Colégio Anglo é denunciado por transfobia

Luiza conta que logo depois da transição, ocorrida em 2014, seu espaço e atuação dentro da escola foram gradualmente sendo delimitados. Ela sofreu cortes de número de aulas e a diminuição de seu salário, o que inclusive é crime trabalhista.

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Luiza conta que logo depois da transição, ocorrida em 2014, seu espaço e atuação dentro da escola foram gradualmente sendo delimitados. Ela sofreu cortes de número de aulas e a diminuição de seu salário, o que inclusive é crime trabalhista

Por Leo Moreira Sá, no Jornalistas Livres

Pleno século 21 e o preconceito resiste e impera como se estivéssemos em 1900 e bolinha. Ainda. Dessa vez, com a filósofa Luiza Coppieters, professora há 6 anos no ensino médio de um colégio Anglo na Grande São Paulo. Ela foi demitida mês passado exatamente após assumir sua transexualidade. Luiza conta que logo depois da transição, ocorrida em 2014, seu espaço e atuação dentro da escola foi gradualmente sendo delimitado. Ela sofreu cortes de número de aulas e a diminuição de seu salário, o que inclusive é crime trabalhista. Tudo isso, como forma de pressão do colégio para que Luiza se demitisse.

Esse clima de opressão gerou um forte desequilíbrio emocional na professora, que precisou se afastar do trabalho no começo desse ano para se submeter a um tratamento psíquico com diagnóstico de “Síndrome do Pânico”. Quando se preparava para retomar as atividades, a professora recebeu a rescisão contratual.

Luiza começou a lecionar em 2009, como “professor” de Oficina de Ciências Humanas, ainda se apresentando com a expressão de gênero masculina. A partir de 2010, assumiu a cadeira de Filosofia assim que a matéria se tornou obrigatória pelo MEC (Ministério da Educação), desenvolvendo um excelente trabalho, sendo reconhecida pela direção da escola como profissional capaz e dedicad@.

“Sempre fui muito participativa e envolvida com as atividades da escola, desenvolvendo vários trabalhos, montando e coordenando grupos de debates, visando a formação humana e crítica dos alunos, de modo a propiciar e divulgar meu conhecimento, e, sobretudo, contribuir no desenvolvimento de cidadãos conscientes e participativos.”

Antes da transição, Luiza foi preparando as pessoas da escola, explicando cada passo para tod@s @s alun@s, que não só compreenderam como se solidarizaram. A reação transfóbica veio mesmo a partir da direção da escola. A justificativa da rescisão de contrato apresentada pela instituição é que a professora teria abandonado as aulas sem explicação, argumento que ela está combatendo em juízo.

Foto: Acervo Pessoal
Foto: Acervo Pessoal

Num momento de levante fundamentalista, em que as igrejas católica e evangélica se unem para derrubar a proposta de inserção de mecanismos de informação e defesa contra a homo-lesbo-transfobia nos Planos Municipais de Educação, essa denúncia deve ser encampada por tod@s nós, e transformada em bandeira de luta contra a transfobia nas instituições de ensino. No caso de uma professora transexual, não valeria o veto à tal “Ideologia de Gênero”, (expressão dada pelo papa Bento XVI que reduz as lutas feministas e lgbts a uma “conspiração ideológica” com o objetivo de destruir a família e a igreja católica), porque ela própria seria a incorporação dessa ideologia.

Em especial nós travestis, mulheres transexuais e homens trans, temos sido perseguidos implacavelmente nas instituições educacionais, seja como alunos ou como professores. Quando somos crianças, somos alvos fáceis das mais diversas violências, inclusive física no ambiente escolar, o que torna muitas vezes impossível a frequência nas aulas. A evasão escolar da população T é dramática e infelizmente não temos estatística que nos forneça números reais. Somos invisibilizad@s e excluíd@s até nisso. Mas basta constatar empiricamente o grande número de pessoas Ts, em especial travestis, que mal tem o ensino fundamental, e vivem de subempregos ou da prostituição.

Quando, por resistência titânica, conseguimos sobreviver à transfobia na escola e chegamos à faculdade, temos que enfrentar outro grande fantasma: o mercado de trabalho. Trabalho fazendo uma assessoria voluntária no projeto Transempregos, que é um site que abriga os currículos de pessoas Ts a procura de emprego. Temos por volta de quinhentas pessoas esperando uma colocação, mas infelizmente foram poucas as empresas que entraram no site e empregaram algum@ proponente. O transempregos está agora fazendo contato com multinacionais que tem compromisso com pessoas lgbts, para começar a agilizar a inserção de pessoas Ts no mercado formal de trabalho.

Luiza faz parte de uma parcela privilegiada de pessoas Ts que conseguiram se alçar ao ensino superior sem desistir pelo caminho. Mas assim que assumiu sua transexualidade, sua capacidade e talento não foram suficientes, e seu direito de ser educadora foi cassado por uma instituição particular, voltada para treinar adolescentes para o vestibular, obviamente atrelada às “leis do mercado”. Na certa, a direção dessa instituição privada teve medo de perder alun@s/lucros, mas a reação d@s estudantes foi exatamente o contrário. É só visitar a TL do facebook de Luiza para ver a quantidade de mensagens de apoio e igual quantidade de mensagens de repúdio à demissão da professora.



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