Murilo Cleto: o que não foi dito pelo programa do PT

Em dez minutos de inserção, muita coisa se disse pelo partido que enfrenta uma das mais graves crises na história da democracia no país. Mas, para que se permita ter alguma esperança de superá-la, como pede a gravação, é preciso buscar primeiro o que...

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Em dez minutos de inserção, muita coisa se disse pelo partido que enfrenta uma das mais graves crises na história da democracia no país. Mas, para que se permita ter alguma esperança de superá-la, como pede a gravação, é preciso buscar primeiro o que não se disse, num exercício bem mais doloroso do que o anunciado pelo texto

Por Murilo Cleto

Em dez minutos de programa, muita coisa foi dita pelo PT durante campanha exibida em rede nacional nesta quinta-feira (6). O PT disse, por exemplo, que a esperança é sempre o melhor caminho para sair de uma crise, qualquer crise. Disse que ela, a crise, continua no mundo todo e que o governo a retardou aqui no Brasil com uma série de desonerações que evitaram o desemprego e o arrocho depois do efeito cascata causado desde a emblemática falência do Lehman Brothers em 2008.

O programa também disse que foram batidos recordes de exportação e de redução do desmatamento na Amazônia, assim como da pobreza. Disse que o país não parou de priorizar o desenvolvimento e que está em marcha uma campanha de desestabilização que pode mergulhar o país numa nova experiência autoritária, com menções diretas aos 21 anos da última ditadura militar. “Não se deixe enganar pelos que só pensam em si mesmos”, foi o que se disse em off enquanto eram exibidas imagens de líderes da oposição e se pedia à população que não permitisse que a crise econômica se tornasse também política.

Mas, para que se permita ter alguma esperança de superá-la, como pede a gravação, é preciso buscar primeiro o que não se disse, num exercício bem mais doloroso do que o anunciado pelo texto.

O que o programa não disse é que nesta lista de opositores egoístas foram poupados os integrantes da própria base do governo, que tão ou mais frequentemente o atacam para garantir regalias concedidas em nome de um projeto de governabilidade que, lá atrás, serviu para sustentá-lo quando possivelmente ninguém mais o faria.

Também não foi dito que o Minha Casa, Minha Vida, citado pelo programa como um dos grandes feitos a se enaltecer, não resolveu o déficit habitacional do país e, pelo contrário, tem respeitado a lógica da especulação imobiliária nos grandes centros urbanos, contribuindo para o agravamento da inflação nos aluguéis e a concentração de capital nas mãos das empreiteiras. Isso, claro, sem contar a permanência da política de juros que faz bancos fecharem as contas com lucros estratosféricos enquanto finge-se que a atual dívida pública seja, de alguma forma, aceitável.

Não foi dito que a política de desenvolvimento, inegavelmente prioritária, tem provocado danos irreparáveis nas áreas de ocupação indígena, como Belo Monte, que expõe grande parte deste universo de contradições.

O programa não disse que o slogan “Pátria Educadora” esfarelou logo nos primeiros meses de mandato com a série de cortes no setor, especialmente nas áreas menos visíveis e de menor apelo eleitoral, como a pesquisa. Não disse também que a opção pela nova injeção no Fies privilegia instituições privadas num momento especialmente delicado para as universidades públicas.

Sobre a própria crise, também não se disse que os efeitos colaterais do antídoto aplicado por Mantega foram criminosamente escondidos para garantir a reeleição da presidenta, quando bancos públicos sustentaram programas sociais sem dinheiro em caixa, e remediados com doses anabolizadas pelo atraso. Não foi dito que agora executa-se talvez exatamente o mesmo programa econômico de Aécio Neves, demonizado na campanha de 2014 como detonador dos direitos trabalhistas, atacados agora ao contrário de tudo o que se prometeu ali.

Mas, verdade seja dita, ao contrário do que se alardeou nas primeiras horas em que esteve no ar, o programa também não disse, na frase estampada ao lado de José de Abreu, que o partido errou “tentando fazer o bem” diante dos desvios éticos sob responsabilidade direta ou indireta do Planalto. O que se disse, isso sim e em alto e bom tom, é que não se “acertou em cheio” – outro não-dito como eufemismo para o erro – quanto às medidas para conter a crise econômica.

Aliás, sabe-se lá o porquê, o programa também não disse que a desvalorização do real tem provocado resultados positivos na indústria, o primeiro setor atingido pela crise, como estampou ontem a capa do Valor Econômico, e ao contrário do que insistem os saudosos da paridade do dólar a qualquer custo.

Entre o dito e o não-dito, o programa do PT talvez seja sintoma da ausência de uma autocrítica que tanto o afastou da base que o elegeu quanto permitiu crescer o que havia de pior no cenário político nacional, agora despertado por uma crise política possivelmente irreversível. A reação a ele, ainda a se agravar com a exibição na TV, por sua vez desnuda a capilaridade de uma surdez coletiva que colocou o partido numa espécie agoniante de limbo – da direita à esquerda, passando pelo centro e adjacências.

Ao fim e ao cabo, os panelaços, ironizados pela campanha, são a expressão de um Brasil que já não ouve mais, não quer deixar que se ouça e não diz o que não se permite lembrar.

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