Lincoln Secco: José Dirceu, a última prisão

O ex-ministro não representa ameaça eleitoral e nem mesmo tem influência preponderante no seu partido. Requentaram seu nome pela simbologia que seu nome ainda guarda na história da esquerda brasileira

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O ex-ministro não representa ameaça eleitoral e nem mesmo tem influência preponderante no seu partido. Requentaram seu nome pela simbologia que seu nome ainda guarda na história da esquerda brasileira

Por Lincoln Secco, especial para o NECPT e Viomundo

Qual a importância da nova prisão de José Dirceu? Nenhuma! Dirceu foi retirado do tabuleiro político em 2005, tornou-se inelegível e cumpre pena de prisão depois de sofrer um julgamento político no Supremo Tribunal Federal. Não representa ameaça eleitoral e nem mesmo tem influência preponderante no seu partido.

Do ponto de vista de um juiz também carece de função prender alguém que já está preso! Afinal, Dirceu cumpre pena de prisão domiciliar em Brasília. Não pode viajar. Só sai para o trabalho. Por que, então, prendê-lo?

Estranhamente, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região havia negado o pedido de habeas corpus preventivo da defesa de Dirceu. Agora sabemos o porquê.

Não Podem Prender Lula 

Dirceu foi preso porque a operação Lava Jato precisa de um espetáculo por semana. Outros “grandes nomes” já se esgotaram. Empreiteiros famosos  e políticos do PT já estão presos. Requentaram Dirceu pela simbologia que seu nome ainda guarda na história da esquerda brasileira. Não podem prender Lula, ao menos sem graves e imprevisíveis repercussões nacionais e internacionais. Talvez ainda prendam Lulinha, o seu filho. Quem sabe?

É o mesmo estado de direito que silenciou sobre todos os escândalos de  corrupção do governo FHC e do metrô paulista. É a mesma imprensa que não  investiga o mensalão tucano ou uma aeronave com 450 kg de cocaína,  propriedade de parlamentar umbilicalmente ligado a um candidato  derrotado à presidência da República.

Mas para que falar disso se todos já sabem que não acontecerá nada?

Equívocos do PT

O erro de Dirceu (e do PT) foi ter encarado todo o julgamento no STF  como algo passível de defesa jurídica. Tratava-se de julgamento político e, como tal, ele deveria ter denunciado o tribunal, despedido os advogados e feito sua própria defesa. A ilusão de que bons advogados conseguem ao menos redução de pena, caiu por terra no seu caso. Sempre haverá outro juiz midiático pronto para lhe impor mais uma pena.

A tentativa final estampada em todas as matérias jornalísticas e  declarada com gosto por um delegado de voz afinada com o juiz tucano é  provar que a “corrupção petista” sempre foi para fins pessoais. Assim, a  atividade de consultoria de Dirceu serviu a … fins particulares! A  polícia descobre que, expurgado da vida pública e atuante como  empresário ele buscava… lucros. Mas o alvo é sempre Ele: Lula. O mesmo  argumento tem servido para dizer que Lulinha ganhou recursos ilícitos do
BNDES ou é dono da Friboy.

Fim e Recomeço?

Quanto a Zé Dirceu, nem sempre concordei com suas opções políticas, mas  respeito seu passado de lutador honrado. Não acredito que ele saia um  dia da prisão. Ele foi marcado para morrer em 1968 e jamais será  perdoado. Antes de seu julgamento ele disse que se dedicaria legalmente  como consultor a ganhar dinheiro para pagar seus advogados e se manter.

Foi um erro de quem aderiu à social democracia e acreditou na  imparcialidade das instituições? O que eu penso de consultorias? É o mesmo que penso de qualquer negócio  capitalista, mas isso não torna Dirceu culpado segundo os mores do  sistema em que vivemos. Dizer que ele criou o esquema de corrupção da  Petrobrás é puro ataque político. O esquema havia no governo tucano,  como disse um dos delatores.

Ninguém no PT vai reagir a nada. Até porque simplesmente mostrar que o  PSDB também é corrupto não salva a pele de ninguém. Com isso, eu me  despeço da figura histórica de José Dirceu. Ao contrário de neopetistas,  eu e muitos outros o defenderemos publicamente. Acompanhei sua  trajetória recente no PT e fora dele. Ela terminou. Espero que ele  abandone o circo das formalidades jurídicas e defenda a si mesmo. Assim,  quem sabe possa reencontrar sua história. Por que esta é quem o absolverá.

Força Zé!

Dixit, et salvavi animam meam. Disse e salvei a minha alma.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil



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