O desespero com a alta do dólar é uma falácia midiática

O que a grande mídia geralmente não revela é que a cotação que ela costuma usar em suas comparações cambiais é a nominal, ou seja, aquela que não considera a inflação. E isso faz toda a diferença

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O que a grande mídia geralmente não revela é que a cotação que ela costuma usar em suas comparações cambiais é a nominal, ou seja, aquela que não considera a inflação. E isso faz toda a diferença

Por Otávio Ventura, no Observatório da Imprensa

É notável o bombardeio midiático sobre “como o dólar está alto”. O discurso mais comum tem sido aquele que compara a cotação atual do dólar com a dos últimos anos, a exemplo da manchete “Dólar chega de novo ao maior nível em 12 anos”, veiculada pela Globo em 05-08-2015 por meio do seu Jornal Nacional.

Há quem prefira a ênfase na quantidade seguida de altas que o dólar faz a cada fechamento diário, como na manchete “Dólar sobe pelo 4º dia”, noticiada pela Folha em 04-08-2015. Outros se arriscam a sugerir teses de causa e consequência sobre a alta do dólar, como fez a Veja em 06-08-2015 ao destacar em seu sítio na internet a manchete “Crise política e avaliação de Dilma levam dólar a R$ 3,53”.

Mas, como bem apontaram Rodolpho Gamberini, há poucos dias, e Luis Nassif, há alguns meses, o que a grande mídia geralmente não revela é que a cotação que ela costuma usar em suas comparações cambiais é a nominal, ou seja, aquela que não considera a inflação. E isso faz toda a diferença.

Abaixo temos a inflação anual média dos últimos mandatos presidenciais, bem como a projeção da inflação para 2015:

dólar grafico 01                                                            Elaboração própria. Fonte: IPCA/IBGE

É certo que estas médias anuais estão distantes do pesadelo inflacionário vivido no Brasil antes de Itamar Franco implantar o Plano Real em 1994. Ainda assim, não se pode comprar uma lata de guaraná Antárctica pela mesma quantidade nominal de dinheiro com que se podia fazê-lo em 1995. A inflação acumulada entre 1995 e 2015 deve ficar em torno de 254%. Isso significa que R$1 de 1995 equivale a cerca de R$4 de 2015, em termos reais. O valor real traz a inflação embutida, diferentemente do valor nominal, que não considera a inflação.

O dólar vale menos hoje do que em 1995

A medida de crescimento do PIB esclarece a importância de expressar valores em termos reais. O PIB brasileiro cresceu 7% em 2014, em termos nominais. A princípio, parece ser uma bela taxa. Mas em termos reais, ou seja, com a inflação descontada, o PIB cresceu 0,1% em 2014. E esse é o crescimento real.

Mas, e o dólar?

Em 1995, o dólar podia ser comprado a R$1, a preços da época. Em termos reais, esse R$1 de 1995 equivale a R$4 de 2015. Isso quer dizer que o dólar valia em 1995 o mesmo que R$4 valem em 2015.

A seguir temos a comparação entre a variação nominal e real da cotação do dólar:

dólar grafico 02                                 Elaboração própria. Fontes: IPCA/IBGE e Banco Central

A preços de 2015, o dólar valia cerca de R$4 em 1995, disparou a quase R$8 em 2002, recuou para perto de R$2 em 2010 e atualmente está na casa dos R$3,50. Sob a ótica real, é fácil perceber que o mantra midiático de que a cotação atual do dólar é “a mais alta em 12 anos” é pura falácia. Em termos reais, o dólar vale menos hoje do que valia em 1995. Sim, 1995, aquela época em que o dólar era “tão barato”. E se hoje o dólar estivesse tão caro quanto esteve em 2002, ele estaria valendo cerca de R$8.

Não se deixe enganar, estamos muito distantes disso.

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Otávio Ventura é mestrando em Ciência Política pela UnB e membro da carreira federal de Planejamento e Orçamento

 



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