Assexualidade, a subversão definitiva?

Esta identidade, que questiona a essência biológica do desejo sexual, deixa evidente que vivemos em uma cultura hiperssexualizada

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Esta identidade, que questiona a essência biológica do desejo sexual, deixa evidente que vivemos em uma cultura hiperssexualizada

Por Irene Blanco e Sonia Tello, tradução livre a partir de Diagonal

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 207 clicando aqui

Para a maior parte da sociedade, pensar na palavra “assexualidade” remete à revisão de algum livro de biologia na seção que fala sobre a reprodução das amebas ou a histórias de monges e sacerdotes que se entregaram a Deus. No entanto, o certo é que mais de 3% da população mundial tem buscado na internet esta palavra para tentar dar sentido a sua vida.

Uma definição muito básica de assexualidade é “baixo ou nulo desejo sexual”. Com esta primeira abordagem, o ativista David Jay abriu, no ano de 2001, um portal online –Asexual Visibility and Education Network o Red para la Visibilidad y Educación de la Asexualidad – no qual subverteu toda a informação e todas as teorias existentes acerca desta identidade.

Esta comunidade expõe abertamente que não sente interesse em ter vínculos sexuais ou românticos com outras pessoas. A gama de identidades dentro desta página é muito ampla, mas todas elas têm em comum a contemplação do sexo como uma atividade que tem baixa ou nula importância em seu cotidiano.

A assexualidade tem sido abordada, sobretudo, em pesquisas científicas por autores como Alfred Kinsey e Anthony F. Bogaert. O estudo da sexualidade humana a partir de uma perspectiva cultural é um enfoque analítico inexistente, e pudemos comprovar isso ao levar a cabo a pesquisa Asexualidad: la construcción biológica y cultural del deseo.

Além de analisar de forma exaustiva os fóruns de páginas da web e entrevistar vários internautas, pudemos aprofundar as complexidades desta identidade e o que representa sua existência para a sociedade.

A cultura do desejo

Repassar aquilo que desperta nosso apetite sexual é um exercício interessante: o ombro desnudo de uma mulher, um homem que fuma apoiado em uma parede… Mas o que faz com que essas cenas nos posicionem como sujeitos que desejam? O que há atrás desse erotismo? Esse ombro desnudo surtirá o mesmo efeito em um país que não seja do Ocidente? Deveríamos falar, então, de uma contextualização do desejo? E, se sim, como nossa sexualidade é definida?

Embora a homossexualidade tenha questionado essa questão do desejo, sempre se partiu da ideia de que este é inato. No entanto, quão descabido é afirmar que existem pessoas que não sentem esse desejo? O feminismo tem buscado visibilizar outras formas de desejo, que nem tudo tem que passar pela heterossexualidade ou por horas de um contato meramente genital. Contudo, estas tentativas de reinventar o sexo sempre acabam implicando no desejo em relação a outras pessoas.

O desejo relativo a outras pessoas, independentemente de como se dá, é o eixo central da sexualidade humana. E, junto a este eixo, tem um papel fundamental o gênero.

O gênero está sexualizado, é o que nos faz ver se nos interessa uma pessoa ou não, mas o gênero também pode ser contextualizado. Existe uma concepção ocidental do que é ser homem e do que é ser mulher. Se é assim, como pode ser inato um desejo que parte de algo construído?

A comunidade assexuada é o ponto de inflexão definitivo para poder responder esta pergunta. O prazer sexual está no vértice de nosso entretenimento e do êxito social. Por esta razão, muitas pessoas assexuadas não são capazes de se integrar, o que lhes provoca preocupações que acabam contando em consultas psicológicas.

Este é o instante concreto em que começa seu estigma, já que as entidades médicas lhes asseguram que sofrem de Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo, lhes dão hormônios e também recomendações que só buscam encaixar essas pessoas na “normalidade de sua natureza humana”.

“Estive medicada e deitada em uma bendita cama durante treze anos, sem ajuda de meus pais, que preferiram me ver secar em vida do que aceitar minha peculiaridade. Acham que melhorei? Não, acabei ficando doente de verdade ao ver que não podia cumprir o que a sociedade determina como normal”, explicava uma das participantes de um fórum na internet.

Capitalismo sexual

O que nos choca mais? Ver uma prostituta oferecendo seus serviços na rua ou ver um painel publicitário que se erige atrás dela, no qual se faz uso do sexo para vender algo tão banal como uma colônia? Vivemos em uma sociedade sexocentrista, sociedade que concede um protagonismo absoluto ao sexo. O sexocentrismo se relaciona bem com o capitalismo, já que ambos têm um elemento em comum: a mercantilização do sexo. Uma das chaves da permanência do sistema capitalista é sua capacidade de absorção das lutas empreendidas pelos movimentos sociais. Aparece o interesse econômico e as figuras que antes eram incômodas passam a ser bem-vindas. Mas há um preço: fagocitar o protesto, despolitizar a luta.

A máxima de que “o sexo vende” se converteu em um Pai-Nosso de nossos dias. E encontramos um padrão duplo em sua mercantilização. Vender sexo só vale quando azeita o mecanismo da máquina capitalista, não quando a venda se exerce por meio de seu próprio corpo.

Por isso, a prostituição – referindo-se àquela que se exerce com o empoderamento e a vontade própria – questiona o sistema. Pode-se utilizar o sexo para enriquecer uma empresa ou incrementar a venda de seu produto, mas não se pode fazer uso do mesmo utilizando nosso próprio corpo. Questão de moral ou de concorrência?

O capitalismo sexual gera um desejo concreto. E, em contraposição à imposição, surge a alternativa. Frente ao pornô convencional, encontramos o pornô subversivo. Assim, ou se pratica o sexo seguindo o modelo capitalista ou se pratica seguindo o alternativo. Mas o que acontece se a pessoa não se encaixa em nenhuma das opções possíveis? O que ocorre quando não há interesse no sexo?

A assexualidade se apresenta como uma identidade excluída por sua nula rentabilidade dentro do sexocentrismo, estrutura de poder da qual estas pessoas são perfeitamente conscientes. “Ao imperar o capitalismo como sistema político, este utiliza métodos de controle da população e um deles é a sexualidade humana. Encontramos a hiperssexualização em tudo, desde os meios até os produtos que nos vendem”, explica uma das pessoas entrevistadas.

Dentro do ativismo LGBT, apesar dos esforços realizados para gerar um acrônimo que inclua tudo, parece que fomos vítimas também do sexocentrismo. Talvez a raiz disso seja a necessidade da liberação sexual, de romper com o tabu em torno do sexo, de praticá-lo em liberdade estabelecendo nossos corpos à margem da norma, mas nos vimos apartadas de outras possibilidades.

Mesmo em alguns dos vínculos afetivos mais alternativos, como o poliamor, o sexo segue sendo um elemento diferenciador na hora de estabelecer relações sociais. E, nesta hierarquia, as pessoas assexuadas ficam inevitavelmente relegadas a um segundo plano. “A assexualidade causa um grande dilema na hora de se buscar um parceiro ou companheiro de viagem, porque se estou com uma garota que não é assexuada como eu, ela com o tempo acabaria ficando frustrada porque vai querer manter relações sexuais e eu não”, explica outra das pessoas entrevistadas.

O consolo vem do surgimento de outras variantes, como a anarquia relacional ou a agamia, que buscam equilibrar o privilégio que concedemos às relações sexo-afetivas frente ao resto.

Com este cheque ao monopólio do sexo, poderia ser a assexualidade a subversão definitiva?

BOX – O espectro sexual

A teoria sexual expõe, por um lado, que o prazer sexual pode ser dividido em dois: desejo e libido. O desejo inclui um apetite por contato sexual, genital ou não, com outra pessoa, e a libido é a potência sexual que toda pessoa tem e que não depende de outra para ser alta ou baixa. Desta forma, há assexuados que se masturbam por uma vontade meramente física, sem conotação erótica alguma (sem pensar em nada, por exemplo).

Por outro lado, também se diferencia a atração sexual e a atração romântica. A primeira responde a uma contemplação de outra pessoa como sujeito sexual, se pensa nela a partir de um erotismo que se manifestará “na carne”. A atração romântica, contudo, não tem um marco sexual, mas sim uma vinculação emocional. Muitas pessoas assexuadas têm parceiros pelos quais sentem atração romântica e, em nenhum momento, há entre elas um contato erótico, e outras que só sentem atração sexual quando têm um vínculo emocional/intelectual intenso, ou seja, quando sabem que há uma conexão mútua em muitos âmbitos da personalidade. E também há assexuados que não sentem atração de nenhum tipo.

Por meio destes conceitos, a teoria sexual pretende visibilizar uma ampla gama de realidades cotidianas que questionam a concepção de parceiro, assim como também manifestar que não há tantas diferenças entre a amizade e as relações sentimentais. E, sobretudo, que há pessoas que, socialmente, interagem com códigos que rompem muitos esquemas culturais básicos.

Ilustração de capa: Emma Gascó



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