Resultado de uma parceria entre as Secretarias Municipais da Cultura e de Políticas Para as Mulheres, a sala é a primeira com acervo específico sobre gênero da cidade de São Paulo
Resultado de uma parceria entre as Secretarias Municipais da Cultura e de Políticas Para as Mulheres, a sala é a primeira com acervo específico sobre gênero da cidade de São Paulo

Além disso, a zona leste da cidade ainda é uma área onde os direitos femininos são intensamente desrespeitados. A avaliação é de Maria Aparecida de Lima, fundadora e presidente da Associação de Mulheres da Zona Leste (AMZOL), existente há 28 anos e que desde a década de 90 trabalha com casos de violência doméstica e sexual. “A violência contra a mulher aqui ainda é muito forte, só acho que hoje é mais divulgada”, analisa. “As mulheres buscam mais, denunciam mais. Umas ajudam as outras.”

Idealizada por e para mulheres, a biblioteca teve seu processo de estruturação pensado também por elas, a muitas mãos. Denise explica que o cômodo onde ela funciona estava bastante deteriorado e precisou passar por reformas antes de receber os livros. Em seguida, a ambientação temática, orientada pela artista plástica Biba Rigo, reuniu ativistas de movimentos diversos em oficinas artísticas. Iris participou de duas, e em uma delas foram produzidas telas de autorretrato agora penduradas nas paredes da sala. “Foi um processo extremamente democrático, de partilha mesmo com as mulheres aqui da região. Fomos bastante ouvidas”, conta. “As oficinas começaram dois meses antes [da inauguração], eram encontros semanais, aos sábados, que duravam das 8h às 13h. E nesse espaço, além de fazermos as oficinas, a gente compartilhava a vida, trocava histórias.”

Importância

A primeira biblioteca feminista de São Paulo tem um papel evidente: reunir, em um mesmo local, obras que versam sobre a figura da mulher, os problemas e desigualdades que enfrenta no Brasil e no mundo, além de contar suas histórias sob diferentes ângulos. Uma dessas perspectivas é a do movimento de mulheres da zona leste. “A questão de ter essa biblioteca é resultado de uma luta das mulheres que já vem de muitos anos”, considera Maria Aparecida de Lima. “A minha preocupação é a juventude. E, por meio da biblioteca, ela vai poder conhecer a história da mulherada da nossa região. De todo o Brasil, na verdade.”

Embora concebida em 2013, quando o assunto não estava em pauta, a iniciativa vem em boa hora, no momento em que as Câmaras Municipais Brasil afora discutem os Planos Municipais de Educação (PNE), dos quais fundamentalistas tentam abolir o conceito de “gênero”. “Um acervo de qualidade dá subsídios para que as pessoas possam pesquisar, ter informações sobre o que são as políticas de igualdade de gênero. Começa-se a conhecer mais profundamente a questão do feminismo, e que ele significa a construção da igualdade entre homens e mulheres, não obrigar que as pessoas tenham orientações sexuais induzidas ou promover uma cultura que desvalorize o homem e só valorize a mulher”, argumenta a secretária Denise Dau. “Ter um espaço que valorize o tema como um tema científico, técnico, com dados, ajuda a mostrar como isso é importante para a educação, mostra que isso tem que estar contemplado no currículo escolar.”

Para além de proporcionar literatura qualificada sobre gênero e diversidade sexual, a sala temática pretende dar visibilidade à produção não apenas literária, mas também acadêmica e artística das mulheres, incentivando e difundindo esse conteúdo. “A ideia é que se mantenha o que foi feito no dia da inauguração, quando levamos algumas artistas, e teve desde peça de teatro, até bandas femininas de funk, samba e leitura de poesias. Queremos saraus, debates, rodas de conversa”, adiciona Denise. “A intenção é que possa ser um espaço onde elas façam a produção artística de outras áreas, que seja usado para outras formas de expressão cultural, porque as mulheres nessas áreas também têm muita dificuldade de apoio e de conseguir se formalizar.”

Na visão de Iris Lima, o espaço já tem ajudado nesse sentido. “A biblioteca não é apenas apenas para que a gente absorva cultura, mas para que possamos produzir também. A Biba [Rigo], quando pensou nesse projeto e nos chamou, disse: ‘a biblioteca está aqui mas não vai ficar parada, quem vai produzir tudo somos nós, mulheres’”, relata.

Esse é o sentido do termo “equipamento híbrido”, empregado pela gestão municipal para caracterizar a biblioteca: um ambiente que não só disponibiliza o acervo para consultas, pesquisas e estudos, mas que funciona como terreno de encontro, debate, construção e articulação da militância. Por isso, eventos como seminários, apresentações e exibições de filmes são bem-vindos. E a largada já foi dada: no último sábado (11), uma semana após a abertura, a Marcha das Mulheres Negras se apropriou do local para promover uma roda de conversa.

Acervo da biblioteca conta atualmente com mil títulos, mas a expectativa é de que seja ampliado com doações – qualquer um pode fazê-las
Acervo da biblioteca conta atualmente com mil títulos, mas a expectativa é de que seja ampliado com doações – qualquer um pode fazê-las

Segundo Denise Dau, as Secretarias de Cultura e Políticas para as Mulheres estão juntas elaborando uma programação cultural para a sala temática. Movimentos e coletivos interessados em se reunir por lá podem participar entrando em contato com as pastas ou com a própria unidade.

Superadas as longas etapas de construção e inauguração, o desafio da biblioteca feminista daqui para a frente é expandir seu conjunto de obras e atrair o interesse de pessoas – homens inclusive – mais distantes dos círculos de ativismo. O despertar para os mecanismos de opressão que vitimam as mulheres em nossa sociedade – e que muitas vezes se somam, como no caso das negras – e consequentemente para o feminismo é a missão desta nova trincheira de luta. “A maioria aqui na zona leste é de mulheres que trabalham, que são chefes de família. Muitas não conhecem, não sabem o que é feminismo, acham que não é algo tangível para elas. Passando, olhando mural, talvez desperte a curiosidade dessas pessoas”, conclui Iris.

Biblioteca Feminista Cora Coralina
Rua Otelo Augusto Ribeiro, 113 – Guaianazes, São Paulo
Tel.: (11) 2557-8004
Horário: de segunda a sexta-feira das 9h às 18h; de sábado das 9h às 16h e de domingo das 10h às 15h



No artigo

x